Bloomberg — A exigência do presidente Donald Trump de que os bancos emissores de cartões de crédito limitem as taxas de juros a 10% por um ano visa a uma das joias da coroa do setor bancário - uma linha de negócios que eles protegem obstinadamente.
Depois de uma semana abalando os mercados com anúncios que visavam a tornar as moradias mais acessíveis, o presidente se voltou para outro ônus do consumidor: os juros do cartão de crédito.
Dessa vez, seus ataques nas mídias sociais colocaram na mira uma série de emissores de cartões, liderados pelo JPMorgan, Capital One Financial e Citigroup.
As taxas de juros dos cartões - acima de 20% nos últimos anos - tornaram-se um alvo dos legisladores de ambos os lados do espectro político, com projetos de lei surgindo e encontrando forte resistência do setor.
A mobilização se assemelha à que ocorreu no Brasil nos últimos anos. Uma lei aprovada em 2023 limitou a dívida total com juros do rotativo do cartão de crédito. Desde então, ela não pode ultrapassar o dobro do valor original.
Apesar do limite, a taxa de juros média do rotativo do cartão de crédito se manteve em patamar elevado. Em dezembro de 2025, ela era de 440,54% ao ano, quase o mesmo patamar de dois anos atrás (442,10%), segundo dados do Banco Central.
Nos Estados Unidos, os bancos têm feito previsões agourentas sobre o que aconteceria se as taxas fossem reduzidas, colocando em risco a lucratividade: os americanos em dificuldades poderiam perder o acesso ao crédito e recorrer a empresas de crédito de curto prazo e lojas de penhores.
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Mas em resposta ao apelo de Trump para que as taxas caiam até 20 de janeiro, grupos do setor, incluindo o Bank Policy Institute e a Consumer Bankers Association, adotaram um tom mais comedido.
“Compartilhamos o objetivo do presidente de ajudar os americanos a ter acesso a crédito mais acessível”, disseram os grupos em uma declaração conjunta na sexta-feira (9).
“Ao mesmo tempo, as evidências mostram que um teto de 10% para a taxa de juros reduziria a disponibilidade de crédito e seria devastador para milhões de famílias americanas e proprietários de pequenas empresas que dependem e valorizam seus cartões de crédito, exatamente os consumidores que essa proposta pretende ajudar.”
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Para os consumidores que dependem dos cartões de crédito para despesas extras, o custo de carregar um saldo devedor pode ser doloroso.
A taxa de juros média permaneceu em torno de 21% no final do ano passado, de acordo com o Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Nesse nível, o pagamento de US$ 10.000 em três anos gera mais de US$ 3.500 de juros.
Em contraste, a taxa de uma hipoteca fixa típica de 30 anos - outro produto familiar para o consumidor - está um pouco acima de 6%, de acordo com dados da Freddie Mac.
Os bancos há muito tempo argumentam que a dívida de cartão sem garantia precisa de uma taxa de juros alta devido à incapacidade de amortecer as perdas quando os mutuários ficam inadimplentes: não há casa ou carro em garantia para retomar a posse.
De fato, após a crise financeira, as taxas de cartões de crédito subiram para mais de 10%, enquanto as taxas de empréstimos imobiliários residenciais ficaram abaixo de 3%.
Mas, desde então, os empréstimos com cartões se tornaram altamente lucrativos. Em 2024, o JPMorgan disse que o rendimento líquido de seus mais de US$ 200 bilhões em empréstimos com cartões era de 9,73%.
Isso gerou a maior parte dos US$ 25,5 bilhões de receita para sua unidade de serviços de cartões e automóveis, embora o banco também tenha tido cerca de US$ 7 bilhões de baixas vinculadas a cartões.
Depois que os esforços legislativos foram interrompidos no ano passado, não está claro como Trump forçaria os bancos a reduzir as taxas em questão de dias – além de usar seu púlpito de intimidação.
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Próximos passos
Se um limite fosse implementado, o impacto sobre os bancos e os consumidores variaria muito.
Para os tomadores de empréstimos mais arriscados, os bancos provavelmente teriam que encerrar ou reestruturar significativamente as linhas de crédito, aumentar os pagamentos mensais mínimos ou adicionar taxas extras, escreveu o Bank Policy Institute em uma análise no ano passado.
