Electrolux reduz dependência asiática e reforça ‘made in Brazil’ de olho em LatAm

Em entrevista à Bloomberg Línea, Ramez Chamma, COO do grupo sueco para América Latina, explica a estratégia de ampliar o mix de produtos fabricados no país após investimentos em fábricas

Electrolux internaliza produção de purificador de água
07 de Junho, 2024 | 05:49 AM

Bloomberg Línea — Mais “Made in Brazil” e menos “Made in China”.

A Electrolux tem avançado na estratégia de nacionalização do portfólio para aumentar sua competitividade no mercado nacional de eletrodomésticos. Em abril, a multinacional sueca começou a produzir purificadores de água com compressor na fábrica de Curitiba, que, antes, importava da Ásia.

Livres de custos como o frete marítimo, os produtos montados no Paraná tendem a chegar ao varejo com preços menores, o que favorece ganhos de market share, segundo um dos seus principais executivos na América Latina. Em 2025, há estudos para que novos produtos passem a ser fabricados no país.

Em entrevista à Bloomberg Línea, Ramez Chamma, COO do Electrolux Group América Latina, revelou os planos para a região, que incluem ainda a retomada das exportações do Brasil para a Argentina após recentes medidas anunciadas pelo governo de Javier Milei e as iniciativas de sustentabilidade que buscam tornar os lares dos consumidores mais adaptados para enfrentar as mudanças climáticas.

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Esse reforço da Electrolux na produção local antecede um marco histórico da multinacional, que se prepara para completar 100 anos de presença no Brasil, em 2026. Na metade do próximo ano, espera inaugurar uma fábrica em um terreno de 1,5 milhão de m² em São José dos Pinhais, na Grande Curitiba, no Paraná.

Isso vai ampliar o mix de produção e seguirá as diretrizes de sustentabilidade do grupo, como atingir a meta de carbono zero (neutralidade climática) até 2033 nas operações e em toda a cadeia de valor até 2050.

“A tecnologia da Electrolux é o diferencial em relação à concorrência”, disse Chamma, que ocupa o cargo há quatro anos. O executivo tem 37 anos de atuação no mercado - começou na extinta Prosdócimo (sobrenome da família paranaense fundadora), adquirida pela Electrolux em 1996 e sua base para expansão no Brasil.

Ramez Chama, COO da Electrolux Group América Latinadfd

No varejo brasileiro, a companhia rivaliza principalmente com a americana Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, as coreanas LG e Samsung, além da japonesa Panasonic.

Nos últimos anos, a competição no mercado de geladeiras, fogões, lavadoras e outros utensílios domésticos (setor de home appliances) se acirrou com a ofensiva deflagrada por outros players asiáticos, como as chinesas Midea, Hisense, Gree e TCL.

Hoje o grupo sueco possui seis unidades fabris na América Latina: quatro no Brasil (duas no Paraná, uma em São Carlos, no interior de São Paulo, e uma na Zona Franca de Manaus, no Amazonas), uma na Argentina (Rosário) e uma no Chile (Santiago). Há ainda 19 armazéns.

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Na fronteira de México e EUA, opera uma fábrica com todas as etapas de produção, voltada quase integralmente para abastecer o mercado americano, sem considerá-la uma planta da região.

Atualmente, cerca de 40% dos produtos da Electrolux vendidos na América Latina são provenientes de fornecedores localizados na Ásia, segundo Chamma. Eles prestam dois tipos de serviços à multinacional: OEM (Original Equipment Manufacturer, fabricante de equipamento original) e ODM (Original Design Manufacturer, fabricante de design original).

O primeiro produz itens padrão, como peças e componentes, enquanto o ODM fabrica produtos white label, sem marca própria, para serem vendidos sob a marca da empresa contratante.

“Trazemos produtos da China. Temos parceiros na Ásia. São fornecedores OEM e ODM. Os produtos são desenvolvidos para a Electrolux. Eles usam nossa engenharia, tecnologia, design e conceito. Para alguns desses produtos estamos fazendo avaliação de fazer a internalização melhor no Brasil. Assim, conseguimos ter uma flexibilidade maior da fábrica, atender melhor nossa área de vendas e atender mais rapidamente nossos consumidores”, contou Chamma, sem revelar categorias sob estudo.

Leia trechos da entrevista com o COO da Electrolux Group América Latina, editada para fins de clareza.

Por que a Electrolux parou de importar purificador de água da China e começou a produzir no Brasil?

Competitividade, flexibilidade e maior proximidade com nossos consumidores, agilizando entregas. Todos os produtos vendidos pela Electrolux têm também um compromisso com a sustentabilidade, como diminuir a necessidade de transporte de longa distância, o que impacta diretamente nas emissões de carbono associadas à logística.

Nossos refrigeradores preservam alimentos por mais tempo, nossos fornos e fogões consomem menos energia. Nossas lavadoras têm a meta de fazer a roupa durar duas vezes mais que o normal, pois o vestuário é um dos grandes lixos da humanidade, as pessoas reusam pouco. Temos três divisões de produtos: taste, care e wellbeing. O purificador está nessa divisão de bem-estar.

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Redução de custo com frete, impacto cambial e melhora da logística e da distribuição na América Latina influenciaram na decisão de nacionalizar a produção?

Sim. Esses pontos citados têm a ver, pois tornam os produtos mais competitivos, mais próximos dos nossos consumidores e aumentam a flexibilidade da operação. Trazemos produtos da China. Temos parceiros na Ásia. São fornecedores OEM e ODM. Os produtos são desenvolvidos para a Electrolux. Eles usam nossa engenharia, tecnologia, design e conceito.

