Menos pão de queijo, mais iogurte: como canetas emagrecedoras mudaram os supermercados

Brasil está entre os mercados que mais crescem para esses medicamentos para obesidade, e mudança levou varejistas a reformular a disposição das lojas para destacar alimentos ricos em proteína, com pouco açúcar e baixos teores de carboidratos

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Bloomberg — Nos supermercados brasileiros, o pão de queijo perde espaço para o iogurte.

As redes varejistas estão reorganizando corredores e gôndolas para a era do Ozempic, reservando áreas nobres para alimentos ricos em proteína, com pouco açúcar e baixos teores de carboidratos. O pão de queijo, os biscoitos e os salgadinhos estão perdendo espaço para iogurtes, peito de frango sem pele e maçãs orgânicas.

É isso que os consumidores querem, segundo as varejistas. Para alguns, é tudo o que conseguem tolerar durante o uso de medicamentos GLP-1, usados para perda de peso. Os supermercados precisam prestar atenção: o Brasil já está entre os mercados que mais crescem para esses remédios revolucionários, e versões genéricas mais baratas estão chegando nas farmácias.

Por isso, a Companhia Brasileira de Distribuição, dona dos supermercados Pão de Açúcar e da rede Minuto Pão de Açúcar, reformulou a disposição das lojas e reavaliou os pedidos aos fornecedores, afirmou Andrea Pinto, diretora de inteligência comercial do GPA, como a empresa é conhecida, uma das maiores varejistas do país.

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“A gente percebe que o cliente verbaliza que passa a consumir mais produtos fresh, mais proteína, frutas, verduras e itens sem lactose,” afirmou.

A mudança decorre da evolução do paladar e da redução do apetite provocadas pela “febre” dos GLP-1, segundo Pinto, e também “tem muito a ver com a nossa cultura e com a importância que damos à imagem quando cuidamos do corpo”.

Em todo o país, o setor se prepara para que os medicamentos fiquem cada vez mais acessíveis, afirmou Marcio Milan, vice-presidente da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS).

A patente da semaglutida, principal ingrediente das marcas Ozempic e Wegovy, da Novo Nordisk, expirou no Brasil neste ano, e os reguladores aprovaram em maio a primeira caneta de semaglutida sintética análoga ao Ozempic autorizada para comercialização no país.

“Os supermercados estão reorganizando a disposição dos produtos”, afirmou Milan, além de encomendar itens que não vendiam poucos anos atrás, como uma ampla variedade de ovos.

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“Hoje, você entra numa gôndola de supermercado e você tem dificuldade de escolher o ovo que você está procurando de tanta variedade que tem. Existem ovos livre de gaiola, ovos caipira, ovos orgânicos, ovos com mais ômega, e assim por diante.”

“Tudo isso veio no sentido de atender um consumidor que está mais preocupado com a sua saúde e bem estar”, acrescenta Milan.

Segundo Andrea, a migração dos consumidores para as seções de alimentos frescos favorece os resultados, porque eles enchem os carrinhos com produtos de vida útil mais curta.

“Esses são produtos mais rentáveis pro negócio”, afirmou. Outra vantagem é que os consumidores passam a ir ao supermercado com mais frequência, já que compram muitos itens que não duram tanto tempo em casa.

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Letícia Andrade Matos, que usa Mounjaro, da Eli Lilly, desde novembro, afirmou que o seu percurso pelo supermercado mudou radicalmente desde que iniciou o tratamento. O alto volume de proteína passou a ser prioridade, enquanto alimentos processados e produtos embalados praticamente desapareceram do seu carrinho.

“Comecei, literalmente, a descascar mais e desembalar menos”, afirmou Matos. “Agora, basicamente vivo de proteína.”

O Assaí Atacadista, rede de atacarejo que vende tanto para comerciantes quanto para consumidores, afirmou que vem observando uma migração do consumo de alimentos ricos em carboidratos para opções com maior teor de proteína.

Na conferência de resultados do primeiro trimestre, a empresa disse que ampliou o sortimento de produtos como aveia, granola, sementes, barras de cereais, bebidas proteicas, suplementos e vitaminas para mais de 90 lojas.

No Pão de Açúcar, a disposição das lojas foi reformulada para aproximar os itens mais saudáveis — com a seção de frutas, verduras e legumes ao lado do corredor de iogurtes, por exemplo —, enquanto chocolates e cereais açucarados foram relegados ao fundo. O GPA também acrescenta novas opções, como lanches com teor menor de açúcar.

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As mudanças no consumo de bebidas exemplificam a transformação das preferências.

O consumo de cerveja sem álcool quintuplicou nos últimos cinco anos, para mais de 700 milhões de litros, segundo dados de mercado compartilhados pelo GPA.

A previsão é que o volume chegue a 885 milhões de litros em 2026, o que tornaria o Brasil o segundo maior mercado do mundo, atrás da Alemanha, afirmou a varejista. Por isso, a empresa ampliou o portfólio de bebidas sem álcool, não apenas de cervejas, mas também de vinhos e espumantes.

Um estudo da NielsenIQ realizado em abril e citado pelo GPA constatou que 4,6% dos domicílios usavam medicamentos GLP-1 e outros 26% tinham interesse, mas enfrentavam barreiras como preço e acesso ao tratamento.

Com os genéricos, “o Brasil está prestes a se tornar um mercado global importante para os GLP-1”, segundo relatório de janeiro de analistas do Itaú BBA liderados por Rodrigo Gastim.

Os hábitos de consumo continuarão mudando, disse Andrea. “Produtos para dietas restritivas costumavam ser consumidos apenas por atletas ou por pessoas extremamente rigorosas com a alimentação”, afirmou. “Hoje, os produtos mais saudáveis são consumidos por todos.”

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