Novas canetas para emagrecimento não vão baratear tratamento no Brasil, dizem bancos

Citi e JPMorgan veem com ceticismo expectativa de queda imediata de preços, apontam desafios comerciais para indústria e varejo e divergem sobre quem lucra mais com novas aprovações de canetas usadas para perda de peso pela Anvisa

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Bloomberg Línea — A entrada de novos medicamentos para perda de peso no mercado brasileiro não vai se refletir imediatamente em uma redução no preço de compra das canetas com semaglutida. O avanço das novas marcas depende da negociação com as redes de farmácia e da prescrição médica, não do balcão, segundo avaliação de analistas do setor.

Essa limitação decorre do fato de que a regra definida pela Anvisa, a agência sanitária brasileira, ao registrar na quarta-feira (29) cinco novos medicamentos do tipo, não permite troca automática de um remédio por uma opção genérica mais barata.

A lei brasileira permite que pacientes possam trocar remédios por genéricos no balcão das farmácias por medicamentos que comprovaram equivalência a um produto de referência. Mas, para os cinco medicamentos com semaglutida que a Anvisa acaba de liberar, a regra não se aplica e não pode haver troca automática. Cada um deles entrou como medicamento novo, com registro individual, publicado no Diário Oficial da União, e a regra de troca não se aplica.

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Segundo a Anvisa, as cinco canetas usam semaglutida obtida por via sintética e foram registradas por comparação com o Ozempic, produto biológico da Novo Nordisk (NVO), para adultos com diabetes tipo 2 insuficientemente controlado.

Joseph Giordano, analista do JPMorgan responsável pela cobertura de produtos farmacêuticos e varejo de medicamentos no Brasil, escreve que a ausência de intercambiabilidade automática significa que a categoria ainda não é uma “full generic commoditization”, ou seja, ainda não se tornou um mercado de produto sem marca disputado só por preço.

A competição inicial, na leitura dele, se dá por prescrição, marca, preço e disponibilidade, o que preserva economia melhor ao fabricante e dá poder de negociação às redes de maior escala.

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O registro produziu duas leituras opostas sobre o mesmo fato. Para o JPMorgan, as redes de farmácia são as primeiras beneficiadas, porque mais fornecedores disputando prateleira melhoram desconto, bonificação por volume, prazo de pagamento e verba promocional.

Para a Citi, o histórico recente não sustenta esse otimismo: o mercado potencial cresceu pouco, e o ganho de margem bruta permanece limitado.

A divergência não é sobre volume. Os dois bancos concordam que a categoria cresce. A discordância é sobre quem fica com a margem desse crescimento, e a resposta começa no desenho regulatório do registro.

Performance do Ozivy

Entre os novos medicamentos está o Semavy, da Cosmed sob a marca Mantecorp, do grupo Hypera (HYPE3), indicado para diabetes tipo 2 e prometido nas farmácias em até dois meses. É o maior número de aprovações de análogos de GLP-1 concedido de uma só vez pela agência.

O mercado brasileiro tem um caso para comparar. O Ozivy, da EMS, primeira semaglutida sintética registrada no país, chegou às farmácias em 15 de junho, cerca de um mês depois da aprovação, prazo mais curto do que as projeções feitas agora para as cinco novas marcas.

A EMS, de capital fechado, afirma que sua estratégia não é promover troca imediata entre marcas, e sim ampliar o acesso ao tratamento, e sustenta que a decisão terapêutica cabe ao médico.

A companhia cita projeções da Close-Up, empresa de dados do setor farmacêutico, que apontam crescimento de 28% na demanda pela molécula em julho e colocam o Ozivy como sexta maior marca da indústria no segmento de prescrição médica.

São números de julho ainda em projeção, fornecidos pela empresa. A EMS não divulgou a participação de mercado do produto. Como referência de preço, a Citi cita o Ozivy Combo a cerca de R$ 333 por caneta.

Limites ao aumento de margem

Giordano projeta que mais fornecedores e mais apresentações tornam o tratamento mais acessível e ampliam uma categoria de tíquete alto e uso contínuo. Na conta dele, isso se traduz em mais lucro bruto e, possivelmente, em margem percentual maior.

O relatório cita como principais afetados a RD Saúde (RADL3), com recomendação equivalente a compra para suas ações, a Pague Menos (PGMN3), abaixo da média do setor, e a Panvel (PNVL3), sem recomendação atribuída pelo JPMorgan.

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Leandro Bastos e Renan Prata, da Citi, reconhecem que volume e margem sobre o custo tendem a favorecer o varejo ao longo do tempo, mas condicionam o efeito. O crescimento tímido do mercado potencial e o aumento limitado da margem bruta observados até aqui, escrevem, alimentam incerteza sobre a rentabilidade de cada unidade vendida.

A diferença está no ponto de partida. O JPMorgan mede o poder de barganha que a rede ganha com mais gente disputando espaço. A Citi mede o que sobrou de margem nas rodadas anteriores de entrada de concorrentes.

Erosão projetada para os preços

Nenhum dos dois bancos espera que o preço caia por força de regra. O Citi trata a erosão contínua de preços como risco evidente de rentabilidade. Giordano condiciona uma queda mais rápida a mudança regulatória: a Anvisa passou a permitir troca clinicamente supervisionada entre biossimilares que compartilham o mesmo comparador, regra que hoje não alcança a semaglutida sintética.

Estendê-la às apresentações sintéticas aceleraria a queda de preço, favorecendo o varejo e reduzindo a vantagem dos fabricantes.

Os prazos também convergem. O JPMorgan estima de 30 a 60 dias até o mercado; a Citi, cerca de dois meses; a Hypera, até dois meses para o Semavy.

Duas canetas ficaram com o mesmo grupo: Zempneo, pela Brainfarma, e Semavy, pela Cosmed. As outras são Owozy, da Ávita Care, Seemasun, da Sun Farmacêutica do Brasil, e Orsema, da Ranbaxy.

O Citi calcula que a entrada em GLP-1 pode acrescentar de 3% a 5% ao lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização da Hypera, possibilidade que segue ignorada pelo mercado.

O JPMorgan considera o desenvolvimento estrategicamente relevante e insuficiente para alterar estimativas sobre a Hypera. Faltam data de lançamento, preço aprovado pela CMED, órgão que fixa o teto de preço de medicamentos no Brasil, origem do princípio ativo e o posicionamento de uma marca da companhia em relação à outra.

“Queremos garantir que mais brasileiros possam iniciar e, principalmente, manter seu tratamento com um produto de altíssima qualidade a um preço justo”, afirma Breno Oliveira, presidente da Hypera Pharma, em comunicado. A empresa não informou o preço submetido à CMED.

Bastos e Prata acrescentam um ponto: investidores podem questionar as implicações de a Sun Pharma (SUNPHARMA), parceira de fabricação da Hypera, ter obtido registro próprio.

O Citi trata Seemasun e Orsema como produtos da mesma companhia indiana. A Ranbaxy é uma farmacêutica indiana de genéricos que pertence ao grupo Sun Pharma e cujos produtos são distribuídos em redes brasileiras, entre elas a Drogasil, da RD Saúde. Se confirmado, cinco marcas correspondem a uma base de fabricantes mais estreita do que sugere.

A fila da Anvisa não terminou. Dos 24 medicamentos do edital aberto em agosto de 2025, 11 tiveram análise concluída e seis foram aprovados. Nenhum dos dois bancos incorpora os processos restantes às suas contas, e é a velocidade dessas aprovações que decide em que ritmo a queda de preço chega à margem do varejo.

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