Bloomberg Línea — A healthtech paulistana Dr. Consulta negocia integração ao programa “Agora Tem Especialistas” do governo federal e mapeou 10 estados para um ciclo de aquisições e expansão, após receber aporte de R$ 155 milhões (US$ 30 milhões) da IFC (International Finance Corporation), braço de investimento do Banco Mundial.
A rede de centros médicos e serviços ambulatoriais confirmou que o capital está em processo de desembolso e viabilizará expansão para dobrar o número de pacientes, atingindo 10 milhões até 2030 através de investimento orgânico, aquisições regionais e telemedicina, segundo o CEO Massanori Shibata Jr. em entrevista à Bloomberg Línea.
Já a resposta do Ministério da Saúde sobre a parceria com o SUS é esperada “nos próximos dias ou no próximo mês”, segundo ele. A participação da Dr. Consulta significaria reforço no atendimento ambulatorial, preenchendo uma lacuna de especialidades no sistema público.
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A negociação com o SUS não é isolada. A Dr. Consulta coordena a oferta em bloco coletivo com a ANEBAPS (Associação Nacional das Empresas de Benefícios Primário e Secundário), instituição fundada em 2024 e que hoje reúne 10 empresas de atenção primária espalhadas pelo Brasil, entre elas Clínica Vittá, SIMCo Healthcare (Clínica SIM), Salute e Segmedic. O objetivo é unir forças entre players similares para ganhar escala, reduzir custos e aumentar poder de negociação.
Uma comitiva do Ministério da Saúde visitou unidades da Dr. Consulta em agosto e setembro. “Oferecemos para uma comitiva do Ministério da Saúde uma demanda significativa de especialidades. Agora eles vão ver como vão trabalhar isso dentro de cada região”, disse o CEO.
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O CEO pediu sigilo sobre o número específico de slots e especialidades ofertadas, mas confirmou que “todas as empresas da associação ofereceram slots para poder complementar essa demanda reprimida que existe” no SUS.
Pesquisa BTG/Nexus divulgada na segunda-feira (28) apontou saúde como o segundo ponto de desconforto dos eleitores brasileiros, sinalizando ao governo federal a urgência de ampliar acesso a esses serviços.
O executivo propõe estender ao setor privado um modelo que funciona dentro do SUS: permitir que pacientes do SUS sejam encaminhados para a Dr. Consulta fazer um exame e retornem ao sistema público.
“Não competimos com SUS. Ajudamos quem está no SUS com capacidade de complementar esse serviço”, afirma.
Essa estratégia reflete aprendizado direto da Cuidar-me, operadora de saúde suplementar que a Dr. Consulta fundou e encerrou em maio de 2024 com 18 mil beneficiários.
“Saúde suplementar é algo muito específico e difícil em ambiente regulado. Nosso mercado é essa população do SUS com capacidade de consumo para complementar esse serviço e voltar ao SUS”, explicou o CEO, sinalizando reposicionamento fundamental.
A receita bruta da empresa cresceu de R$ 230 milhões em 2023 para R$ 550 a 600 milhões em 2026, crescimento de 140% em dois anos. A empresa alcançou lucratividade nos últimos 24 meses, viabilizando expansão orgânica que o aporte agora acelera para outros estados, segundo o CEO.
M&A para expansão nacional
O CEO mapeou as 10 principais cidades em cada estado como prioridade para expansão, mas não especificou quais. Operacionalmente, a Dr. Consulta já expandiu para Rio de Janeiro com 32 unidades, a maioria em São Paulo.
No Rio, inaugurou neste ano unidade conceito no supermercado Guanabara na Tijuca (zona norte), que recebe 12 mil visitantes diários. Planeja complementá-la com unidade de 1 mil metros quadrados perto da Praça Saens Peña, seguida de Botafogo e Copacabana.
Em São Paulo, a rede ocupa shoppings em Itaquera e Tatuapé, na zona leste, buscando regiões de elevada circulação, como ao lado de estações de metrô, como Faria Lima, no Largo da Batata, e nos arredores do Shopping Santa Cruz.
