Netflix desiste de comprar a Warner e abre caminho para a oferta da Paramount

Gigante de streaming decidiu sair da disputa para comprar a histórica empresa de Hollywood, dizendo que o negócio deixou de fazer sentido financeiramente depois da proposta mais recente da Paramount

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Bloomberg — A Netflix desistiu da disputa para comprar a Warner Bros. Discovery, abrindo caminho para a rival Paramount Skydance concluir o acordo de US$ 111 bilhões pela histórica produtora de Hollywood.

A líder do setor de streaming afirmou que, embora acreditasse que sua proposta seria aprovada pelos reguladores e geraria valor aos acionistas, não pretendia continuar elevando a oferta.

“Sempre fomos disciplinados e, no preço necessário para igualar a proposta mais recente da Paramount Skydance, o negócio deixou de ser financeiramente atraente”, disse a Netflix em comunicado na quinta-feira (26).

Em vez disso, a empresa manterá os investimentos em suas operações, incluindo cerca de US$ 20 bilhões neste ano em filmes, séries e outros conteúdos de entretenimento.

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As ações da Netflix saltaram mais de 13% no after-hours, sinalizando que investidores aprovaram a decisão de abandonar a operação. Os papéis da Warner Bros. caíram, diante da menor expectativa de uma guerra de ofertas. As ações da Paramount tiveram pouca variação.

A Netflix havia fechado, em dezembro, um acordo de US$ 82,7 bilhões, incluindo dívida assumida, para adquirir os estúdios e os negócios de streaming da Warner Bros., mas sucessivas contrapropostas da Paramount mantiveram a disputa em aberto. No fim da quinta-feira, a Warner Bros. considerou a mais recente oferta da Paramount, de US$ 31 por ação, como superior.

“Estou extremamente orgulhoso do processo rigoroso conduzido por este conselho nos últimos cinco meses e meio, que nos levou à iminência de combinar duas empresas históricas e ao entusiasmo que isso trará ao público por muitos anos”, disse o presidente do conselho da Warner Bros., Samuel A. Di Piazza Jr., em comunicado.

A decisão da Netflix de não elevar sua oferta “abriu caminho para que os acionistas recebam significativamente mais recursos em dinheiro e para um percurso realmente viável de aprovação regulatória”, afirmou a Ancora Holdings Group, investidora ativista da Warner Bros., em nota. “É uma situação vantajosa para acionistas e para o setor.”

A disputa pela aquisição foi marcada por tensão, tanto em Hollywood quanto em Washington. O co-CEO da Netflix, Ted Sarandos, e o CEO da Paramount, David Ellison, estiveram na capital americana nesta semana para reuniões com parlamentares.

Sarandos passou cerca de uma hora na quinta-feira com integrantes do governo de Donald Trump. “Não vou falar com a imprensa hoje”, disse ao deixar a Casa Branca.

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Ellison compareceu ao discurso do Estado da União de Trump na terça-feira como convidado do senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul. Graham também foi visto na Casa Branca na quinta-feira.

A Paramount ainda enfrentará escrutínio sobre o acordo. O Comitê Judiciário do Senado dos Estados Unidos agendou uma audiência para 4 de março para voltar a examinar a venda da Warner Bros., após sessão realizada no início do mês. O senador democrata de Nova Jersey Cory Booker renovou o convite para que Ellison participe.

A senadora democrata de Massachusetts Elizabeth Warren também criticou o acordo. “Uma fusão entre Paramount Skydance e Warner Bros. é um desastre antitruste que ameaça preços mais altos e menos opções para as famílias americanas”, afirmou em comunicado. “Um pequeno grupo de bilionários alinhados a Trump tenta assumir o controle do que você assiste e cobrar o preço que quiser.”

A Netflix, pioneira na TV online, construiu um negócio lucrativo com mais de 325 milhões de assinantes no mundo, que pagam mensalidade por acesso a filmes e séries.

Produtoras tradicionais de cinema e TV, como Paramount e Warner Bros., lançaram seus próprios serviços de streaming, mas não alcançaram a base de assinantes das rivais, enquanto suas redes tradicionais perdem audiência e anunciantes.

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A oferta da Paramount incluía as redes de TV por assinatura da Warner Bros., como CNN e TNT. A empresa iniciou a disputa com uma proposta privada em setembro, apenas um mês após Ellison concluir a fusão de sua Skydance Media com a Paramount, operação que lhe deu controle do estúdio de cinema, do serviço de streaming e de canais de TV como CBS e MTV.

A Warner Bros. começou a solicitar propostas pelo negócio em outubro, antes de fechar o acordo com a Netflix em dezembro.

Após aparentemente perder a disputa, a Paramount lançou uma estratégia em várias frentes para voltar ao jogo. A empresa iniciou uma oferta pública para aquisição de ações da Warner Bros. e ameaçou uma disputa por procurações na próxima assembleia anual. Também intensificou o lobby junto a reguladores e políticos, incluindo Trump, com Ellison realizando diversas viagens a Washington para defender a proposta.

A Paramount ajustou os termos da oferta após repetidas rejeições da Warner Bros. Entre as mudanças, incluiu garantias pessoais sobre US$ 45,7 bilhões em capital, provenientes de um trust criado por seu pai, o presidente do conselho da Oracle, Larry Ellison, um dos homens mais ricos do mundo e aliado de Trump.

A Paramount também se comprometeu a pagar US$ 2,8 bilhões à Warner Bros. para compensar a Netflix pela rescisão do acordo e a desembolsar US$ 7 bilhões caso a transação não obtenha as aprovações regulatórias necessárias.

A empresa informou na quinta-feira que conta com US$ 57,5 bilhões em financiamento de dívida já comprometidos para a operação, fornecidos por Bank of America, Citigroup e Apollo Global Management. As três instituições haviam anteriormente assegurado US$ 54 bilhões.

-- Com a colaboração de Josh Sisco, Liana Baker, Jennifer A. Dlouhy, Dan Wilchins e Diasia Robinson.

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