Em busca de ‘aterro zero’ até 2035, Assaí adota gestão de resíduos adaptada por região

Gigante do atacado avança na execução de plano de destinação sustentável de resíduos gerados com a operação com uma estratégia regionalizada, diz o gerente de Sustentabilidade e Investimento Social, Fábio Lavezo, à Bloomberg Línea

Assaí atacadista Manaus
13 de Janeiro, 2026 | 08:40 AM

Bloomberg Línea — Metas de sustentabilidade têm cada vez mais passado a ocupar um espaço central nas estratégias de empresas, que passaram a divulgar relatórios e indicadores para mostrar a evolução de suas práticas ambientais, sociais e de governança - mais conhecidas sob a sigla ESG.

Um exemplo desse movimento é a rede atacadista Assaí (ASAI3), que firmou o compromisso de atingir o “aterro zero” até 2035, segundo informação adiantada em primeira mão à Bloomberg Línea.

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Fábio Lavezo, gerente de Sustentabilidade e Investimento Social do Assaí, explicou que a estratégia da empresa, construída de forma gradual ao longo dos últimos anos, enfrenta o desafio de adaptação às realidades regionais do país.

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O plano chega em um momento que a rede expandiu sua presença pelo país e passou a lidar com volumes crescentes de alimentos e embalagens.

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Atualmente, cerca de 45,5% dos resíduos gerados nas operações são reaproveitados. Ou seja, para 2035, a meta é mais do que duplicar o nível atual de reaproveitamento de resíduos de uma operação que envolve hoje 312 lojas e 12 centros de distribuição espalhados pelo país.

O conceito de aterro zero, porém, não significa que ocorrerá a eliminação total do descarte. Na prática, segundo explicou Lavezo, é possível que cerca de 10% dos resíduos ainda sejam destinados a aterros sanitários.

“Porque esses 10% são de fato resíduos sanitários”, disse.

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Para avançar no plano estratégico, a empresa tem priorizado diferentes destinações para os materiais a depender da localização no país, como reciclagem, compostagem, doações e outras rotas de reaproveitamento.

No Nordeste, por exemplo, o Assaí conduziu um projeto-piloto de triagem manual de resíduos em parceria com uma cooperativa, para separar embalagens recicláveis do resíduo orgânico.

Na compostagem, o número de lojas participantes passou de 19 em 2024 para cerca de 92 unidades.

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Em termos de volume, os avanços são tangíveis: a quantidade de resíduos destinada a esse tipo de tratamento mais do que dobrou em um ano e passou de cerca de 3.600 toneladas para aproximadamente 6.300 toneladas.

O objetivo é ampliar as possibilidades de destinação, “em que o vidro segue para reciclagem, e o conteúdo, para compostagem”, disse o executivo, ao citar o caso de potes de palmito.

Em unidades de São Paulo, parte dessa segregação já ocorre de forma mais estruturada, diante de processos internos mais maduros, disse o executivo.

Outro desafio está na capacitação das equipes.

“Estamos falando de uma companhia com mais de 90.000 colaboradores. Há uma jornada que promovemos para que os colaboradores mais ‘operacionais’ possam se desenvolver dentro da empresa”, disse.

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“As regiões Norte e Nordeste, principalmente, são as mais desafiadoras na execução, porque essa pauta ainda não está tão em voga na sociedade como um todo, a ponto de gerar naturalmente serviços, soluções e fornecedores com os quais a empresa possa se conectar”, afirmou sobre diferenças regionais.

Trata-se de um desafio estrutural que vai além do Assaí, ressaltou. Internamente, a empresa vê as áreas de operação como os principais responsáveis pela mudança, capazes de adaptar processos à realidade de cada loja.

Equipamentos como biodigestores, modelos de tanques que decompõem a matéria orgânica, ajudam a entender o tamanho do desafio.

“É um equipamento que custa R$ 8.000 por mês”, disse. Segundo ele, a decisão exige cálculos detalhados sobre o volume de resíduos gerado por cada loja e o nível de utilização do equipamento.

“Portanto, existe um desafio também de custos”, acrescentou.

Na avaliação do executivo, a gestão de resíduos no varejo é mais complexa do que na indústria, justamente pela natureza da operação.

“O resíduo ainda é tratado de forma mais homogênea, mas o setor de varejo é bem diferente de uma indústria, que tem processos muito travados. A loja é uma dinâmica orgânica”, disse o executivo que trabalha no Assaí há dez anos e que desde 2007 tem sua carreira voltada para a área de sustentabilidade.

Antes disso, passou pela rede de supermercados Compre Bem, a agroquímica Ilharabrás, a construtora Camargo Corrêa e a gigante de proteínas BRF.

Oportunidades

Apesar dos desafios, há muitas oportunidades no horizonte, como a destinação dos recicláveis: “é uma oportunidade de aprimorar a categorização e a segregação desses materiais. Não pela questão da receita mas pela eficiência do processo”.

“Há muitos resíduos que hoje ainda seguem para o aterro e que poderiam ter outro destino, como já acontece em lojas que realizam a triagem manual”, disse.

Ao definir a meta de aterro zero, o Assaí, segundo o executivo, consolida um processo de amadurecimento da estratégia ambiental.

O avanço da agenda ambiental na rede atacadista ocorre em paralelo à expansão da operação.

Segundo o último relatório de Sustentabilidade, publicado em 2024, o avanço da operação levou a um aumento de 13,2% no consumo total de energia.

“Mais do que reduzir resíduos, queremos transformar toda a nossa cadeia em um ciclo no qual nada é desperdiçado. Nessa agenda de priorização, chegou o momento de cravar o tamanho da nossa ambição.”

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