EDP Brasil integra operação de renováveis para avançar no mercado livre de energia

Em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea, o CEO para a América do Sul, João Brito Martins, diz que o foco da reorganização societária é preparar a empresa para o desenvolvimento do setor nos próximos anos

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Bloomberg Línea — A EDP informou nesta terça-feira (19) que fará uma reorganização societária, passando a integrar no Brasil 100% da EDP Renováveis para concentrar todas as suas operações de geração de energia e comercialização no país.

O movimento visa simplificar a estrutura operacional, ampliar sinergias e fortalecer a posição no mercado livre de energia.

Segundo o CEO da EDP para América do Sul, João Brito Martins, não há perspectiva de crescimento no segmento de renováveis no país nos próximos anos.

“Esta é uma das razões. Por outro lado, com a expectativa de abertura do mercado livre de energia, um portfólio único com geração hídrica, eólica e solar nos dá a possibilidade de melhorar a oferta para os clientes finais”, afirmou o executivo em entrevista exclusiva à Bloomberg Línea.

A motivação de ter uma plataforma de geração totalmente integrada é permitir ao grupo responder melhor aos desafios do setor no futuro.

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A EDP Renováveis opera no país um portfólio com 1,8 gigawatt (GW) de capacidade instalada, sendo 1,1 GW em geração eólica onshore (em terra) e 0,7 GW em solar de grande porte (utility scale).

“O Brasil não tem expectativa de novos investimentos em renováveis nos próximos três ou quatro anos. A EDP Renováveis possui uma história de crescimento no país, entendemos que faz mais sentido essa reorganização”, disse Martins.

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O mercado brasileiro vive um momento de excesso de oferta de renováveis, com picos principalmente de solar durante o dia. Com isso, parte da geração das empresas, incluindo não renováveis, é obrigatoriamente interrompida por ordem do regulador, o chamado “curtailment” – como não há estocagem, crescem os riscos de sobrecarga no sistema.

Neste contexto, a EDP Renováveis global decidiu focar em grandes mercados do segmento como Estados Unidos e países da Europa, deixando a gestão integrada no Brasil com a geração hídrica.

Na prática, segundo o grupo português, a operação brasileira reunirá em uma única plataforma as atividades de produção, gestão de energia e comercialização, o que tende a aumentar a agilidade na tomada de decisão, a eficiência operacional e a capacidade de gestão de risco.

Abertura do mercado livre de energia

O movimento ocorre em um momento de expansão do ambiente livre de negociação de energia no país, impulsionado pela abertura gradual da modalidade para novos perfis de consumidores, incluindo pequenas e médias empresas.

“Olhamos para a abertura do mercado [livre] como uma grande oportunidade, assim como aconteceu em Portugal. Temos o conhecimento e as competências”, diz Martins. O executivo iniciou sua jornada na EDP Portugal em 2005, participando do processo de abertura do mercado livre de energia no país europeu.

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Segundo o grupo, a transação prevê contrapartida total de R$ 4,1 bilhões (equivalente a um enterprise value de €1,5 bilhão), o que deve ser feito via aumento de capital.

A conclusão da operação está prevista para ocorrer até o final de 2026, condicionada a aprovações regulatórias e demais condições usuais.

Como parte da visão de longo prazo, o grupo vem ampliando globalmente os projetos envolvendo armazenamento de energia. “Continuamos a desenvolver nossos projetos na área de baterias. Nos Estados Unidos, já temos bastante conhecimento no setor, com 500 megawatts em operação”, relata o executivo.

Ele acrescenta que, no Chile, um projeto de 60 megawatts também de baterias deve entrar em operação ainda esse ano. “No Brasil, assim que houver condições no mercado, também queremos atuar na área.”

O mercado está à espera da publicação do edital sobre o leilão de baterias pelo Ministério de Minas e Energia.

Em 2023, a EDP concluiu o fechamento de capital da EDP Brasil, com o objetivo de trazer mais flexibilidade na gestão financeira e operacional para a subsidiária local.

Na visão de Martins, ainda há grandes oportunidades no mercado brasileiro, como o segmento de distribuição.

Ele salienta que, neste ano, o grupo EDP completa 50 anos, sendo 30 no Brasil.

“Foi o primeiro país a fazermos um processo de internacionalização. Nos habituamos a ter perspectivas de longo prazo por aqui e mantemos essa visão. Operamos em um setor com ciclos muito longos, de até 30 anos”, diz.

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