Petrobras age contra alta do preço de combustíveis e eleva risco de escassez de diesel

Maior produtora de petróleo da América Latina passou a vender combustível abaixo dos preços internacionais, o que pressiona importadores e contribui para uma queda acentuada na entrada de diesel, gerando um possível esgotamento dos estoques

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Bloomberg — A Petrobras, maior produtora de petróleo da América Latina, tem tomado medidas para conter a inflação energética impulsionada pela guerra em ano eleitoral no Brasil, alinhando-se aos esforços do governo — que podem ter efeito contrário e levar à escassez de diesel no país.

A estatal está vendendo combustível abaixo dos preços internacionais, pressionando os importadores e contribuindo para uma queda acentuada na entrada de diesel, gerando um possível esgotamento dos estoques.

O governo também reduziu impostos e introduziu subsídios para o diesel, em contraste com países como o Chile, que respondeu à alta do petróleo aumentando drasticamente os preços dos combustíveis.

“A situação em que o governo se colocou — tanto com os subsídios quanto com Petrobras mantendo os preços — é o pior dos dois mundos”, disse Pedro Rodrigues, sócio da CBIE, consultoria de energia e infraestrutura do Rio de Janeiro. “Se os preços continuarem subindo, ou permanecerem altos por mais tempo”, isso “cria um risco de escassez”.

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Nas últimas semanas, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem se esforçado para conter as consequências da crise do petróleo.

A administração reduziu impostos federais sobre a importação e venda de diesel, além de introduzir uma taxa sobre as exportações petróleo para compensar a perda de receita.

O governo também implementou medidas para garantir tarifas mínimas de frete, embora persistam as preocupações com uma possível greve dos caminhoneiros.

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Desde o início da guerra, a CEO da Petrobras, Magda Chambriard, tem repetidamente afirmado que não há risco de escassez de combustível. Ela também prometeu não repassar a volatilidade dos preços para o mercado brasileiro, e maximizar a produção interna, um objetivo declarado da estratégia comercial da Petrobras desde que Lula assumiu o cargo.

Os preços do diesel no atacado da Petrobras estão atualmente 65% abaixo da paridade internacional, enquanto os preços da gasolina estão com um desconto de 45%, de acordo com a associação de importadores de combustíveis Abicom.

O Ministério de Minas e Energia não respondeu ao pedido de comentário. A Petrobras também não respondeu ao pedido de comentário.

A pressão para conter os preços dos combustíveis limitará os lucros extraordinários da Petrobras com a alta do petróleo e destaca os riscos de investir em uma empresa que rotineiramente sofre pressão para criar empregos e oferecer energia a preços acessíveis.

Os esforços do governo para amenizar as consequências econômicas da guerra com o Irã podem desestabilizar os mercados, se os investidores os interpretarem como intervencionismo.

Os esforços de Lula podem facilmente fracassar.

O líder de esquerda está em empate técnico com o principal candidato da oposição nas pesquisas de intenção de voto para a eleição de outubro, e a guerra com o Irã trouxe o risco de inflação energética para um país onde a riqueza petrolífera há muito sustenta as expectativas de combustível barato. Caminhoneiros ameaçam bloquear rodovias sempre que há um aumento repentino nos preços do diesel.

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“Até duas semanas atrás, a economia não era o tema central da eleição. Isso mudou”, disse o analista político Thomas Traumann. “Agora estamos falando de uma crise do diesel.”

Essa mudança também está repercutindo nos mercados. Desde o início do conflito, os economistas têm reavaliado as expectativas de inflação, com particular preocupação em relação aos setores de alimentos e transporte — setores altamente sensíveis aos custos do diesel.

A ANP alertou, em nota técnica, para um risco “excepcional” no abastecimento de combustíveis, citando sinais iniciais de dificuldades, incluindo problemas no fornecimento de diesel em algumas regiões.

A incerteza pode significar taxas de juros mais altas por um período mais longo. Apesar da pressão do governo por custos de empréstimo mais baixos, o Banco Central anunciou na semana passada um corte de juros mais cauteloso, citando novos riscos externos à meta de inflação de 3%, mesmo depois da taxa Selic ter atingido seu nível mais alto em quase duas décadas.

“A perspectiva para a inflação de alimentos nos próximos meses já era desafiadora — esse choque do diesel só piora a situação”, disse Flavio Serrano, economista-chefe do Banco BMG.

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Os estoques de diesel podem se esgotar em cerca de três meses se os preços domésticos permanecerem abaixo dos níveis internacionais, disse Marcus D’Elia, sócio da Leggio Consultoria, uma consultoria especializada em petróleo, gás e energias renováveis.

“Os estoques limitados de diesel, devido à ausência de uma política de formação de estoques estratégicos no Brasil, podem de fato levar a uma crise de abastecimento”, disse D’Elia. “Essa diferença de preço reduz o incentivo para os importadores trazerem o produto para o país.”

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