Bloqueio a sites de mercados preditivos coloca em xeque planos da Kalshi para o Brasil

Proibição no Brasil demonstra como reguladores em todo o mundo encaram os mercados de previsão com ceticismo, mesmo enquanto os fundadores das empresas insistem que seus produtos não são o mesmo que jogos de azar

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Bloomberg — A decisão do governo brasileiro de bloquear o acesso às principais plataformas de mercados de previsão por preocupações com jogos de azar ilegais afeta particularmente uma das bilionárias mais jovens do mundo, a brasileira Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi.

“O Brasil é muito importante para mim, visto que sou brasileira”, disse Lopes Lara, de 29 anos, em entrevista ao Valor Econômico no final do ano passado. “Eu realmente quero que a gente vá para lá.”

O Brasil, no entanto, anunciou na semana passada o bloqueio da Kalshi, da Polymarket e de outros 25 sites em razão do que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou de “apostas ilegais”.

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As restrições significam que a maior economia da América Latina permanecerá, em grande medida, fora do alcance de sites de mercado de previsão, que permitem aos usuários apostar em todos os tipos de resultados na política global e nos esportes, complicando os planos de expansão do setor após o desenvolvimento dos negócios nos EUA.

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A proibição também demonstra como reguladores em todo o mundo encaram os mercados de previsão com ceticismo, mesmo enquanto os fundadores das empresas insistem que seus produtos não são o mesmo que jogos de azar.

Um possível ponto positivo é a parceria entre a Kalshi e a corretora XP, que permite que alguns usuários brasileiros apostem sobre determinados temas.

No momento, o acesso aos sites da Kalshi e da Polymarket está proibido no Brasil, e os usuários veem mensagens de erro. Os órgãos reguladores podem sempre alterar ou atualizar suas políticas ao longo do tempo, e o Brasil terá eleições gerais ainda este ano.

A Kalshi não respondeu imediatamente a um pedido de comentário. A empresa afirmou na semana passada que estava analisando a decisão do Brasil.

Do MIT

Lopes Lara treinava como bailarina clássica no Brasil antes de frequentar o Massachusetts Institute of Technology (MIT). No ano passado, ela se tornou uma das mais jovens mulheres bilionárias self-made, com um patrimônio líquido atual de cerca de US$ 2,1 bilhões, segundo o Índice de Bilionários da Bloomberg.

Embora brasileiros não possam apostar na Kalshi sobre assuntos como quem será o artista mais ouvido do Spotify neste mês ou quem ganhará a próxima eleição presidencial do Brasil, a restrição não proíbe apostas em indicadores econômico e financeiros, conforme permitido pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), reguladora do mercado de capitais no país. O alcance dessa exceção, porém, não foi totalmente definido.

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A parceria da Kalshi com a XP permite que alguns usuários façam apostas de “sim” ou “não” em eventos econômicos relacionados ao Brasil. Essas apostas são processadas pela interface da XP e pela corretora da empresa sediada nos Estados Unidos, ao invés de pelo site da Kalshi, agora proibido.

A XP se recusou a comentar. É possível que a parceria ainda avance, considerando as exceções anunciadas pelo governo brasileiro.

Lopes Lara afirmou em sua entrevista no ano passado que a Kalshi está comprometida a operar no Brasil.

“Vamos tentar encontrar uma forma de levar nosso produto ao Brasil”, disse ela em entrevista ao Valor.

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