Sobre M&A, a estratégia da Dr. Consulta não visa consolidação de grandes players. A empresa aposta no equity hire, prática que ganha impulso no Brasil: comprar pequenas empresas de tecnologia pelo talento, não pelo negócio.
“A gente não busca adquirir empresas de software grandes. Buscamos comprar equipes talentosas e integrar esses profissionais para potencializar o que a gente já faz. Se tem gente fazendo fora melhor do que a gente, a gente pode fazer parceria, joint venture, ou futuramente, uma aquisição”.
A Dr. Consulta desenvolveu internamente a Veri, assistente de IA integrada ao WhatsApp para criar uma wallet de saúde: agregador digital onde pacientes acessam histórico de consultas, exames e acompanhamento de patologias crônicas. O desenvolvimento recebeu financiamento da FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), agência vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
A Veri funciona de forma opcional. “Trinta mil pacientes com hipertensão, diabetes, tireoide, obesidade fazem acompanhamento através de Veri. Isso gera receita recorrente através do engajamento de medicina justa”, afirma o CEO.
O protocolo de tratamento se personaliza conforme capacidade de pagamento: dois diabéticos com mesmo protocolo, um ganhando dois salários mínimos e outro ganhando dez, recebem tratamentos diferentes.
Parceria com Pardini e agências multilaterais
Operacionalmente, a Dr. Consulta também se vale de parceria estratégica com o grupo mineiro Hermes Pardini, adquirido pelo Fleury (FLRY3) em 2022, para serviços de diagnóstico. A licitação coletiva via ANEBAPS beneficia ambos os lados.
“Todo o crescimento das empresas que são associadas traz o benefício de crescimento de análises clínicas para o Pardini também”, explica Shibata.
A mudança de perfil de acionistas redefiniu prioridades. Historicamente dominada por gestoras de growth como Kamaroopin, Patria, Madrone e Lightrock, a Dr. Consulta Holding agora recebe agências multilaterais com mandato de impacto social: JICA (Agência de Cooperação Internacional do Japão), BID Invest (Inter-American Investment Corporation) e IFC.
“Quando você traz investidores com fins lucrativos exclusivamente, a tese tende a caminhar para uma única vertente. Quando trazemos agências multilaterais, isso nos dá a possibilidade de comunicar que o Dr.consulta é de longo prazo”, observa o CEO.
A IFC historicamente adquire fatias entre 5% e 20% do capital em empresas de saúde. Segundo registros públicos da IFC, o aporte de US$ 30 milhões foi aprovado em julho de 2026 e aguardava desembolso em 24 de setembro, mas nem a IFC nem o CEO confirmaram à Bloomberg Línea a participação acionária específica.
Se seguir o padrão, o valuation total da Dr. Consulta Holding estaria entre R$ 750 milhões e R$ 3 bilhões, ainda longe do status de unicórnio (a partir de US$ 1 bilhão).
O CEO não quis comentar o valuation da empresa. “A questão para mim não era [se tornar] um unicórnio. A questão é conseguir destrancar o mercado para essa população que precisa desse produto alternativo. Se isso for se transformar num unicórnio, vai ser ótimo para todo mundo, mas o nosso objetivo principal é continuar gerando esse acesso”, diz.
No Crunchbase, plataforma que rastreia dados de startups e investimentos, as métricas da empresa mostram divergência. O Heat Score (indicador de confiança e momentum) subiu 9 pontos com o anúncio da IFC. O Growth Score (dinâmica operacional de crescimento) caiu 8 pontos.
Shibata explica o descompasso: “A gente passou os últimos dois anos dando uma organizada na empresa. Intencionalmente não publicamos informação para não gerar buzz de mercado. A gente se fechou dentro da concha até um momento mais sábio para sair”.
Os números públicos disponíveis refletem receita de 2023, não de 2026, razão pela qual as métricas ficaram desatualizadas, segundo ele.
O CEO conclui refletindo sobre sua trajetória na saúde: “Trabalhei no setor público, depois no suplementar com planos de saúde. Agora estou no modelo de acesso privado acessível, onde pessoas pagam por assinatura ou consulta com cartão. Esse era o segmento que me faltava explorar”.
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