Bloomberg Línea — Há sete meses, os irmãos Joesley e Wesley Batista protagonizaram a cerimônia de abertura do pregão da NYSE (New York Stock Exchange) com o início da listagem das ações da JBS na tradicional bolsa localizada em Wall Street.
A depender de seus planos, essa cena vai se repetir no fim de janeiro de 2026, mas desta vez na igualmente icônica Times Square, com o pretendido IPO do PicPay na Nasdaq.
A fintech que integra a holding de negócios J&F Investimentos, controlada pelos irmãos Batista, protocolou nesta segunda-feira (5) na SEC (Securities and Exchange Commission) o pedido para uma oferta pública inicial na bolsa conhecida por abrigar empresas de tecnologia, incluindo as do setor financeiro.
Na largada, o PicPay contará com um apoio relevante do ponto de vista financeiro e institucional: a Bicycle Capital, a gestora de venture capital de Marcelo Claure, um dos mais relevantes e atuantes investidores em empresas de tecnologia do mundo, ex-sócio e ex-homem de confiança de Masayoshi Son no SoftBank, se comprometeu a ancorar a oferta com um investimento de US$ 75 milhões.
Leia mais: Sem pressa para IPO, PicPay tem aportes da família Batista para avançar mais
Os valores pretendidos pelos irmãos Batista com a oferta não foram revelados no prospecto para o IPO - tampouco o valuation desejado. O objetivo seria captar até US$ 500 milhões, segundo reportagem da Bloomberg News em outubro de 2025, citando fontes não identificadas com acesso aos planos.
Em tentativa anterior de IPO em 2021, o PicPay mirava um valuation de US$ 8 bilhões, segundo informações à época da Bloomberg News, em um momento de juros em patamares mínimos históricos e alta liquidez de capital no mercado.
O controle do PicPay está 100% concentrado nas mãos da J&F Investimentos, que continuará com a gestão integral do negócio por meio de ações de classe B, com direito a dez votos a cada unidade - a fatia que será colocada à venda por meio somente de ações de classe A, com direito a um voto cada, não foi divulgada.
Outros acionistas incluem o co-fundador Anderson Chamon, vice-presidente executivo de Novos Negócios, e o CEO, Eduardo Chedid, um profissional com mais de 20 anos de experiência no setor financeiro que está na empresa desde 2021 e que comanda a operação desde 2022.
Citi, Bank of America e RBC são os coordenadores globais da oferta.

A concretização bem-sucedida do IPO pelo PicPay pode representar uma espécie de reabertura de janela para certas empresas brasileiras em Nova York, que atendam ao perfil de interesse do investidor estrangeiro, principalmente do ponto de vista de escala e rentabilidade, segundo banqueiros de investimento.
Sob essa ótica, o PicPay, fundado em 2012, se apresenta no documento aos investidores como um player com posição relevante já conquistada e com potencial de crescimento em um dos mercados que mais crescem na economia brasileira.
E que fica atrás apenas de Nubank e Mercado Pago, a fintech do Mercado Livre, do ponto de vista de atração de recursos financeiros que migram ano após ano de bancos incumbentes, com uma estratégia de engajamento por meio de múltiplos serviços oferecidos em sua plataforma com experiência digital.
Contava com 42 milhões de usuários ativos mensais dentro de uma base com 65,6 milhões de contas abertas, segundo dados até setembro de 2025.
O crescimento anual da base total foi de 12%, com taxa anual composta (CAGR) de 19% no período de 2021 a 2024, segundo dados do prospecto.
Leia mais: JBS vê potencial de alta de 300% do capital com novo ciclo de expansão pós-NY
O PicPay também alcançou R$ 7,3 bilhões em receitas nos nove meses iniciais de 2025, com crescimento de 92% na base anual, em valor equivalente a US$ 1,37 bilhão - acima, portanto, do patamar de US$ 1 bilhão anual apontado como referência desejável para empresas brasileiras que buscam um IPO em Nova York, de acordo com a visão de alguns investidores e founders de startups.
No período de 12 meses até setembro de 2025, a retorno sobre o patrimônio ficou em 17,4%, acima dos 14,2% nos 12 meses imediatamente anteriores, como reflexo da aceleração de receitas e de atividades de crédito, bem como do aumento da penetração em pagamentos por meio de sua wallet.
Ao longo de sua trajetória, o PicPay passou de uma wallet de transferência de valores em seus primórdios para uma plataforma abrangente que atende tanto consumidores que são pessoa física como pequenos e médios negócios (PMEs).
A atuação atualmente inclui também o segmento de cartões, empréstimos pessoais, seguros, investimentos e pagamentos - o que se deu de forma orgânica e também por meio de M&As, como foi o caso da seguradora Kovr em setembro passado.
Leia mais: Inter avança em ambição global com cartão de crédito para residentes nos EUA
Segundo o prospecto, estima-se que o net revenue pool da indústria financeira em que o PicPay compete no Brasil chegará a quase R$ 900 bilhões em 2030, com um CAGR de 10% no período de 2024 a 2030.
No segmento de wallets e banking, que incluem o uso do Pix e pagamentos com cartão de crédito, a estimativa é que o PicPay contava com 9,3% de market share em 2024, de acordo com dados citados no prospecto.
Além disso, a fintech destaca a força de seu modelo de negócios, refletido no unit economics, com uma capacidade de recuperação do CAC (Custo de Aquisição de Cliente) em até nove meses nas safras mais recentes de clientes, diante de margens de contribuição cumulativas (lucro incremental em cima da relação).
Com essas métricas, o PicPay espera convencer o investidor estrangeiro em um momento de volta do apetite por empresas de tecnologia de alto crescimento, como se viu ao longo de 2025, principalmente na segunda metade do ano.
Os recursos eventualmente captados serão destinados a reforçar a estrutura de capital e a investimentos em áreas como produtos e tecnologia, além de capital de giro, entre outras finalidades, segundo o documento.
Se bem-sucedido, o PicPay se juntará a um grupo seleto do setor financeiro brasileiro presente na Nasdaq, que conta com nomes como Stone, XP Inc., Vinci Compass e Patria Investimentos - este último, com sua estreia em janeiro de 2021.
Leia também
Nubank mira público que vai além de expatriados nos EUA, diz Cris Junqueira
Na disputa pelo cliente de alta renda, PicPay aposta em novo Mastercard Black
B3 diz que 54 empresas estão prontas para buscar um IPO quando ‘janela reabrir’