Embora tenha observado a dificuldade de fazer previsões, ele disse que os dados de 2019 coletados pelo Fed indicavam que um limite de 10% teria reduzido as linhas de crédito para 14,3 milhões de pessoas e famílias.
Os credores especializados nesse segmento seriam os mais afetados, de acordo com Himanshu Bakshi, analista da Bloomberg Intelligence.
Isso poderia incluir a Capital One, a pioneira de envios de correspondências em massa com cartões pré-aprovados, a Synchrony Financial, especialista em cartões com a marca ea lojas, e a Bread Financial, cujos clientes tendem a ter renda mais baixa do que os dos grandes bancos.
Um grupo de cooperativas de crédito classificou um possível limite como “devastador” para seus associados.
“As instituições não poderão oferecer cartões de crédito para a maioria dos consumidores a uma taxa de 10%”, disse Scott Simpson, presidente da America’s Credit Unions.
Outras opções para lidar com um limite de 10% incluem reduzir as recompensas e diminuir as promoções, como períodos de juros zero ou taxas baixas, disse o BPI em sua análise.
Os bancos também poderiam aumentar as taxas anuais, dispensar menos penalidades por atrasos nos pagamentos ou aumentar os custos de transferências de saldo ou adiantamentos em dinheiro.
Os bancos talvez consigam fazer ajustes para cortar vários pontos percentuais das taxas de juros dos cartões, mas reduzi-las a 10% eliminaria suas margens, disse Matthew Goldman, fundador da Totavi, uma empresa de consultoria para pagamentos eletrônicos e outras empresas de tecnologia financeira.
“Um limite de 10% significaria o fim dos cartões de crédito para a maioria dos consumidores, exceto para aqueles que menos precisam deles”, disse ele. Por exemplo, “aqueles com crédito muito bom”.
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Impacto regulatório
Para os acionistas de bancos, a exigência abrupta de Trump pode oferecer uma mudança brusca na direção dos ativos.
As ações do setor estão em alta, impulsionadas pelos esforços desregulamentadores de seus indicados - incluindo a redução das regras de capital propostas e dos testes de estresse criados para evitar a repetição da crise financeira de 2008.
O KBW Bank Index, que acompanha 24 grandes credores, subiu quase 40% desde a vitória eleitoral de Trump em novembro de 2024, aproximadamente o dobro do ritmo dos índices de referência que acompanham o mercado mais amplo dos EUA.
Muitos bancos mantiveram essa tendência neste ano, com os executivos seniores prevendo, em particular, um aumento nos lucros de suas operações de empréstimo.
Há muito tempo, os limites das taxas são objeto de debate, com as diferenças entre as leis estaduais de usura historicamente incentivando muitos bancos a estabelecerem unidades em Delaware e Dakota do Sul.
Trump já havia entrado na questão e fez campanha para controlar as taxas dos cartões, mas até agora a maior parte da ação tem sido no Congresso.
Em 2019, o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez propuseram um limite de 15%. No ano passado, Sanders se uniu ao senador republicano Josh Hawley para um projeto de lei que propunha um limite de 10%.
Os legisladores do Senado até tentaram anexar esse limite à chamada Lei Genius, que regulamentou as stablecoins e foi sancionada por Trump em julho, mas os limites não foram incluídos no projeto final.
Os bancos têm uma força de lobby formidável no Capitólio, com grupos comerciais que representam praticamente todos os cantos do setor. Quando veem uma ameaça comum, eles podem se unir rapidamente e formar uma coalizão de aliados.
Para derrotar um esforço da era Biden para endurecer as regras de capital, eles recrutaram defensores dos consumidores que temiam que isso pudesse reduzir os empréstimos.
Em fevereiro passado, depois que Sanders uniu forças com Hawley em seu projeto de lei, um grupo do setor bancário respondeu rapidamente com uma carta pública conjunta.
Alertando que os americanos perderiam o acesso a cartões de crédito, o grupo destacou as alternativas disponíveis no estado natal de Hawley.
“Um em cada nove habitantes do Missouri já usa empréstimos de curtíssimo prazo com adiantamento de salário [payday loans], quase o dobro da média nacional”, escreveram os grupos comerciais.
“Os credores de payday loans no Missouri cobram taxas de juros anuais de mais de 300%.”
-- Com a colaboração de Yizhu Wang, Hannah Levitt e Todd Gillespie. Inclui informações adicionais da Bloomberg Línea sobre as medidas tomadas no Brasil.
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