Bloomberg Línea — Com 14 anos de idade, o paulistano Antonio Azevedo queria ganhar seu próprio dinheiro. Em meados da década de 1990, ele começou a comprar “mini disk” – a versão reduzida do CD player – dos Estados Unidos e trazer para o Brasil via DHL. “Sempre gostei de tecnologia”, contou o empresário.
O negócio prosperou, mas seu pai queria que ele trabalhasse em um emprego “formal”. Dos 16 aos 18 anos, foi estagiário nas gigantes globais de automação Siemens e ABB. Com 19 anos, porém, resolveu fundar uma escola de informática com método terceirizado, além de usar parte de seu tempo, em paralelo, para vender projetos no Autocad.
“Vendi meu carro e comprei uma moto para bancar a escola, mas em três dias roubaram minha moto e fiquei à pé. Foram cerca de 30 alunos e dois anos de prejuízo.”
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A virada para Azevedo se deu quando ele descobriu uma oportunidade de comprar notebooks usados nos Estados Unidos para consertar e revender no Brasil. Com isso, ele ganhou experiência no setor de informática e passou a atuar no mercado de itens novos, até o negócio ser comprado em 2007.
“Pensei em tirar um período sabático, mas o comprador da minha empresa me mostrou uma central multimídia, que ainda não existia no mercado automotivo brasileiro. Foi aí que comecei a pesquisar esse produto na China”, disse.
A LogiGo começou as atividades com a importação direta de centrais multimídia fabricadas, sob medida, por empresas chinesas. A venda no Brasil acontecia no chamado “aftermarket”, que é o comércio de itens automotivos voltados para reparo e serviços diversos.
O negócio cresceu a tal ponto que o plano atual é atingir o patamar de R$ 500 milhões em faturamento nos próximos cinco anos e acelerar o ganho de escala para o mercado norte-americano.
Com contratos de exclusividade com algumas marcas chinesas, a LogiGo passou a atender montadoras como Land Rover, Toyota, Mercedes-Benz, entre outras.
O diferencial da empresa, segundo Azevedo, era o tempo de espera quando os clientes precisavam de reparo.
“Enquanto meus concorrentes deixavam o cliente sem a peça, eu fornecia outra central imediatamente. Nos tornamos, por exemplo, os maiores revendedores da Toyota à época”, disse.

Nesse contexto, a LogiGo conquistou o primeiro projeto para entrar diretamente na linha da Toyota, na produção do Etios - e ficou de 2014 a 2019.
Com a exposição, venceu concorrências das linhas do March e do Versa, da Nissan. Até 2021, a empresa forneceu para todo o lineup da montadora. “Desenvolvemos a engenharia no Brasil e montamos uma parte na China com parceiros.”
A fábrica da Logigo fica em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, com capacidade para montagem (em sistema SKD) de 12.000 peças por ano.
A disputa nas licitações ocorre com gigantes globais como Harman (da Samsung), Bosch, Continental e Panasonic.
O diferencial, segundo Azevedo, é a agilidade da brasileira.
Inteligência artificial
Azevedo afirmou que a Volkswagen “rompeu a bolha” ao lançar sua própria IA para central multimídia, a primeira no mercado brasileiro.
Segundo o empresário, a IA dos carros terá que ser treinada individualmente para coletar as informações do carro e dos hábitos dos motoristas, de maneira permanente, o que demandará agilidade dos fornecedores.
“Temos recursos de software que consideramos únicos no mercado e conseguimos monetizar para as montadoras, por meio de parcerias com estabelecimentos, como postos de combustíveis, seguradora e até o McDonald’s”, disse.
Ele acrescentou que a LogiGo está preparada para atender todos os projetos do gênero. “Estamos sendo muito procurados.”
Atualmente, a brasileira participa de quatro concorrências, que correm em sigilo.

“Os fornecedores globais não fazem o que eu faço no mesmo tempo e custo, somente se forem concorrências globais. Mas esse tipo de produto costuma ser tropicalizado para cada região.”
Caso a LogiGo conquiste os quatro projetos, Azevedo afirmou que a fábrica de São Bernardo do Campo terá que ser ampliada.
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‘Oceano azul’
Azevedo está de mudança com a família para os Estados Unidos, onde ele pretende começar a desenvolver o negócio localmente.
O mercado automotivo norte-americano é o segundo maior do mundo (atrás da China), com vendas de aproximadamente 15 milhões de veículos por ano. O Brasil espera vender, em 2025, cerca de 2,7 milhões de unidades.
“Vamos buscar linhas de baixo volume nos Estados Unidos, que já são muito maiores do que as brasileiras. As montadoras lá são muito receptivas e o potencial é gigantesco, como um ‘oceano azul’”, afirmou Azevedo.
Com a taxação imposta pela administração de Donald Trump à China, a LogiGo avalia alternativas para produção. “Ainda não traçamos metas para os Estados Unidos. Vamos conhecer o mercado primeiro”, disse.
Enquanto isso, a matriz se concentra na expansão de uma jovem unidade de negócio, voltada para frotas.
A LogiGo Fleet oferece sistemas de monitoramento, telemetria e reconhecimento facial para motoristas, com contratos já fechados com frotistas de pequeno porte. “Vamos lançar nos Estados Unidos também. Estou muito otimista”, disse.
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