CVC foca em renegociar dívida e descarta novo aporte de capital, diz VP

Após desligar mais de 100 profissionais, a operadora de turismo defende a estrutura de capital, nega haver proposta formal da rival argentina Decolar e diz que o caixa de R$ 400 mi cobre vencimentos até 2028; VP de Finanças Felipe Gomes, afirma à Bloomberg Línea que o grupo prioriza o alongamento da debênture

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Bloomberg Línea — A CVC Corp (CVCB3) deu início a um processo de reestruturação operacional e financeira que inclui cortes de despesas administrativas, como enxugamento da folha de pessoal, à revisão de estratégias de mercado.

Pressionada por um cenário macroeconômico global adverso, a maior operadora de turismo do Brasil implementou uma redução em seu quadro de colaboradores e na linha de custos fixos para mitigar os impactos de um balanço trimestral desafiador.

Em entrevista à Bloomberg Línea, o vice-presidente de Finanças, Jurídico, Estratégia e Relações com Investidores da operadora, Felipe Gomes, afirmou que a prioridade da holding é alongar e baratear a debênture em circulação, e não captar recursos via emissão de ações.

“Não, hoje não consideramos [um novo aporte de capital]. O foco da companhia é na renegociação da dívida atual da debênture”, disse o executivo.

“Apesar de toda a dificuldade do mercado, das questões geopolíticas, do crédito privado estar sofrendo um pouco, nós vemos uma janela para a CVC Corp fazer reestruturação da debênture atual, mais longa e mais barata”, completou.

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Gomes detalhou o cronograma de vencimentos para sustentar a tese de que um follow on (oferta subsequente de ações) não está no radar. “Temos uma parcela de R$ 80 milhões vencendo no final do ano, e temos mais de R$ 400 milhões no caixa. Hoje, então, não enxergamos um follow on dado o valor da ação. Não faria sentido”, argumentou ele.

O executivo acrescentou que o caixa também cobre o montante total do vencimento. “Para a própria debênture como um todo, considerando todos os pagamentos até o final de 2028, são R$ 400 milhões, e temos mais do que isso no caixa, sem contar a geração ao longo dos próximos anos”, disse.

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O VP também rebateu a leitura de que a companhia estaria avaliando o fatiamento de ativos diante de suposto interesse da Decolar, controlada pela sul-africana Prosus.

No início de maio, após coluna de Lauro Jardim no jornal O Globo apontar que a companhia argentina preparava uma OPA (oferta pública de aquisição) por valor superior a R$ 3,30 por ação, a CVC protocolou fato relevante na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) negando ter recebido qualquer comunicação ou proposta formal, comunicado assinado pelo próprio Gomes.

À Bloomberg Línea, o executivo reforçou o teor do documento. “A companhia não tem como comentar algo que não foi formalizado”, afirmou.

“Somos uma empresa de capital aberto, e qualquer empresa que tiver interesse em uma proposta ou de participar do capital da CVC Corp precisa formalizar proposta e levar ao conselho, depois ser direcionado para uma assembleia, onde haveria uma votação. Não existe nada, nem integral nem parcial”, concluiu.

Procurada à época, a Decolar afirmou ao site Panrotas que “não comenta rumores de mercado”, mas acrescentou que o “crescimento inorgânico é um dos eixos de crescimento da companhia, que sempre está atenta a oportunidades nos mercados onde opera”.

Nos bastidores, a leitura é outra. Uma pessoa com conhecimento da operadora, que pediu anonimato por tratar de assuntos não públicos, afirmou à Bloomberg Línea que a narrativa de atribuir o tombo do trimestre ao cenário macroeconômico pavimenta o terreno para um novo aporte de capital no próximo ano.

A fonte reconhece que a holding tem caixa para honrar a primeira tranche da debênture, de R$ 80 milhões, com vencimento em novembro, mas avalia que o quadro operacional exigirá reforço de capital no horizonte.

Os cortes e o pano de fundo do balanço

O posicionamento do executivo da CVC vem em meio à reestruturação anunciada pela companhia. O desligamento de mais de 100 profissionais, em um quadro total de cerca de 2.000 colaboradores, atingiu posições de comando em divisões consolidadas e em áreas internas de marketing e tecnologia.

O processo foi concluído antes do fim de semana, segundo disse o CEO Fabio Mader ao site Panrotas. A empresa confirmou à Bloomberg Línea a conclusão do enxugamento e disse que o número de cortes não chegou a 130 postos.

Em paralelo, a holding recalibrou o planejamento estratégico que previa o desembarque da grife argentina de luxo Biblos no Brasil. O segmento premium foi absorvido como uma célula interna da Visual Turismo.

O redirecionamento estratégico foca na consolidação dos ativos existentes, buscando preservar a sustentabilidade do negócio e alinhar-se à perspectiva de estabilidade financeira de longo prazo referendada pela agência Fitch Ratings.

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O pano de fundo está nos números do primeiro trimestre de 2026, que vieram aquém do consenso. A receita líquida consolidada cresceu apenas 1% na base anual, para R$ 365 milhões, pressionada por queda de 17% nas receitas da subsidiária argentina e pela compressão da taxa de comissão (take rate) nas operações brasileiras e internacionais.

As despesas gerais, administrativas e de vendas (SG&A) avançaram 10% no período, apontou o relatório do BTG Pactual. A escalada nos preços do combustível de aviação e a instabilidade geopolítica no Oriente Médio paralisaram conexões internacionais, com cancelamentos de reservas que somaram R$ 109 milhões entre Brasil e Argentina.

Com maiores custos de antecipação de recebíveis, carga tributária mais alta sobre transações bancárias e perdas cambiais, a CVC reportou prejuízo líquido contábil de R$ 72 milhões no trimestre, e a dívida líquida subiu para R$ 1,5 bilhão, o equivalente a 3,4 vezes o Ebitda, segundo apontou o Citi em relatório.

A ação acumulava queda de 16% em 2026 e de 20% em 12 meses, até o pregão da quarta-feira (20).

Ações da CVC (CVCB3)

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Contraste com a concorrência

Balanços recém-divulgados mostram que outros players do setor (aviação, hotelaria e distribuição online) cresceram em ritmo superior ao do mesmo trimestre de 2025.

A Latam Airlines registrou alta de 21,7% em vendas e de 36,7% no Ebitda no primeiro trimestre, com margem operacional recorde. A Azul, em seu primeiro trimestre completo após sair do Chapter 11, entregou Ebitda recorde de R$ 1,69 bilhão, alta de 22,6%.

Na hotelaria, o Hilton avançou 9% em receita e Marriott, 6,2%, ambas com elevação do guidance para o ano. Na distribuição online, Booking subiu 16% em receita, Expedia 15% e Airbnb 18%. A companhia americana, inclusive, citou o Brasil entre seus principais mercados de expansão no trimestre, ao lado de Japão e Índia.

Na trajetória recente da CVC, a expansão de vendas da CVC chegou a 29,8% no ano passado, ainda sob a gestão de Fabio Godinho. Neste primeiro trimestre, o avanço desacelerou para 3,8%, uma queda de 26 pontos percentuais no ritmo de crescimento e veio acompanhado de retração de 10,5% no Ebitda em base anual. As despesas de marketing, por sua vez, saltaram 48,3% no período, para R$ 45,1 milhões.

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