Em crise, Oncoclínicas busca comprador para hospital no Rio após desistência da Hapvida

Sob pressão de vencimentos e caixa insuficiente, a maior rede de oncologia do Brasil tenta se desfazer de ativos hospitalares enquanto o prazo para fechar acordo com Fleury e Porto Seguro vence neste domingo

Por

Bloomberg Línea — O grupo Oncoclínicas (ONCO3) busca um novo comprador para o Hospital Marcos Moraes, no Rio de Janeiro, após a Hapvida (HAPV3) desistir da aquisição no início deste ano.

A informação foi confirmada pelo CFO Marcel Cecchi na teleconferência de resultados do quarto trimestre, realizada na manhã desta sexta-feira (10).

O impasse da negociação ilustra as dificuldades que cercam a empresa e o setor. A Hapvida, que havia assinado em agosto passado um memorando vinculante de compra do ativo por R$ 5,3 milhões, desistiu após a due diligence (auditoria) em meio aos seus próprios desafios financeiros.

“O comprador desistiu após a due diligence e esse negócio acabou voltando para o portfólio da companhia”, disse Cecchi. “Mas estamos aqui revendo e tentando ver o que conseguimos fazer com isso.”

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

O episódio é emblemático do estado do plano de desinvestimentos que a Oncoclínicas anunciou há oito meses como principal resposta à crise.

Dos três hospitais colocados à venda, apenas o Hospital OMC de Uberlândia (Minas Gerais) foi vendido e entregue. O Hospital Vila da Serra, em Belo Horizonte, está em fase final de negociação enquanto o comprador ainda completa a due diligence.

Leia mais: Oncoclínicas tem prejuízo de R$ 3,67 bi em 2025; auditoria alerta para risco de colapso

O Hospital Marcos Moraes voltou ao ponto de partida e ao balanço da empresa, que enfrenta dificuldades de caixa. O ativo havia sido incorporado em 2023 numa transação avaliada em cerca de R$ 350 milhões, envolvendo compensação de recebíveis da Unimed-Rio, que depois se tornaria uma das causas da própria crise de liquidez da companhia.

Nas frentes de construção sob encomenda, os contratos de São Paulo e Belo Horizonte foram rescindidos sem desembolso. Mas no caso do projeto de Goiânia, isso não foi possível. A obra avançou demais para ser abandonada, e a empresa aguarda a conclusão para tentar vender a operação a um terceiro, segundo o CFO.

Leia mais: Oncoclínicas adia pagamento a credores e Fitch rebaixa rating a nível pré-default

Os dados do balanço divulgados nesta quinta-feira (9) também ajudam a entender a urgência do plano. A empresa encerrou 2025 com R$ 518 milhões em caixa ante R$ 2 bilhões no início do ano passado, enquanto as dívidas com vencimento nos próximos 12 meses somam R$ 3,4 bilhões.

Para cada real disponível, a Oncoclínicas deve R$ 6,60 no curto prazo. A deterioração foi acelerada por dois choques que o próprio CFO chamou de “graves”: a inadimplência da Unimed-FERG, que parou de pagar mais de R$ 800 milhões em recebíveis, e a liquidação do Banco Master, no qual a empresa mantinha R$ 430 milhões aplicados, que, juntos, consumiram mais de R$ 1,2 bilhão em liquidez em 2025.

A tentativa de aliviar o endividamento via conversão de R$ 1,4 bilhão em dívida em capital, homologada em novembro, não resolveu o problema.

“Foi apenas um swap de debt to equity [troca de dívida por participação acionária, sem entrada de dinheiro novo no caixa]. Não houve injeção de capital na companhia nesta transação”, reconheceu o CFO.

Auditores: risco de colapso

A Deloitte, que auditou o balanço, incluiu uma ênfase de risco de continuidade operacional nas demonstrações financeiras, e a dívida foi reclassificada integralmente para o curto prazo após a quebra de covenants (cláusulas com credores) com alavancagem de 4,3 vezes, acima do limite contratual de 3,5 vezes.

Após esse alerta de ongoing concern, a Oncoclínicas decidiu trocar a Deloitte pela PWC nas próximas demonstrações.

É nesse contexto que a crise já chegou às clínicas. As dificuldades no fornecimento de quimioterápicos levaram à remarcação de tratamentos em unidades da rede, segundo reportagem da Bloomberg Línea apurou de 31 de março.

Na teleconferência desta manhã, o CEO Carlos Gil, no cargo há apenas cinco semanas, confirmou o peso do momento com uma declaração que, vinda de qualquer outra empresa de saúde, soaria como rotina.

“A prioridade absoluta da companhia nesse momento é manter a sua atividade operacional na ponta ambulatorial de atendimento dos pacientes”, disse Gil.

A empresa ainda negocia com Fleury e Porto Seguro a formação de uma joint venture avaliada em R$ 500 milhões para absorver suas clínicas oncológicas. O prazo de exclusividade vence neste domingo (12).

Leia também

Oncoclínicas avalia buscar medida cautelar contra credores, dizem fontes