Para alguns desses produtos estamos fazendo a avaliação de fazer essa internalização melhor no Brasil. Assim, conseguimos ter uma flexibilidade maior da fábrica, atender melhor nossa área de vendas e atender mais rapidamente nossos consumidores

Que outros produtos do portfólio, além do purificador de água, passaram a ser fabricados no Brasil?

Começamos com os fornos, que eram importados. Fizemos um investimento de mais de R$ 400 milhões na fábrica de São Carlos para a nova linha de fogões. A internalização melhora os produtos, diferencia mais os modelos disponíveis em determinado mercado. O forno de embutir passou a ser fabricado aqui junto com a linha de cooktops.

Quais foram os critérios para priorizar o purificador de água na lista dos produtos a serem internalizados?

Olhamos vários aspectos. Um deles é o custo total. O frete é um componente importante, bem como nossa capabilidade, isso ajuda a reduzir custos. Avaliamos tudo cuidadosamente. O consumidor se preocupa mais com a qualidade da água. Com as ondas de calor, se hidrata mais.

A taxa de penetração do purificador no mercado brasileiro ainda é muito pequena, entre 10% e 20%, mas ainda tem muito espaço para crescer. Queremos 30% desse mercado. Temos o desafio de mostrar ao consumidor sobre a diferença de beber uma água filtrada.

Que faixas de renda no Brasil a Electrolux espera atingir?

O purificador não é um produto básico, mas de média e alta classe e vai continuar assim por um bom tempo. É mais forte nas regiões Sul e Sudeste. É como a lava-louça, que nos EUA vende milhões, e no Brasil, não chega a 1 milhão ao ano. Dependendo do modelo, o purificador custa entre R$ 800 e R$ 2.000.

Ele representa 2% da nossa produção total. Mas temos de ir “cavando” esse mercado e criar consciência. O filtro garante pureza, qualidade da água. A pegada sustentável vai ajudar o produto.

Quais os próximos passos nessa estratégia de ampliar o mix de produtos internalizados?

Há alguns produtos que estudamos e podem ser internalizados no começo do ano que vem, mas não podemos ainda revelar. Vamos avaliar caso a caso. As decisões dependem do mercado, um pouco da concorrência. Fazemos estudos pontuais. Não temos uma meta específica de um número de produtos para internalizar.

Como a Electrolux se prepara para as encomendas da Black Friday, após a estiagem no rio Amazônia prejudicar o transporte de mercadorias no polo industrial de Manaus?

Recebemos alertas dos institutos de clima sobre o risco de uma nova seca na região, que teria intensidade diferente da registrada no ano passado. O nível do rio já está dois metros abaixo do que estava em 2023. Todo mundo está se preparando. Estamos antecipando muito desembarque de componentes, dos kits fabricados na Ásia e usados na montagem, que respondem por 40% do conteúdo do produto final.

A dificuldade é que o rio não é uma hidrovia. Deveria ter sido feito uma hidrovia e possivelmente vender isso para uma concessão. Não há solução a curto prazo. Estamos avaliando a possibilidade de usar um píer flutuante que um dos portos [Porto Chibatão] conseguiu aprovar.

No ano passado, pagamos um frete mais caro para descarregar no Porto do Pecém, no Ceará, e trazer os kits em balsas menores até Manaus. Não queremos fazer isso neste ano, pois o custo é muito alto.

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Como a Electrolux vê o aumento da concorrência com o foco dos players asiáticos na América Latina?

Temos concorrentes no mundo todo. São chineses, coreanos, americanos, europeus. Isso é desafiador, mas temos casos de sucesso. Somos, por exemplos, líderes em microondas há muito tempo. Temos mais de dez competidores que produzem em Manaus. Conseguimos acertar o produto, o preço, o custo, a logística. Isso explica o alto índice de mercado que temos.

Acredito que a concorrência é sempre bom, isso faz nos mexermos, aparece mais emprego, e o consumidor também ganha. O mercado é para todos, desde que o jogo seja limpo, que todo mundo esteja sob as mesmas condições, os mesmos critérios e governanças. Isso é importante.

Com o menor custo decorrente da internacionalização, a Electrolux vai aumentar margem integralmente ou vai repassar algo para o varejo?

Dividimos com o varejo, senão não muda nada na ponta. Temos que fazer chegar ao consumidor. Ele tem que comprar o produto mais barato.

Há planos para exportar uma parte da produção?

O Brasil não tem um perfil exportador de bens manufaturados devido aos custos de operar no país, custo de logística. Chegamos a mandar, mas não é relevante. Mesmo assim, alcançamos Peru, Equador, Colômbia, Costa Rica e até o México. Há modelos específicos que produzimos atraindo o Cone Sul e os andinos.

Haverá uma retomada das exportações do Brasil para a Argentina?

Vamos exportar o purificador para a Argentina, mas temos que adaptar. Eles têm o hábito de consumir mate. Isso significa que o purificador precisa ter água quente. Essa adaptação deixará o produto mais caro, mas é um caso específico.

Temos uma fábrica na Argentina, em Rosário, onde fabricamos refrigeradores, fogões e lavadoras. Estamos de olho nos custos, nos fornecedores, nos concorrentes e na nossa operação. Já estamos quitando dívidas com fornecedores depois da impossibilidade de pagá-los, quando o mercado se fechou [em razão da maxidesvalorização do peso em dezembro] e houve a migração para fornecedores locais.

O novo presidente [Javier Milei] está fazendo uma abertura de mercado que atinge a linha branca [geladeira, fogão, lavador, microondas e outros]. Uma medida do Milei foi igualar as tarifas de importação do Mercosul com as da China. Ficou agora competitivo. Isso vai afetar a indústria argentina.

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Sérgio Ripardo

Jornalista brasileiro com mais de 25 anos de experiência, com passagem por sites de alcance nacional como Folha e R7, cobrindo indicadores econômicos, mercado financeiro e companhias abertas.