Oncoclínicas: Fleury encerra negociação e abre caminho para proposta da MAK Capital

Grupo de medicina diagnóstica afirmou nesta segunda que desistiu de negociar a compra de uma fatia da Oncoclínicas em parceria com a Porto Seguro

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Bloomberg Línea — O Grupo Fleury (FLRY3) anunciou nesta segunda-feira (13) que desistiu de negociar a compra de uma fatia da Oncoclínicas (ONCO3) em parceria com a Porto Seguro (PPSA3). A decisão foi comunicada em fato relevante assinado pelo diretor financeiro José Antonio de Almeida Filippo.

Com a saída do Fleury, ganha força a proposta da gestora americana MAK Capital, que tem o BTG Pactual (BPAC11) como representante legal.

O fundo dono de 6,2% da Oncoclínicas mantém na mesa o aporte de R$ 500 milhões, condicionado à eleição de um novo conselho, já prevista para assembleia no próximo dia 30 de abril.

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Segundo o documento, o Fleury notificou formalmente a Oncoclínicas no próprio dia 13 de abril sobre o encerramento das tratativas, menos de um mês depois de ter anunciado, em 23 de março, a adesão a um acordo preliminar para criar uma nova empresa junto com Porto e Oncoclínicas.

A Oncoclínicas e a Porto não comentaram ainda a decisão do Fleury, até o final da noite de segunda-feira.

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O negócio previa que Fleury e Porto injetassem juntos R$ 500 milhões para assumir o controle de uma nova companhia, a chamada NewCo, que receberia as mais de 140 clínicas oncológicas da Oncoclínicas e junto com elas, uma dívida de até R$ 2,5 bilhões. A decisão sinaliza que o Fleury preferiu não herdar esse passivo.

Há menos de três semanas, em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO da Oncoclínicas, Carlos Gil Ferreira, médico oncologista que assumiu o comando da empresa em meio à crise, minimizou a dependência do acordo. Para ele, a parceria com Fleury e Porto era o “plano B”.

O “plano A”, disse ele na ocasião, já estava em execução: cortar custos, renegociar contratos e extrair eficiência das clínicas já instaladas, sem precisar de capital novo para crescer.

“Estamos nos preparando para o curto, médio e longo prazo, com ou sem novos sócios”, afirmou Ferreira naquela entrevista.

O próprio CEO, porém, reconheceu na mesma entrevista que a operação ainda dependia de aprovações regulatórias e societárias, e que a discussão de governança da nova estrutura nem sequer havia começado.

Análise do caso

Para Max Mustrangi, CEO da Excellance, consultoria especializada em gestão e estratégia no setor de saúde, a desistência do Fleury era questão de tempo.

“A Oncoclínicas vem destruindo valor ao longo dos anos, acumulando seguidos prejuízos. A operação de M&A com o Grupo Fleury não se sustentaria financeiramente no longo prazo”, avaliou Mustrangi antes da confirmação oficial da desistência do Fleury via fato relevante.

“De um lado temos um ativo extremamente estressado financeiramente. Do outro, um ativo em vias de ficar estressado”, afirmou.

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Na leitura de Mustrangi, a combinação dos dois grupos levaria à deterioração do Fleury.

“A empresa seria dragada pelo custo e pelo esforço da dívida e dos resultados negativos advindos da operação. Nenhuma das duas tem condições de manter as operações com um caixa único girando”, avaliou Mustrangi.

A turbulência na gestão da Oncoclínicas, marcada por renúncias no conselho de administração e disputas abertas entre acionistas, também foi citada por Mustrangi.

“As divergências e abandonos na frente de gestão apenas evidenciam o clima crítico de uma empresa que compra tempo em relação ao momento atual. Nada mais do que isso”, disse o consultor.

No mesmo dia em que o Fleury anunciou sua saída, a Oncoclínicas protocolou uma ação de tutela cautelar no Tribunal de Justiça de São Paulo com o objetivo de suspender liminarmente o vencimento antecipado de suas dívidas e a exigibilidade das obrigações junto às instituições financeiras credoras.

A medida, segundo a própria companhia, visa “proporcionar um ambiente administrativo e financeiro mais organizado e estável” para negociar com os credores sem interromper as operações. O TJ ainda não julgou o pedido.

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