Bloomberg — A marca Jeep, da Stellantis, tenta se reerguer com uma estratégia incomum no cada vez mais caro mercado automotivo dos Estados Unidos: cortar preços.
Ícone entre os SUVs, a Jeep simplificou sua linha, passou a oferecer menos versões de cada modelo e reduziu os valores cobrados por opcionais.
Tome o Jeep Wrangler como exemplo: a montadora tanto baixou os preços de entrada quanto reduziu o custo de personalizar seu principal modelo com equipamentos adicionais.
O Wrangler Sport S agora parte de US$ 42.495, uma queda de US$ 1.350 em relação ao ano-modelo anterior. Optar por uma versão com faróis de LED, pneus para qualquer terreno e volante e bancos aquecidos custa hoje cerca de US$ 5.000 adicionais, ante quase US$ 9.400 anteriormente.
“Fizemos isso em todos os carros”, disse Bob Broderdorf, CEO da Jeep, em entrevista à Bloomberg News. “É a nossa forma de devolver ao cliente aquilo que faz a Jeep ser a Jeep.”
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Embora a reação inicial tenha sido morna — as vendas da Jeep nos Estados Unidos avançaram apenas 1% no ano passado — estabilizar a marca tornou-se uma das principais prioridades do CEO da Stellantis, Antonio Filosa.
O declínio acentuado ocorrido sob a gestão de seu antecessor, Carlos Tavares, foi uma das maiores manchas em seu histórico e contribuiu para sua saída repentina pouco mais de um ano atrás.

Até agora, ao menos, a Jeep é um caso raro, com poucas marcas de automóveis reduzindo preços de tabela. As montadoras seguem cobrando mais em parte porque as tarifas impostas pelo governo Trump elevaram os custos.
Mas, com o preço médio de um veículo zero quilômetro próximo de US$ 50.000 — ante cerca de US$ 35.000 apenas uma década atrás — mais fabricantes podem ser tentados a ceder à medida que as vendas do setor desaceleram.
“A Stellantis percebeu rapidamente que, se cortarmos custos, retirarmos conteúdo e aumentarmos os preços para o consumidor típico, perdemos”, disse Erin Keating, analista executiva da consultoria Cox Automotive. “A empresa precisou fazer um ajuste estrutural simplesmente porque o resto do mercado seguia aquecido enquanto ela afundava.”
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O auge da Jeep nos Estados Unidos coincidiu com o fim de uma era para sua então controladora, a Fiat Chrysler. Em 2018, ano em que o então CEO da Fiat, Sergio Marchionne, morreu em decorrência de complicações após uma cirurgia, a companhia vendeu pouco menos de 1 milhão de veículos Jeep no mercado americano.
Nesse mesmo ano, a Ford anunciou planos para eliminar quase todos os seus modelos de carros de passeio, inclinando seu portfólio ainda mais para os utilitários esportivos. O relançamento do Bronco e a entrada de SUVs de maior margem em todo o setor corroeram gradualmente a posição da Jeep.

Decisões questionáveis de produto também pesaram. A Jeep descontinuou em 2023 um de seus modelos mais vendidos, o Cherokee. No ano seguinte, as vendas da marca nos EUA haviam caído 40%.
Filosa e sua equipe agora correm para desfazer os danos. A Jeep lançará quatro modelos novos ou atualizados ao longo de 12 meses, trará de volta o Cherokee e motores populares que haviam sido descartados durante a gestão Tavares.
Um reajuste de preços iniciado em 2024 ajudou as concessionárias a esvaziar pátios inflados por excesso de estoque, e as vendas nos Estados Unidos cresceram em cada um dos últimos três trimestres.
Há indícios de que as medidas começam a surtir efeito. A Jeep encerrou em 2025 uma sequência de seis anos de quedas, com as entregas subindo 4% no quarto trimestre, período em que muitas outras marcas perdiam fôlego.
Carlo Merlo, dono de uma concessionária Jeep em St. Louis, comemora poder oferecer opcionais como o Sky Slider — uma capota de lona motorizada para versões do Wrangler voltadas ao off-road — por um preço muito menor. Esse item agora custa US$ 995, um quinto do que a Jeep cobrava anteriormente.
“Esses recursos são o que empolga as pessoas”, disse Merlo, que também é vice-presidente do conselho de concessionários da Stellantis. “Se ficar caro demais, os concessionários nem vão encomendar, porque sabem que os clientes simplesmente não conseguem pagar.”
Broderdorf aposta que as mudanças nos níveis de acabamento e as novas configurações podem impulsionar volumes e lucros ao mesmo tempo, em vez de sacrificar um em favor do outro. A Stellantis tem pouca margem para erro, depois de projetar uma margem operacional ajustada de um dígito baixo para o segundo semestre de 2025.
A Jeep ainda está longe de retomar seus anos de ouro. Sua participação no mercado de SUVs caiu para 5,6% no ano passado, o nível mais baixo desde pelo menos 2002 e bem abaixo do pico de 13,4% registrado em 2016, segundo a consultoria Edmunds.
Ainda assim, as mudanças na Jeep e os novos produtos da Ram — incluindo o retorno das picapes esportivas TRX — renovaram o otimismo entre concessionários da Stellantis como Kevin Farrish.
“Foram alguns anos difíceis”, disse Farrish, dono de uma concessionária Chrysler, Dodge, Jeep e Ram perto de Washington, DC. “Em comparação, esperamos um 2026 bem melhor.”
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