Bloomberg Línea — O executivo Mário de Abreu, vice-presidente Global de Sustentabilidade da Ferrero, é responsável por um dos maiores desafios da dona de marcas como Nutella, Ferrero Rocher, Kinder e Raffaello: avançar na descarbonização de uma cadeia global em grande parte ancorada no agro.
O setor agrícola concentra algumas das emissões mais difíceis de medir, reduzir e comprovar, como reflexo de cadeias produtivas longas, fragmentadas e distribuídas em diferentes locais.
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Ingredientes como cacau, óleo de palma e leite, base de produtos amplamente conhecidos do grupo, estão inseridos em realidades onde conceitos como rastreabilidade ainda encontram limites práticos.
“A agricultura é, sem dúvida, a área mais difícil de todas”, disse Abreu em entrevista à Bloomberg Línea.
“Energia você resolve em dois ou três anos. Agricultura leva 10, 15, às vezes 20 anos para demonstrar resultado.”
A explicação de Abreu ajuda a entender por que a Ferrero, apesar de ter tido avanços relevantes na indústria, vê o agro — que integra o escopo 3 — como a próxima fronteira da descarbonização, um desafio compartilhado por outras gigantes de alimentos.
Segundo o executivo e o último reporte de sustentabilidade de 2024 da companhia, a Ferrero tem avançado de forma consistente em atividades sob seu controle direto, como a eletrificação de fábricas, o uso crescente de energia renovável e a redução das emissões dos escopos 1 e 2.
“[Mas] O grande volume de emissões está no escopo 3”, afirma o executivo. “E, dentro dele, principalmente, na agricultura.”
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No caso da Ferrero, essa maior dificuldade acontece, sobretudo, diante da ausência de dados confiáveis.
No caso do cacau, por exemplo, grande parte da produção do tipo commodity vem da Costa do Marfim e de Gana, regiões onde a mensuração histórica de dados ambientais é limitada.
Em muitos casos, diz Abreu, não há sequer uma linha de base para medir carbono no solo — um dos principais indicadores usados hoje para avaliar o impacto climático no campo.
“Você não está falando de uma fazenda ou de uma região homogênea, mas de milhares de produtores pequenos, em realidades muito distintas”, disse em relação à compra de cacau.
“Em muitos países, ninguém nunca mediu carbono no solo”, afirma. “Então você tem que começar do zero.”
Antes de chegar à Ferrero, Abreu já havia construído uma carreira consolidada como executivo global em grandes empresas.
Ele integrou a governança da Roundtable on Sustainable Palm Oil (RSPO), principal fórum global que define padrões de sustentabilidade para a cadeia do óleo de palma, e passou mais de duas décadas na Tetra Pak, uma das líderes globais em soluções de envase e embalagens para alimentos.
Na companhia, chegou ao cargo de vice-presidente global de Sustentabilidade e trabalhou em mercados como Suécia e Canadá.
Medir antes de prometer
A cautela da Ferrero em anunciar metas mais agressivas para o agro está diretamente ligada a esse déficit de informação. A empresa vem recalculando suas métricas de escopo 3 à luz das novas exigências do Science Based Targets initiative (SBTi), que passaram a separar emissões ligadas a florestas, terra e agricultura (FLAG) das demais.
Para Abreu, é fundamental que as empresas evitem “soluções fáceis”, como compensações baseadas exclusivamente no plantio de árvores.
“É preciso provar que aquele carbono ficou estocado no solo ao longo do tempo.”
Segundo ele, padrões internacionais exigem monitoramento médio de até 20 anos para validar a fixação de carbono no solo — um horizonte que ajuda a dimensionar a dificuldade de avançar rapidamente em cadeias complexas como a do agro.
“É por isso que muitas empresas estabelecem a meta para 2050”, disse. “Não é porque querem empurrar o problema para frente, é porque não dá para fazer antes.”
Do leite ao cacau
Entre os insumos presentes na cadeia da empresa, o leite aparece como uma das maiores fontes de emissões no escopo 3 para a Ferrero, especialmente na Europa.
A empresa tem feito programas-piloto com produtores próximos às suas operações para medir pegadas individuais, definir metas e criar mecanismos de incentivo, disse Abreu
“Estamos em busca de achar as melhores soluções para trabalhar com os fornecedores e reduzir emissões”, disse Abreu. “Então o primeiro passo é ensinar, medir, criar a referência.”
No cacau, a estratégia passa por iniciativas pré-competitivas, como a International Cocoa Initiative (ICI), que estabelece padrões mínimos para a prevenção do trabalho infantil e o fortalecimento de comunidades produtoras.
Além da Ferrero, outras gigantes da cadeia de chocolate, como a Barry Callebaut, Cargill, Hershey, Kellanova, Nestlé, Starbucks, Mondelez e Unilever também participam dessa iniciativa.
“O sucesso da Ferrero não é sucesso se for só da Ferrero”, afirma. “Se o setor não avançar junto, ninguém avança.”
Essa lógica de trabalhar em conjunto se repete no óleo de palma, onde a empresa investe em rastreabilidade e parcerias para reduzir riscos de desmatamento. E reconhece que os resultados variam conforme a região.
No caso da avelã, a companhia criou em 2015 a Ferrero Hazelnut Company (HCo), divisão global dedicada exclusivamente à produção das amêndoas, com fazendas na Turquia, na Itália, nos Estados Unidos e no Chile.
Ciência como bússola
Para tentar destravar o agro, a Ferrero vem reforçando o uso de ciência e dados. Segundo Abreu, a companhia trabalha com fornecedores especializados para mapear a pegada de carbono das principais commodities agrícolas e estabelecer linhas de base mais robustas.
“Quanto mais você aprende, mais percebe que sabe pouco”, afirma. “Mas sem ciência, você só constrói narrativa.”
Esse foco se reflete também na estrutura interna. A área global de sustentabilidade reúne agrônomos, especialistas em direitos humanos, engenheiros e profissionais dedicados à análise de dados e relatórios técnicos.
No dia-a-dia, explica Abreu, a equipe passou a atuar cada vez mais cedo no desenvolvimento de produtos, em diálogo com pesquisa e desenvolvimento (P&D), para avaliar impactos de ingredientes antes que eles cheguem ao mercado.
Agro como teste final
Enquanto fábricas podem ser eletrificadas e embalagens redesenhadas, o campo impõe um ritmo próprio, e, em alguns casos, mais lento para ser descarbonizado, explica Abreu.
“A agricultura não responde no tempo do mercado financeiro”, disse o executivo. “Ela responde no tempo da natureza.”
Esse esforço ocorre em paralelo à expansão dos negócios. No ano fiscal de 2024/2025, o grupo somou € 19,3 bilhões em receitas, avanço de 4,6% em relação ao ano anterior.
Segundo o balanço financeiro do grupo, o resultado foi impulsionado pela inovação de portfólio, entrada em novas categorias e aquisições, como a da WK Kellogg anunciada no ano passado.
A empresa também tem ampliado os investimentos para reforçar a presença e a capacidade industrial em mercados-chave, como os Estados Unidos e a Europa, além de fortalecer sua atuação em regiões como a América Latina.
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