Iguá prioriza projetos com maior retorno e vê avanço com concessão bilionária no Rio

Controlada pelas gestoras canadenses CPP e AIMCo, companhia de saneamento enfrenta desafios em favelas e passivos ambientais enquanto investe R$ 2,7 bilhões para expandir a atuação, mas conseguiu obter resultados consistentes, disse a COO Paula Violante à Bloomberg Línea

Por

Bloomberg Línea — Em um espaço geográfico de mais de 300 favelas, crescimento urbano desordenado e lagoas poluídas, a Iguá vem espalhando canteiros de obras para atender às demandas da sua concessão de saneamento na zona Sudoeste do Rio de Janeiro.

Conquistada em 2021 em leilão com uma outorga de R$ 7,2 bilhões, a concessão da companhia atende pouco mais de 1 milhão de pessoas em 19 bairros. O contrato também prevê a prestação de serviço para os municípios de Paty do Alferes e Miguel Pereira.

A Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) ainda é responsável pela captação e tratamento da água, enquanto a Iguá distribui o insumo e trata o esgoto.

Somente na frente de obras de adutoras, o grupo privado - que tem em sua composição acionária as gestoras canadenses CPP (66,5%) e AIMCo (24%), além do BNDESPar (9,5%) - vem trabalhando a um ritmo de implantação de 20 a 30 metros de tubulações por dia.

O número, por si só, não demonstra a complexidade do projeto. O traçado tem que obedecer topografia, propriedade privada, áreas de preservação. As obras enfrentam desde restrições de horários até intempéries climáticas, além do calor do Rio. E as tubulações exigem transporte customizado devido às grandes proporções.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

“É um contrato grande e desafiador, mas conseguimos entender bem a sua complexidade e obter resultados consistentes”, disse a COO da Iguá Rio, Paula Violante, em entrevista à Bloomberg Línea.

Leia também: Iguá prioriza concessões atuais e vê oportunidade para dobrar receitas, diz CEO

O diretor geral e de relações com investidores da Iguá Rio, Flavio Vaz, afirma que a engenharia financeira adotada para fazer frente aos investimentos foi priorizar os projetos com maior Valor Presente Líquido (VPL) no início, sem impactar, com isso, questões contratuais.

Prova disso, relata o executivo, é que em 2025 o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) da concessão atingiu R$ 575 milhões, aumento de 35% sobre o ano anterior.

Somente no primeiro semestre de 2026, o indicador marcou R$ 438 milhões. “Operacionalmente, já estamos conseguindo capturar mais valor [da concessão]. Os investimentos estão fazendo sentido para a companhia”, afirma.

Ele acrescenta que a parcela mais robusta da dívida da concessão só começa a vencer a partir de 2031.

“Estamos com uma posição de caixa razoável, com uma janela de cinco anos para continuar fazendo os investimentos que geram retorno e caixa. Isso nos dá o conforto de que vamos conseguir cumprir todas as nossas obrigações contratuais e gerar retorno para o acionista.”

A concessão tem prazo de 35 anos e estão previstos investimentos da ordem de R$ 2,7 bilhões. Mais de R$ 1 bilhão já foram aplicados. O leilão da Cedae foi dividido em quatro blocos: a Aegea é responsável pelos blocos 1 e 4 e, a Águas do Brasil, pelo bloco 3.

Monitoramento e preservação ambiental

Entre os investimentos realizados, a empresa implementou novos sistemas que incluem um centro de controle operacional desenhado para a concessão. A estrutura permite fazer o monitoramento online das operações 24 horas por dia, através das informações recebidas das elevatórias de água e esgoto e das unidades operacionais.

Com o centro de controle, que recebe novos dados a cada 2 ou 3 segundos, a empresa diz conseguir mobilizar equipes e recursos com mais assertividade e também prever problemas, utilizando ferramentas de inteligência artificial.

Outra tecnologia utilizada é a de digital twin para simular determinadas operações, digitalmente, antes de as soluções serem aplicadas na prática.

A COO Paula Violante relata que, quando a Iguá assumiu a operação do bloco 2 da Cedae, a mobilização durou 180 dias, com 13 diferentes frentes de atuação. “Logo que vencemos o leilão, começamos a estudar o bloco detalhadamente para detectar os principais gargalos. Não foi uma transição simples.”

A Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Barra, coração da operação, tinha áreas totalmente degradadas quando a operadora privada assumiu a concessão. O processo de recuperação, modernização e ampliação do ativo foi concluído em 2025 e consumiu R$ 170 milhões em investimentos.

A Iguá também investiu em estações elevatórias, estruturas responsáveis pelo bombeamento da água e do esgoto. Atualmente, a ETE Barra trata o equivalente a cerca de 70 piscinas olímpicas de esgoto por dia.

Na frente de preservação ambiental, o projeto mais emblemático é a recuperação do Complexo Lagunar da Tijuca e de Jacarepaguá.

A paisagem esconde o ambiente degradado de décadas de despejo de esgoto e todo tipo de lixo, como embalagens e até sofás.

O investimento previsto para o projeto, que é uma contrapartida da concessão, é de R$ 250 milhões, sendo que mais de R$ 147 milhões foram aportados até agora.

Mais de 1 milhão de m³ de sedimentos já foram remanejados do complexo, o equivalente a 400 piscinas olímpicas. A meta é alcançar 2,3 milhões de m³. O desassoreamento das lagoas permitiu a volta da circulação de barcos e até mesmo de vida animal, incluindo espécies comerciais como robalo e tainha.

Ao circular pelo complexo, é possível avistar não só espécies de peixes e pássaros, mas também jacarés.

Mais de 80 mil mudas estão sendo plantadas na região de mangue. “Estamos falando do maior passivo ambiental da cidade do Rio de Janeiro. É uma estratégia de guerra”, disse o biólogo e consultor Mário Moscatelli, à frente das ações ambientais na região.

Novos usuários e inadimplência

Segundo o diretor de operações da concessão, Lucas Arrosti, a Iguá não tem enfrentado desafios de inadimplência, mesmo com a inclusão de novos usuários no sistema.

Uma parcela deles paga a chamada “tarifa social”, que garante um desconto de 50% na fatura de água e esgoto para famílias de baixa renda. O benefício é previsto no novo marco do saneamento e regulamentado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA).

De acordo com a Iguá, 18% das economias atendidas pela concessão são beneficiárias da tarifa social. A companhia esclarece que “economias” é o termo técnico utilizado no setor para se referir às unidades cadastradas no sistema de abastecimento, como por exemplo residências, comércios e outros. Isso significa que esse percentual não corresponde à população.

Leia também

Quem tiver mineral com maior qualidade vai comandar os preços, diz CEO da Vale

Vicunha reage a Shein e Shopee, enxuga estoque, amplia portfólio e mira voltar a lucrar