Cenário de juros elevados e inadimplência recorde ameaçam reduzir lucro dos bancos

Guerra no Irã e a alta dos preços do petróleo apontam para uma redução no ritmo de cortes de juros, o que amplia dificuldade no pagamento de dívidas por tomadores de crédito e pode afetar resultados instituições financeiras ao longo do ano

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Bloomberg — Dúvidas sobre o ritmo dos cortes de juros no Brasil estão despertando temores de que a inadimplência, que já está em níveis recordes, continue subindo e reduza os lucros de bancos e fintechs.

“Estamos caminhando muito próximos ao penhasco”, disse o responsável pela área de análise de ações do UBS BB, Thiago Batista, em entrevista à Bloomberg News.

“Os resultados dos bancos no quarto trimestre de 2025 mostraram tendências menos benignas do que imaginávamos, e não podemos dizer que esse começo de ano vai ser tranquilo.”

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O Banco Central cortou a taxa Selic no mês passado do maior patamar em duas décadas para 14,75% ao ano. Mas a guerra no Irã e a alta dos preços do petróleo como consequência do conflito significam que cortes adicionais provavelmente serão mais lentos, deixando os tomadores de crédito com dívidas que muitos deles já não estão conseguindo pagar.

“Quanto mais tempo a Selic demora para cair, maior a pressão sobre as empresas que estão alavancadas”, disse Batista, que adicionou que uma economia em ritmo mais lento também pode pesar sobre o crédito para pessoas físicas.

Eduardo Nishio, sócio e responsável pela área de análise de ações da Genial Investimentos, disse esperar que os índices de inadimplência das carteiras dos bancos subam neste ano, o que geralmente faz com que as instituições reduzam o ritmo de crescimento do crédito.

O BC prevê que o crédito desacelere a alta para 9% neste ano, menos que os 10,3% do ano passado.

Cerca de metade da população adulta do país, ou 81,7 milhões de pessoas, estava com dívidas em atraso em fevereiro, de acordo com dados da Serasa Experian.

E um fator sazonal pode ampliar os índices, disse Batista. Enquanto novembro e dezembro geralmente são meses de alívio com o pagamento do 13º salário, no começo do ano os brasileiros têm de arcar com uma série de impostos, ao mesmo tempo em que muitos compram o material escolar dos filhos.

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As famílias brasileiras gastam o recorde de 29,33% de sua renda com o pagamento de dívidas com o sistema financeiro nacional, de acordo com dados do BC relativos a janeiro. Isso apesar dos programas de renegociação feitos pelo governo federal entre 2023 e 2024.

Atrasos no crédito para empresas também acendem o sinal amarelo.

O Brasil encerrou 2025 com um recorde de 8,9 milhões de empresas com pelo menos uma dívida em atraso, de acordo com a Serasa.

Gigantes como a produtora de açúcar e etanol Raízen, a petroquímica Braskem e o GPA, uma das maiores redes de supermercados do país, disseram que pretendem reestruturar dívidas. Juntas, as três empresas têm cerca de US$ 15,5 bilhões em endividamento.

A situação é tão séria que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu ao Ministério da Fazenda para avaliar com cautela o crédito no país, realizar um diagnóstico e possivelmente apresentar opções para discussão, disse o secretário-executivo do Ministério, Rogerio Ceron, em uma entrevista para a GloboNews na semana passada.

A boa notícia para os bancos e fintechs é de que cerca de metade dos R$ 5 trilhões em dívidas de empresas no Brasil estão com fundos de investimento que compram títulos no mercado de capitais, de acordo com o BC, o que significa que estes investidores dividirão a dor em casos de inadimplência.

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É o caso da Raízen, que está em um processo de recuperação extrajudicial em que investidores locais e globais representam cerca de metade do endividamento.

“O aumento nos índices de inadimplência no Brasil para o nível mais alto em mais de uma década não parece representar uma ameaça à estabilidade financeira, mas é sintomática dos juros muito altos e da desaceleração da economia do país no último ano”, disse Liam Peach, economista sênior para mercados emergentes da Capital Economics, em um relatório.

“Qualquer relaxamento das condições de crédito é improvável por algum tempo, pelo menos até que o ciclo de cortes de juros pelo Banco Central amadureça.”

O Nubank deve sofrer o maior impacto dos atrasos pelas pessoas físicas, porque é o mais exposto aos clientes de menor renda em linhas de crédito mais arriscadas, disse Batista, do UBS BB.

Nishio, da Genial, disse que a fintech deve mitigar o impacto crescendo “bastante” em regiões como México e Colômbia. “Eles também geralmente fazem uma boa gestão de crédito”, disse ele.

No último ciclo de inadimplência no Brasil, o Bradesco e o Santander Brasil foram atingidos de forma mais forte, mas Batista disse que os dois bancos “reduziram muito a exposição a clientes mais arriscados”, priorizando pessoas físicas de alta renda e emprestando a tomadores com garantias mais sólidas.

O Itaú Unibanco, por outro lado, provavelmente será uma aposta mais segura para navegar uma onda de atrasos, dado que adotou um viés mais conservador e saiu relativamente ileso dos últimos ciclos, Batista e Nishio disseram.

Ainda assim, Batista acaba de elevar a recomendação do Nubank, e disse que seus favoritos no momento são o Bradesco e o Santander devido aos múltiplos descontados, o que significa que representam uma melhor oportunidade de compra para o investidor.

O BTG Pactual divulga menos informações sobre sua carteira de crédito, mas costuma ter empréstimos de boa qualidade para empresas, de acordo com Batista.

O banco absorveu o Banco Pan, que empresta para pessoas físicas de menor renda, e não está claro qual impacto esse movimento terá sobre a carteira de crédito do BTG, de acordo com o analista.

Os investimentos de sócios do BTG em muitas empresas brasileiras também dão ao banco mais informação sobre o nível necessário de provisão. Porém, assim como no caso do Itaú, as ações do BTG estão mais caras que as do Bradesco e do Santander, de acordo com Batista.

BTG, Itaú, Bradesco e Santander não comentaram.

O Nubank disse ter um modelo de crédito robusto que permite manter índices de inadimplência controlados e fazer ajustes rápidos às mudanças macroeconômicas, e que foca em uma jornada financeira saudável para os clientes. O Banco do Brasil não retornou a um pedido de comentário.

A situação é mais difícil para o Banco do Brasil devido à maior exposição ao agronegócio, que tem mostrado maior inadimplência nos últimos dois anos e que agora enfrenta preços mais altos de fertilizantes devido à guerra no Irã, de acordo com Enrico Cozzolino, CEO da Zermatt Partners.

O BB deve mostrar pior desempenho que outros bancos neste ano também devido ao risco político, segundo ele.

A eleição presidencial acontece em outubro, e como é controlado pelo governo, o BB sofre maior risco de interferência, disse ele.

De modo geral, os bancos do Brasil têm um colchão de provisões que provavelmente cobre pelo menos parte das perdas com potenciais atrasos de pagamento de dívidas.

“A gente olha para trás e tem esse histórico que é favorável, essa resiliência dos bancos mesmo em períodos de crise,” disse Cozzolino. Porém, a guerra no Irã adiciona uma “incerteza que é bastante ruim”, disse ele. “Por mais que não suba os juros, colocou um grande ponto de interrogação na força do corte,” disse ele.

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