Medicina VIP: novo hub de saúde busca atender moradores de complexo de luxo da JHSF

Unidade de medicina estreia no shopping CJ Boa Vista Village, dentro do complexo misto de luxo da JHSF na região de Sorocaba; criado por duas nefrologistas, o modelo de negócio e atendimento conta com resgate aéreo, concierge médico e aplicativo que monitora dados de relógios e anéis inteligentes

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Bloomberg Línea — Famílias de alta renda passaram a morar a semana inteira em condomínios de luxo no campo, não apenas nos fins de semana. O hábito novo alterou o leque de serviços que uma incorporadora de alto padrão precisa oferecer.

Depois de clube de golfe, segurança armada e concierge de compras, a JHSF (JHSF3) passa a ter um hub de saúde com atendimento médico particular, resgate por helicóptero e monitoramento por relógio e anel inteligentes.

O novo serviço fica no CJ Boa Vista Village, mall recém-inaugurado dentro do Complexo Boa Vista, em Porto Feliz, a cerca de 115 quilômetros de São Paulo.

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Batizada de Boa Vista Health, a unidade estreia no próximo sábado (12) no mesmo shopping em que a Louis Vuitton abriu, em maio, sua primeira loja dedicada à coleção resort, ao lado de vitrines como Loro Piana, Brunello Cucinelli, Rolex, Chloé, Celine e Dolce & Gabbana.

O projeto é assinado por duas nefrologistas, Nathally Baston, diretora médica da Boa Vista Health e especialista em doenças renais crônicas, e Christiane Kojima, responsável técnica da clínica e gestora de clínicas de diálise desde 2015.

As duas contam que levaram o projeto pronto para a JHSF, num processo de avaliação de currículo semelhante ao usado para aprovar as demais lojas do shopping.

“Tenho pacientes que moram na Fazenda [Boa Vista] por períodos. De quinta a domingo moram na Fazenda, de segunda a quarta moram em São Paulo”, diz Christiane Kojima, responsável técnica da Boa Vista Health, à Bloomberg Línea.

Esse vaivém entre o condomínio e a capital sustenta a lógica comercial do projeto: quanto mais dias essas famílias passam no interior, maior a demanda por um serviço de saúde que hoje só existe a uma hora e meia dali, em São Paulo.

As sócias conseguiram investimento de mais de R$ 6 milhões em obra e equipamentos, e alugam os 300 metros quadrados da unidade, já que a JHSF vende apenas as casas do Village.

O carro-chefe do portfólio é o HDF Health, sigla para hemodiafiltração, tratamento renal mais avançado que a diálise convencional. Batizado internamente de coração assistencial da clínica, o programa reúne nutrição renal, fisioterapia, psicologia, acupuntura, suporte social e transporte particular para cada sessão.

A previsão inicial, sujeita à reavaliação, é atender cerca de 10 pacientes de diálise por mês, mais 25 em outros protocolos, com previsão de recuperar o investimento em cerca de seis meses, segundo as duas médicas.

As sócias também negociam uma parceria para incluir ortopedia no portfólio, mas preferem não revelar o parceiro antes de fechar o acordo.

Outro protocolo, o Health Worldwide, organiza viagens nacionais e internacionais para pacientes em diálise, com clínicas parceiras verificadas no destino e programação prévia das sessões. Foi pensado, entre outros casos, para hóspedes de fora que precisam de tratamento contínuo durante a estadia na região.

“Fora a diálise em trânsito dos hotéis, onde às vezes vem uma pessoa de Londres, uma pessoa dos Estados Unidos, que precisa de uma diálise em trânsito, isso é muito comum, e eles só tinham a oportunidade de ir a Sorocaba ou para Boituva”, afirma Kojima.

Já o Health Concierge, e sua versão corporativa, o Health Concierge for Business, cobrem a parte administrativa da jornada do paciente: agendar consultas e exames, comunicar especialistas entre si, organizar documentação clínica e, quando indicado, coordenar a desospitalização assistida e a diálise domiciliar, em parceria com a B.Treat, boutique de concierge médico fundada por Carolina Uip, filha do infectologista David Uip, e pela sócia Roberta Pfiffer.

