EMS diz que farmácia terá margem maior com 1ª caneta emagrecedora nacional

Anvisa concede registro à Ozivy, versão da semaglutida produzida pela farmacêutica brasileira; Marcus Sanchez, vice-presidente da fabricante, projetou que o varejo lucrará mais do que com produtos concorrentes

Por

Bloomberg Línea — O Brasil acaba de ganhar sua primeira versão nacional da semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, da dinamarquesa Novo Nordisk.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), órgão regular do país, concedeu nesta terça-feira (26) o registro da Ozivy, caneta injetável desenvolvida pela EMS, maior indústria farmacêutica brasileira em receita, controlada pelo empresário Carlos Sanchez.

A empresa indicou que o produto deve chegar às farmácias em 30 dias. A EMS espera que a CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) defina o preço nos próximos dias. A patente da molécula expirou em 20 de março. O preço sugerido ainda não foi divulgado por questão concorrencial, segundo a companhia.

A EMS vai entregar às redes margem superior à praticada pela Novo Nordisk no Ozempic, mas ainda aquém dos 30% a 40% que o varejo espera capturar com versões nacionais do medicamento.

“Nós tendemos, sim, a deixar mais margem do que a Novo Nordisk deixa, ainda possivelmente não atendendo às expectativas de parte do varejo”, afirmou Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS, em coletiva nesta terça, em resposta a pergunta da Bloomberg Línea sobre números informados pela Pague Menos.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Em entrevista à Bloomberg Línea em 4 de maio, o CFO da rede cearense, Luiz Novais, projetou que a margem bruta com canetas similares e genéricas pode subir dos atuais 15% para algo entre 30% e mais de 50%, dependendo da categoria.

Pelos cálculos do executivo, o lucro nominal por unidade ficaria estável, ou até superior, mesmo com preço final caindo de R$ 1.400 para algo entre R$ 600 e R$ 800.

Leia também: Das carnes às ’superproteínas’: a estratégia da JBS frente às canetas emagrecedoras

Embora não tenha revelado o preço de tabela, Sanchez adiantou que a Ozivy chegará às prateleiras com valor cerca de 30% abaixo do Ozempic, e também abaixo do Poviztra, da Eurofarma, produto licenciado pela própria dinamarquesa para concorrer no segmento de preço.

Há ainda um programa de adesão, com benefício adicional nas primeiras unidades, voltado a pacientes que estão iniciando o tratamento. “O produto, quando o preço full dele, ele vai ser bem mais acessível”, disse o executivo, indicando que o desconto inicial será “bem superior” aos 30%.

A meta da EMS é assumir a liderança do segmento em até 24 meses. “Vamos brigar pela liderança”, afirmou Sanchez. No primeiro ano, a Ozivy deve representar entre 4% e 5% do faturamento total da farmacêutica, o que a posicionaria como o produto de maior receita do portfólio. A EMS é hoje uma das companhias com faturamento mais pulverizado entre produtos no país, segundo o vice-presidente.

Mercado de R$ 20 bilhões

O lançamento ocorre em um mercado em forte expansão. O UBS BB projeta que o segmento de canetas emagrecedoras no Brasil saltará de R$ 11 bilhões em 2025 para R$ 20 bilhões em 2026, impulsionado pelo vencimento da patente da molécula em março.

O Itaú BBA, em relatório de janeiro, estima que o mercado doméstico de GLP-1 pode ultrapassar R$ 50 bilhões até 2030, partindo dos R$ 10 bilhões estimados para 2025, com participação dessas terapias chegando a 20% da receita das grandes redes de farmácia.

A Ozivy será produzida em Hortolândia (SP), onde a EMS investiu mais de R$ 1,2 bilhão em plataforma proprietária de peptídeos ao longo da última década. A planta tem capacidade instalada para 40 milhões de canetas por ano.

Veja mais: Canetas emagrecedoras elevam demanda por exames e favorecem medicina diagnóstica

No primeiro abastecimento, a companhia vai colocar 350 mil unidades nas prateleiras, com meta de comercializar 1,2 milhão no primeiro ano e faturamento superior a R$ 500 milhões.

Serão quatro apresentações: 0,25 mg, 0,5 mg, 1 mg e uma embalagem dupla de 1 mg, dosagem que sozinha responde por 60% do mercado.

A EMS deve ter concorrência de outras versões nacionais ao longo dos próximos meses.

Segundo Sanchez, há mais de 10 pedidos de registro de semaglutida em análise na Anvisa, embora a régua técnica da agência tenha levado a indeferimentos sumários em casos anteriores.

“Parte dos produtos vai ter registro concedido, e uma outra parte provavelmente vai ter registro indeferido”, afirmou.

A primeira fábrica de peptídeos da EMS recebeu o certificado de boas práticas em 2020; o registro da liraglutida saiu em 2024 e o da semaglutida agora, em 2026.

Santander: Hypera pode será a próxima

Para a equipe do Santander, a aprovação da Anvisa marca um passo importante para os setores farmacêutico e varejista, por ser o primeiro marco regulatório concreto no mercado brasileiro de semaglutida pós-patente.

O banco avalia que a aprovação pode abrir caminho para outros registros de produtos com a mesma molécula que estão sob análise.

Para o Santander, a comercialização da Ozivy, no entanto, deve começar apenas no terceiro trimestre, após a precificação pela CMED, o que normalmente leva cerca de 60 dias. A EMS preferiu trabalhar com prazo menor, de 30 dias.

Sobre a Hypera (HYPE3), o Santander vê a notícia como positiva, pois acredita que a empresa pode estar entre as três primeiras a obter aprovação regulatória. O banco projeta uma contribuição incremental de Ebitda de apenas 3% em 2027 e 4% em 2028 para a Hypera.

Para as redes de farmácia RD (RADL3) e Pague Menos (PGMN3), a análise é igualmente positiva: a chegada de um alternativo da classe GLP-1 deve ser accretiva para o setor, com impacto limitado no primeiro semestre de 2026, mas ganhando força no segundo semestre à medida que outros fabricantes obtiverem registros e a disponibilidade em estoque aumentar.

Novo Nordisk reage com combos

A reação da dinamarquesa à perda da exclusividade já começou. Em 8 de maio, a farmacêutica anunciou condição especial para o Wegovy 2,4 mg: na compra de duas unidades, a terceira sai sem custo até 31 de maio, o que equivale a desconto superior a 30%.

A ação se soma à oferta da apresentação inicial de 0,25 mg gratuita, válida desde março, e à nova política de preços para o Rybelsus, versão oral da semaglutida.

Diferentemente de uma cópia genérica, a Ozivy é enquadrada pela Anvisa como medicamento novo de molécula conhecida, com tecnologia de síntese química em fase sólida.

A EMS já comercializa no país, desde agosto de 2025, as canetas de liraglutida Lirux e Olire. Segundo Sanchez, a experiência embasou ajustes logísticos no lançamento da nova caneta: o abastecimento será horizontalizado entre redes, e não concentrado.

A indicação inicial é para diabetes tipo 2. A companhia pretende solicitar à Anvisa a extensão para obesidade em seguida.

Em paralelo, a EMS protocolou junto à FDA (Food and Drug Administration), reguladora sanitária dos Estados Unidos, o pedido de registro da tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, da Eli Lilly, cuja patente cai em 2032.

A submissão antecipada busca o benefício first-to-file, concedido às primeiras empresas a entrar com o registro de uma versão concorrente da molécula.

Leia também

Médicos já receitam ‘compre o mais barato’ em canetas emagrecedoras no Brasil