Estrela pede recuperação judicial 7 meses após acordo de R$ 747 mi com Receita

Fabricante dos jogos Banco Imobiliário, Detetive e Genius ajuizou o pedido em conjunto com outras sete sociedades do grupo; empresa citou pressão sobre consumo, custo de capital elevado e mudanças de hábitos das famílias brasileiras

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Bloomberg Línea — Dona de jogos clássicos como Autorama, Banco Imobiliário, Detetive e Genius, e uma das marcas mais reconhecidas da indústria brasileira de brinquedos que atua desde 1937, a Manufatura de Brinquedos Estrela (ESTR4) ajuizou nesta quarta-feira (20) pedido de recuperação judicial.

O movimento envolve outras sete sociedades do grupo econômico e encerra um ciclo de quase oito décadas de listagem em bolsa sem que a companhia tivesse recorrido à proteção da Lei nº 11.101/2005.

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O protocolo foi feito na Comarca de Três Pontas, em Minas Gerais, onde fica a principal unidade fabril do grupo, e abrange CNPJs que vão da operação industrial em São Paulo a subsidiárias de licenciamento, distribuição, editora e cosméticos.

A decisão ocorre cerca de sete meses depois do que parecia ser a maior vitória financeira recente da fabricante: o acordo de transação tributária com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, anunciado em setembro de 2025, que reduziu R$ 747,9 milhões em débitos com a União para R$ 72,4 milhões a serem parcelados em até dez anos.

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À época, o acerto foi lido pelo mercado como suficiente para afastar o risco de falência. Mas o fato relevante divulgado nesta quarta-feira mostra que a reestruturação tributária resolveu apenas um vetor do passivo.

No comunicado assinado pelo diretor de relações com investidores Carlos Antonio Tilkian, controlador da Estrela há mais de quatro décadas, a companhia atribui o pedido a três pressões combinadas: o aumento do custo de capital e a restrição de crédito, a mudança no comportamento de consumo com avanço de alternativas digitais, e o efeito cumulativo desses fatores sobre a estrutura financeira do grupo.

O documento não menciona o valor da dívida envolvida no processo nem o número de credores.

No balanço de 2024, último exercício disponível do grupo, a Estrela registrou prejuízo líquido de R$ 24,3 milhões, em parte pela dificuldade de montar o terceiro turno de produção antes do Natal, período que concentra a maior fatia da receita anual da indústria de brinquedos.

O valor de mercado da companhia em maio de 2026 estava ao redor de R$ 42,7 milhões. A título de comparação, o passivo tributário renegociado no ano passado, antes dos descontos, equivalia a mais de 17 vezes esse valor de mercado.

A estrutura societária listada no fato relevante revela um grupo mais ramificado do que a marca Estrela sugere ao consumidor final.

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Entram no processo Brinquemolde Licenciamento, Editora Estrela Cultural, JM Comércio e Indústria de Plásticos, Starcom Ltda., Starcom do Nordeste, a distribuidora homônima do grupo e a Catu Comércio de Cosméticos, sociedade unipessoal que indica uma diversificação tentada para fora da categoria de brinquedos.

A fabricante afirma que sócios, acionistas e administradores continuam à frente da gestão, conforme prevê o artigo 64 da lei de recuperação.

O movimento se insere em um ciclo persistente de reestruturações no varejo brasileiro de bens de consumo discricionário, em um ambiente de juro real elevado e migração de gasto familiar para serviços e entretenimento digital.

A concorrência com brinquedos chineses em polos de comércio popular é caracterizada como desleal por representantes da indústria nacional.

Casos como Tok&Stok/Mobly, Americanas e Light mostraram recentemente que a porta da recuperação judicial passou a ser acionada não apenas por choques pontuais, mas por desalinhamentos estruturais entre capacidade de geração de caixa e custo do passivo.

O desafio agora será apresentar um plano que convença credores de que a marca tem caminho de retorno à rentabilidade sem mais um ciclo de renegociações. A companhia informou, ainda, que apresentará o plano oportunamente e que segue com operações industriais e comerciais em curso.

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