Como a gigante Anglo American se tornou alvo de oferta hostil da BHP

Há dois anos, a mineradora centenária estava em um dos melhores momentos de sua história, com recorde nos preços de ações, mas desde então seu valor caiu à metade

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Bloomberg — Quando o antigo chefe Mark Cutifani deixou a Anglo American em meados de abril de 2022, a mineradora centenária estava em um dos melhores momentos da história.

Os preços dos metais dispararam à medida que o mundo saía dos lockdowns, a empresa havia recentemente registrado o maior lucro anual e o popular veterano da indústria estava passando o bastão para um executivo de confiança. As ações da Anglo bateram um recorde no mesmo dia.

Dois anos depois, a reputação da empresa virou. Uma série de erros reduziram seu valor pela metade. E agora, um peso pesado do setor, a BHP, busca avançar com uma proposta para dividir a Anglo e selecionar os melhores ativos, marcando um momento humilhante para a mineradora fundada pela lendária dinastia Oppenheimer e proprietária da icônica empresa de diamantes De Beers.

A Anglo rejeitou a proposta inicial de aquisição de US$ 39 bilhões da BHP, afirmando que ela não valoriza corretamente a empresa.

A rejeição da Anglo era amplamente esperada.

Analistas e alguns investidores da Anglo viam a proposta da BHP como significativamente abaixo do preço necessário para trazer a mineradora de 107 anos para a mesa de negociações. Agora, a BHP terá que melhorar sua oferta se quiser iniciar conversas.

Embora os analistas esperem amplamente que a BHP precisará melhorar a oferta, a proposta levanta questões existenciais sobre o futuro da empresa e se ela pode continuar na forma atual.

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As ações da BHP fecharam com queda de 2,2% em Londres na quinta-feira (25) após o anúncio da proposta, enquanto as ações da Anglo saltaram 16%, deixando a capitalização de mercado em torno do valor da oferta da BHP.

As ações da BHP, com dupla listagem, caíram até 4,7% em Sydney nesta sexta-feira (26), a maior queda desde setembro.

Para a BHP, a crise na Anglo veio na hora certa. A empresa menor, que possui algumas das minas de cobre mais desejadas do mundo, tornou-se repentinamente vulnerável justo quando a líder do setor finalmente estava pronta para mostrar seu poder de negociação, após anos de contenção.

E não é a única — outras grandes mineradoras também têm mudado o foco de volta para o crescimento por meio de aquisições.

A Anglo tem um desempenho inferior em um momento em que o dinheiro está fluindo para o setor de metais e commodities, e rumores circulavam há meses de que a mineradora em dificuldades estava à venda.

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Portanto, quando o presidente da BHP, Ken MacKenzie, pegou o telefone para ligar para o chefe da Anglo no início deste mês para fazer uma proposta, era uma chamada que a Anglo esperava há meses de alguma forma, segundo pessoas próximas à empresa ouvidas pela Bloomberg News.

“A Anglo era a ação mais querida alguns anos atrás”, disse Ben Davis, analista da Liberum Capital. “Repetidas decepções nas previsões e desempenho relativo inferior em sua cesta de commodities a tornaram vulnerável a abordagens.”

Em muitos aspectos, as sementes dos problemas da Anglo foram plantadas bem antes da saída triunfante de Cutifani.

Apenas alguns dias após sua saída, a empresa anunciou um grande revés nas minas, com queda na produção e aumento nos custos. E o que inicialmente parecia um incidente isolado para um produtor geralmente confiável se transformou em uma espiral descendente.

Os problemas se multiplicaram em todo o portfólio, enquanto a Anglo revelou um estouro de custos no projeto de fertilizantes emblemático que a empresa havia adquirido alguns anos antes.

Os desastres continuaram a se acumular. Muitos dos problemas estavam fora do controle da Anglo — o mercado de diamantes implodiu, os preços da platina colapsaram e problemas com transporte ferroviário e portuário na África do Sul afetaram as exportações do lucrativo negócio de minério de ferro da empresa.

A Anglo é a única grande mineradora com grandes negócios em platina e diamantes e está particularmente exposta à África do Sul, o que significa que ela ficou atrás de rivais que não enfrentavam os mesmos obstáculos.

À medida que as pressões aumentavam, o balanço da Anglo já estava tensionado pelo plano ambicioso de construir uma mina de fertilizantes no norte da Inglaterra.