WellNest e Bluerock Aviation

A camada tecnológica do hub é um aplicativo desenvolvido pela americana WellNest, que cruza dados de relógios e anéis inteligentes, como Apple Watch, Garmin, Whoop e Oura Ring, com o histórico clínico do paciente.

A ideia nasceu da própria vizinhança de Baston, que também mora no Village: para ela, o desafio nunca foi a adoção desses aparelhos, e sim a ausência de interpretação médica dos dados que eles geram.

“Comecei a ver todo mundo utilizando aqueles wearables. Só que na hora que eu perguntava pra essas pessoas, eu falava ‘tá, mas o que você faz com essas informações? Quem lê esses dados?’ Ninguém lê esses dados”, observou Baston.

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Para emergências, entra em ação o Health NOW, protocolo de resposta rápida que não substitui um hospital: a unidade instalada no shopping do Village faz a avaliação inicial e a estabilização, e organiza a remoção terrestre ou aérea para o hospital de referência do próprio paciente.

“Não tenho uma infraestrutura hospitalar nem um centro de hemodinâmica. Não adianta eu falar, ‘venha para cá que eu vou resolver’, porque eu não vou resolver”, diz Baston.

Hemodinâmica é a unidade hospitalar equipada para desobstruir artérias entupidas, o procedimento padrão para tratar um infarto em andamento.

A logística aérea para transportar o paciente é feita com a Bluerock Aviation, empresa de Miami e Paris recomendada por médicos do Sírio-Libanês e do Einstein, que a acionaram com frequência durante a pandemia.

Segundo as sócias, a Bluerock foi escolhida por ser especializada em transporte médico e ter operação internacional.

“No caso de um infarto, a gente fala que tempo é músculo, tempo é miocárdio. Faz toda a diferença entre viver e morrer você chegar em 15, 20, 30 minutos ou 3 horas no hospital. Isso muda sua qualidade de vida e a chance de você viver a longo prazo”, exemplifica Baston.

Público-alvo dos serviços

Juridicamente, a Boa Vista Health é uma sociedade anônima independente da JHSF, não entra no balanço da incorporadora nem divide receita com o shopping, e opera com as mesmas licenças exigidas de qualquer lojista do Village, a sanitária e o AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros).

O acesso também não é exclusivo de quem mora dentro da Fazenda Boa Vista, cujas portarias só abrem para convidados: o shopping do Village é aberto ao público, e qualquer morador de Porto Feliz, Itu, Sorocaba ou Indaiatuba pode agendar e pagar pelo serviço de saúde.

As sócias não abrem valores nem das sessões de HDF, restritas a pacientes renais, nem dos demais programas, abertos a qualquer cliente. A operação é só particular, sem convênio médico nem SUS (Sistema Único de Saúde).

Modelo parecido existe nos EUA, no segmento de concierge e medicina boutique. A Private Medical, de São Francisco, cobra US$ 40 mil por ano por adulto e US$ 25 mil por menor, segundo noticiou a CNBC em 2024. A MD², uma das pioneiras do setor no país, também cobra taxas anuais dos membros, sem divulgar valores. Os modelos não são equivalentes ao da Boa Vista Health, mas mostram uma tendência mundial de medicina privada mais personalizada.

Para exames, a parceria da Boa Vista Health é só de pré-coleta: o material é recolhido na própria unidade e enviado para análise ao Einstein Laboratório, de Sorocaba, ou ao Sabin, de Campinas.

As sócias evitam rotular o serviço apenas como um clube de saúde ou uma clínica de longevidade por parecer simplista demais, mas admitem que nunca pararam para definir formalmente o negócio. Preferem resumi-lo nos cinco valores do material institucional da empresa: segurança clínica, continuidade, discrição, coordenação e humanização.

“A Boa Vista Health nasce com uma ambição muito clara, não ser apenas um lugar onde se tratam doenças, mas uma estrutura capaz de acompanhar a saúde e estar presente nos diferentes momentos da vida do paciente”, explica Baston.

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