Negócios

Fundadores devem injetar R$ 19 bi para socorrer empresas em crise no Brasil

Onda de resgates vai da família Pinheiros na Hapvida a Guilherme Paulus com a CVC, passando por Lemann, Telles e Sicupira na Americanas

Jorge Paulo Lemann, um dos três acionistas de referência da Americanas que podem injetar recursos na varejista
Por Vinícius Andrade e Cristiane Lucchesi
28 de Junho, 2023 | 12:53 PM

Bloomberg — As empresas brasileiras que enfrentam as altas taxas de juros no país e as crescentes cargas de dívida estão se voltando para as pessoas que ajudaram a construí-las para uma tábua de salvação.

Fundadores e principais acionistas de empresas brasileiras comprometeram-se a injetar até R$ 19,3 bilhões (cerca de US$ 4 bilhões) em capital para ajudá-las até agora neste ano, de acordo com dados compilados pela Bloomberg News. Os resgates, que chegaram via ofertas de ações e transações imobiliárias, devem continuar nos próximos meses.

“Provavelmente veremos mais e mais negócios ancorados por acionistas controladores ou relevantes”, disse Roberto Zarour, sócio e advogado de reestruturação do Lefosse Advogados. As injeções de capital, acrescentou, nem sempre são uma decisão voluntária de fundadores, mas uma exigência dos credores.

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As taxas de juros no nível mais alto em seis anos, a restrição ao crédito que se seguiu ao colapso da varejista Americanas no começo do ano e o aperto monetário nos Estados Unidos e na Europa tornaram mais difícil contrair empréstimos no país e no exterior.

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Como resultado, o montante de títulos corporativos do país em dólar negociados em níveis estressados (problemáticos) subiu para US$ 12 bilhões, alta de 26% desde o início do ano, de acordo com dados compilados pela Bloomberg.

Nos últimos meses, pelo menos meia dúzia de acionistas-chave já interveio nas companhias.

Guilherme Paulus, que fundou a maior rede de agências de viagens do país, a CVC (CVCB3), cinco décadas atrás, mas havia se desfeito de sua participação nos últimos anos, subscreveu parte da oferta pública de ações (follow-on) da companhia que foi precificada na quinta-feira passada (22). A transação fazia parte de um acordo com detentores de títulos locais em uma angustiada reestruturação.

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A CVC contratou o banco de investimentos BR Partners no início deste ano para assessorá-la nas conversas para a reestruturação. Espera-se que o dinheiro levantado na oferta de ações reforce o capital de giro da empresa e também pague o principal pagamento de algumas de suas notas.

Outro exemplo são os bilionários por trás da Americanas (AMER3): Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles. O trio, que investe na varejista desde o década de 1980 e a controlou até dois anos atrás, negocia injetar até R$ 12 bilhões na empresa até 2027 para mantê-la em operação depois que a suspeita de uma grande fraude contábil a levou para a recuperação judicial no início deste ano.

Desde o início das negociações, os credores exigiram um capital injeção dos três sócios, embora a quantidade de recursos tenha sido um ponto de atrito - e continua a ser.

Famílias bilionárias que fundaram a Hapvida (HAPV3) e a Dasa (DASA3), duas das maiores empresas do setor de saúde do país, também intervieram no início deste ano em meio à preocupação com sua situação financeira.

A família Pinheiro, por trás da Hapvida, não apenas participou de uma oferta de ações mas também anunciou uma acordo para comprar e arrendar dez propriedades imobiliárias da operadora de saúde.

As ações da Hapvida subiram mais de 80% desde o anúncio do apoio da família no final de março, recuperando-se de um recorde de baixa. Os spreads dos títulos locais em relação à taxa básica de juros DI tiveram um estreitamento médio de 100 pontos base até o início de junho, de acordo com o Bradesco BBI.

“As operações financeiras destinadas a gerar liquidez equilibraram a estrutura de capital da empresa e refletem a redução da alavancagem financeira”, escreveu o analista Altair Pereira, do Bradesco BBI, em relatório de 23 de junho, acrescentando que ele espera que os spreads de crédito do Hapvida diminuam ainda mais.

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No início desta semana, a empresa varejista de móveis e decoração Tok&Stok - que não é listada em bolsa - anunciou que recebeu uma injeção de R$ 100 milhões liderada pela empresa de private equity Carlyle Group, seu acionista controlador, em meio a uma reestruturação da dívida.

A Tok&Stok tem enfrentado pressão de fluxo de caixa nos últimos anos e fechou 17 de 68 lojas que possuía.

No caso da BRF (BRFS3), a Marfrig (MRFG3) - que detém uma participação de 33% na gigante de criação e processamento de frango - anunciou em parceria com o fundo estatal saudita Salic que comprará até R$ 4,5 bilhões em ações em uma oferta pública. A transação está pendente de aprovação de acionistas.

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