Impopular entre alguns investidores, o projeto, defendido há muito tempo pelo novo CEO Duncan Wanblad, continuava ficando mais caro e a conclusão cada vez mais distante.

O verdadeiro golpe veio em dezembro, durante uma atualização rotineira dos negócios da Anglo. Os investidores esperavam cortes na África do Sul, o que foi decepcionante, mas não surpreendente.

No entanto, o mercado reagiu com choque a uma notícia muito maior: as minas de cobre da América do Sul da Anglo — consideradas as joias da coroa da empresa — precisariam reduzir a produção em cerca de 20% para diminuir custos. As ações despencaram, caindo 19% em um único dia.

A empresa buscou virar a página, dizendo aos investidores que está revisando todos os seus negócios. A Anglo está aberta a vender a unidade de mineração De Beers e buscando um parceiro para o grande projeto de fertilizantes inglês.

Mas a fraqueza deixou a empresa vulnerável. A BHP fez uma proposta não vinculativa para comprar a Anglo em um acordo totalmente em ações que avaliou a empresa menor em cerca de US$ 39 bilhões com base nos preços de terça-feira, segundo um comunicado da BHP na manhã de quinta.

O mais importante é que a BHP quer que a Anglo primeiro separe os negócios de platina e minério de ferro da África do Sul, criando empresas independentes para os acionistas existentes, antes que a aquisição possa acontecer.

A medida é uma maneira complexa para a BHP obter acesso às cobiçadas minas de cobre da Anglo, e a evidência mais clara de que os maiores produtores estão prontos para voltar a fazer negócios.

As empresas passaram grande parte da última década sob um tipo de proibição autoimposta, após uma série de acordos desastrosos que levaram a bilhões em depreciações e custaram a uma série de CEOs seus empregos.

Agora, com dinheiro em caixa e tendo reconstruído a confiança dos investidores, a indústria está voltando ao crescimento — e indo em busca do cobre. O acordo proposto pela BHP criaria de longe o maior produtor de cobre do mundo, justamente quando se prevê um aumento da demanda devido à transição energética.

O CEO da BHP, Mike Henry, que transformou a empresa ao sair do setor de petróleo e gás, recebeu um mandato do conselho para buscar acordos transformacionais e já estava analisando rivais como a Freeport-McMoRan e a Glencore no início de 2022, segundo informou a Bloomberg na época.

Uma das chaves para a BHP concretizar um acordo para a Anglo pode estar na África do Sul. O gestor do fundo de pensão do governo do país é o maior acionista da Anglo, e as empresas de platina e minério de ferro do grupo são duas das maiores empresas listadas na África do Sul. (A Anglo é a proprietária majoritária de ambas, mas elas têm pequenos free floats na Bolsa de Valores de Joanesburgo.)

Em um comunicado publicado na quinta, a Corporação de Investimentos Públicos reiterou que o setor de mineração é de importância crítica para o país e que qualquer oportunidade que surgir deve levar esse fator em consideração.

A Anglo tem laços de longa data com o país: fundada em 1917 pelo empresário Ernest Oppenheimer, a Anglo American foi construída sobre as gigantescas minas de ouro da África do Sul.

A empresa entrou no setor de diamantes ao adquirir o controle da De Beers após Oppenheimer entrar para o conselho em 1926 — agora possui 85% da empresa após vender e depois recomprar — e depois adicionou platina e carvão, tornando-se rica e poderosa ao longo do século 20.

À medida que as sanções do Apartheid foram sendo impostas, a empresa investiu mais na África do Sul, tornando-se um conglomerado diversificado.

Em seguida, com a abertura dos mercados internacionais, expandiu-se rapidamente para outros países, construindo e comprando minas de carvão na Austrália, minério de ferro no Brasil e cobre no Chile e no Peru.

Certamente, essa não é a primeira crise da Anglo American.

Em 2015, a empresa quase colapsou devido a enormes dívidas e à queda dos preços dos metais. Cutifani inicialmente anunciou planos para vender metade das minas, mas recuou à medida que os preços das commodities se recuperaram.

As dificuldades na época levaram o bilionário indiano Anil Agarwal a adquirir uma participação de 20% na empresa, gerando dois anos de profunda especulação sobre seus planos para o negócio. O magnata acabou desistindo, desfazendo sua posição.

Enquanto a Anglo sobreviveu ao interesse de Agarwal, a atenção da maior empresa de mineração do mundo pode ser mais difícil de superar.

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