Negócios

O que as aquisições de US$ 114 bi de Exxon e Chevron sinalizam à Petrobras

Gigantes do petróleo dos EUA investem pesadamente em rivais de combustíveis fósseis em um momento em que crescem os desafios para manter os níveis atuais de produção

Emissions rise from an oil refinery
Por Kevin Crowley, Mitchell Ferman e David Wethe
28 de Outubro, 2023 | 12:20 PM

Bloomberg — A Exxon Mobil e a Chevron passaram os últimos dias explicando aos investidores por que desejam gastar US$ 114 bilhões combinados em dois meganegócios.

Na sexta-feira (27), seus resultados trimestrais revelaram o motivo pelo qual precisam fazê-lo. A produção de petróleo da Exxon (XOM) está próxima do nível mais baixo desde sua fusão com a Mobil há mais de duas décadas. A Chevron (CVX) divulgou desafios para os projetos-chave de crescimento no Cazaquistão e na Bacia do Permiano, no Texas Ocidental e no Novo México.

Em resumo, os dias de crescimento fácil na produção de petróleo acabaram. Um desafio também para petrolíferas de outros mercados, como a brasileira Petrobras (PETR3, PETR4).

A reação do mercado foi rápida e brutal.

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A Chevron despencou quase 7%, e a Exxon fechou com queda de 1,9%, mesmo com os preços do petróleo em escalada devido às tensões elevadas no Oriente Médio. Para Dan Pickering, veterano financista de petróleo de xisto, a reação dos acionistas revela preocupações com o negócio de combustíveis fósseis, especialmente quando comparado a outros setores, como o de tecnologia.

“Bem-vindos ao campo de petróleo”, disse Pickering, fundador da Pickering Energy Partners, sediada em Houston. Os investidores “não acreditam que esse negócio possa ser sustentável, não acreditam na disciplina dessas empresas. Preferem olhar para a Amazon hoje, ou talvez em qualquer dia.”

Diferentemente de seus concorrentes europeus, a Exxon e a Chevron investiram pesadamente em combustíveis fósseis durante o recente período de destaque das questões ambientais, que durou os últimos quatro anos. Mesmo assim, novas fontes de petróleo bruto têm sido difíceis de serem encontradas.

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Em explorações marítimas, os custos são elevados e imprevisíveis. Os campos de xisto dos Estados Unidos estão enfrentando uma diminuição no crescimento da produção, uma vez que as melhores áreas já foram exploradas.

Ambas as empresas realizaram suas aquisições recentes em uma posição mais forte em comparação ao que estavam durante o auge da pandemia. O aumento nos preços da energia no ano passado resultou em lucros recordes recentemente. Suas ações dispararam, proporcionando aos executivos da Exxon e da Chevron uma moeda forte com a qual comprar empresas menores.

A compra da Pioneer Natural Resources pela Exxon, no valor de US$ 62 bilhões, anunciada duas semanas atrás, a tornará a principal produtora na Bacia do Permiano.

A Chevron anunciou na segunda (23) que está adquirindo a Hess por US$ 52 bilhões, o que lhe dará uma participação em um dos maiores e mais rápidos projetos de petróleo do mundo, na Guiana.

Ambos os negócios são transações totalmente em ações, com prêmios de aquisição pequenos, e são os maiores na indústria do petróleo em mais de oito anos. Como tal, ameaçaram ofuscar os balanços de Exxon e Chevron. No entanto as operações existentes também não escaparam da análise minuciosa.

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A Chevron revelou mais um atraso e um aumento nos custos em seu projeto de Tengiz, no Cazaquistão, de US$ 45 bilhões, e que o fluxo de caixa de Tengiz será cerca de US$ 1 bilhão a menos do que o previamente previsto quando finalmente entrar em operação em 2025.

A Exxon tem um perfil de crescimento muito mais forte, já tendo estabelecido presença em Guiana e vendido ativos de custo mais alto.

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No entanto a produção da gigante do petróleo do Texas teve uma média de apenas 3,69 milhões de barris de petróleo equivalente por dia no terceiro trimestre, próxima de uma mínima de duas décadas, uma vez que o crescimento em Guiana e no Permiano não conseguiu compensar o impacto da venda de ativos, da redução na produção da Opep e a queda natural na produtividade que afeta todos os campos de petróleo.

Para piorar as coisas, a Exxon informou que os ganhos provenientes da indústria química, há muito tempo vista como uma área-chave de crescimento para as grandes empresas de petróleo, caíram 70% em relação ao trimestre anterior.

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“A indústria ainda está se recuperando do impacto da pandemia e dos níveis mais baixos de capital que têm sido alocados em toda a indústria para compensar a depleção que vem ocorrendo”, disse o CEO da Exxon, Darren Woods, em uma entrevista na Bloomberg TV.

A Chevron apresentou uma lista de problemas técnicos no Permiano: limitações na produção de águas residuais, altos níveis de dióxido de carbono em seu gás natural, parceiros de produção com dificuldades na fraturação hidráulica.

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Embora empresas menores tenham reclamado de problemas semelhantes à medida que o Permiano se expandia para se tornar o maior campo de xisto do mundo, é incomum ouvir esses detalhes de uma gigante do petróleo.

“Isso é um exemplo do amadurecimento da bacia”, disse Pickering. “O que é surpreendente é que a Chevron destacou isso, porque normalmente eles são uma grande empresa e não costumam se aprofundar tanto nos detalhes.”

Resolver esses problemas provavelmente aumentará os custos.

A indústria global de petróleo e gás deve aumentar os gastos em cerca de 10%n este ano, para US$ 545 bilhões, de acordo com o JPMorgan Chase, após aumento de 34% no ano anterior. No início desta semana, o CEO da Halliburton, Jeff Miller, lembrou aos investidores de um dos maiores desafios da indústria, especialmente no setor de xisto.

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“A realidade é que você precisa fazer mais trabalho para se manter no mesmo patamar.”

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