Bloomberg Línea — O GPA (Grupo Pão de Açúcar) concluiu nesta terça-feira (5) a renegociação das dívidas financeiras não operacionais que motivaram o pedido de recuperação extrajudicial protocolado em março.
O passivo, originalmente anunciado em R$ 4,5 bilhões, alcançou R$ 4,6 bilhões com a materialização de um swap durante o processo, segundo o CFO Pedro Albuquerque, em entrevista à Bloomberg Línea.
O plano foi aprovado por 57% dos credores, acima dos 50% mais um exigidos por lei, e tem como signatários Rabobank, Itaú, BTG, HSBC e Itaú Asset. O Rabobank é o maior credor individual, segundo o executivo.
“É um dia importante na história do GPA”, afirmou o CEO Alexandre Santoro à Bloomberg Línea.
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No comando da companhia desde 5 de janeiro, Santoro descreveu o diagnóstico que encontrou ao chegar: um desequilíbrio entre o porte atual da operação e os passivos herdados. “Não estou aqui para julgar o passado, não é o meu papel. Mas a fotografia desse filme é que a companhia desequilibrou”, afirmou.
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O CEO lembrou que o GPA já faturou mais de R$ 100 bilhões em um ano e hoje fatura cerca de R$ 20 bilhões, mas carregava obrigações de quando era muito maior, antes da cisão do Assaí (2021) e da venda do colombiano Éxito (2024). A operação atual, segundo o CEO, é saudável.
“É uma companhia que gera caixa operacionalmente falando. Tem marcas fortes, clientes frequentes, 35 mil funcionários, um relacionamento excelente com os fornecedores”, disse.
A companhia ocupa a 5ª posição entre as maiores redes do varejo supermercadista brasileiro, atrás de Carrefour, Assaí, Grupo Mateus e Supermercados BH, segundo o ranking de 2026 da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), que reúne os supermercadistas do país, divulgado em abril.
A nova dívida e o alívio no caixa
Albuquerque detalhou a engenharia do acordo. Dos R$ 4,6 bilhões, R$ 1,5 bilhão vira debênture corrigida a CDI+2,5%, com dois anos de carência e vencimento em 2031.
Outros R$ 1,1 bilhão são convertidos em ações (equity) em quatro janelas de 25%, entre o início de 2027 e 2031, sempre ao preço médio de tela dos 90 dias anteriores a cada conversão.
E outros R$ 2 bilhões da dívida recebem deságio (haircut) de 70%, virando uma debênture de R$ 600 milhões com pagamento bullet (principal pago integralmente no vencimento) em 2036.
Com isso, o saldo em dívida cai para cerca de R$ 2,1 bilhões, uma redução de 54% sobre os R$ 4,6 bilhões originais, combinando deságio sobre uma fatia e conversão de outra em participação acionária. O prazo médio sai de 2,1 anos para mais de seis anos, e o custo recua de CDI+1,8 para CDI+0,5.
“A dívida reduz substancialmente e muito mais alongada, com custo menor. Coloca a companhia numa outra realidade”, disse o CFO.
O efeito no fluxo de caixa é o número mais expressivo da operação. “A gente teria vencimentos de R$ 5,2 bi nos próximos três anos, incluindo 2026, e isso vai reduzir para R$ 800 milhões”, afirmou Santoro.
“Isso vira uma nova companhia, é um cenário completamente diferente que nos permite focar no que é o mais importante”, disse.
Só entre maio e junho deste ano venceriam R$ 1,7 bilhão, o gatilho que tornou inevitável a recuperação extrajudicial.
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O plano agora aguarda homologação judicial, com prazo legal de 30 dias. Demais credores podem aderir nessa janela. Todos terão a opção de migrar para a debênture pecuniária ou para a conversível, desde que aportem recurso novo via risco sacado, capital de giro ou nova debênture.
Questionado se algum debenturista sinalizou questionamento na Justiça, Albuquerque respondeu: “Não sei. A gente conversou com os debenturistas também, mas todo mundo está aberto para fazer o que quiser”.
Sobre rating, o GPA ainda não procurou as agências. Em março, a Fitch havia rebaixado a nota da companhia para CCC(bra), citando deterioração de liquidez. Santoro avalia que a revisão é consequência natural.
“Da mesma forma que a companhia teve um downgrade antes desse processo, é natural que ela saia muito mais saudável, com balanço muito mais leve, mais adequado para a sua geração de caixa”. Não há follow-on no radar.
O que muda no operacional, e o que não
Santoro fez questão de separar o processo financeiro do dia a dia. Fornecedores, clientes e funcionários não foram afetados, segundo ele.
“Se você for nas nossas lojas, vai ver cliente entrando, cliente saindo, funcionários, estoque, as lojas abastecidas. A recuperação extrajudicial nos permitiu manter a operação em normalidade”, observou.
O CEO creditou aos fornecedores parte do mérito de atravessar o processo sem ruptura: “A companhia contou com o apoio e a parceria enorme dos nossos fornecedores. A gente passa por um processo como esse sem nenhuma ruptura no nosso dia a dia”.
Não há previsão relevante de fechamento de lojas. O parque atual soma 728 unidades. A empresa decidiu não abrir novas lojas e vai concentrar esforço no portfólio existente. O capex (investimento) já foi revisado para baixo.
A companhia não divulgou projeção de Ebitda nem prazo para retomar o lucro líquido.
“É um processo agora, a gente está concluindo. Vai atualizando o mercado nas reuniões de resultados de fechamento de trimestre”, disse Santoro.
O CEO lembrou que, desde que assumiu, o noticiário sobre a companhia só falou riscos de continuidade operacional e vencimentos. “Apesar de um monte de outras coisas boas acontecendo, era só o assunto que aparecia. Isso a gente resolve agora”, disse.
A partir daqui, segundo Santoro, o foco volta a ser entregar “uma experiência cada vez melhor para os nossos clientes”.
O conselho, que reúne a família Coelho Diniz (24,6%), o Casino (22,5%) e o investidor Silvio Tini, e que, segundo Albuquerque, representa “quase 80% das ações”, aprovou o plano por unanimidade. Mudanças societárias, segundo o CFO, são “tópico de sócios, não da gente especificamente”. Ou seja, a página, para a gestão, vira agora.
O GPA é assessorado pela Alvarez & Marsal no aspecto financeiro e pelo escritório Munhoz Advogados, do advogado Eduardo Munhoz, no jurídico.
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