Beauty tech vira ‘isca’ de farmácias para atrair a alta renda e elevar as vendas

Câmeras faciais e máscaras de LED se tornam alavanca de margem de lucro de farmácias na crescente onda dos beauty centers; Nissei, RD Saúde e Discover testam formatos e preços diferentes de olho em consumidores de alto poder aquisitivo em SP

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Bloomberg Línea — Pontos tradicionais de venda de remédios, produtos de higiene e cosméticos, as farmácias no Brasil têm passado por uma transformação. Muitos estabelecimentos agora apostam também na oferta de serviços e produtos de tecnologia de beleza, antes disponíveis apenas em centros especializados, para ir além dos produtos tradicionais.

Redes que cresceram vendendo medicamentos genéricos agora instalam câmeras que fotografam o rosto do cliente, estimam a idade da pele e apontam manchas e oleosidade, e fazem a recomendação de produtos para o tratamento na hora. Ao lado, máscaras de LED prometem em casa o que antes só se fazia em consultório dermatológico.

É o beauty tech, categoria que saiu das clínicas para o balcão em boa parte do varejo farmacêutico mundial, do Reino Unido, com a Boots, aos Estados Unidos, com a CVS. O motivo é o mesmo em qualquer país: a margem do remédio encolheu e muitas redes buscam expandir suas fontes de receitas.

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Essa tendência avança nas regiões de alta renda da capital paulista. Na Nissei, oitava maior rede do Brasil em faturamento, o scanner facial é oferecido como uma espécie de mimo para atrair vendas: quem gasta a partir de R$ 150 na loja dos Jardins leva a avaliação de pele ou de cabelo, e acima de R$ 200, as duas. O diagnóstico virou moeda de troca por tíquete mais alto.

No Shopping Eldorado e MorumbiShopping, quiosques da marca de skincare Braello oferecem a mesma leitura de graça durante a semana e cobra uma máscara facial de cerca de R$ 20 aos fins de semana, para conter fila.

O scanner facial usado pela Braello é da marca chinesa AISIA, um sinal de oportunidades de negócios para fornecedores e importadores de tecnologia asiática no mercado de beleza premium no Brasil.

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Na Raia Conceito, loja que a RD Saúde (RADL3), maior rede do país, abriu neste mês no Itaim Bibi, também há scanner de pele disponível, que usa a tecnologia Visia, sistema de imagem facial da fabricante americana Canfield Scientific.

A Discover, bandeira de dermocosméticos do Grupo DI, dono também das Drogarias Iguatemi, foi por outro caminho na mesma categoria: vende no Itaim uma máscara de LED da brasileira Lalume Beauty a R$ 2.889, faixa de preço de eletrônico portátil em uma prateleira que antes terminava no protetor solar.

Símbolo do beauty tech, a máscara se populariza entre os brasileiros e aparece até na principal novela da TV Globo, usada durante o sono pela vilã Pilar, interpretada pela atriz Isabel Teixeira, em Quem Ama Cuida.

A variação de preço não é aleatória, é a assinatura de cada modelo de negócio. Beleza premium roda entre cinco e 10 pontos de margem bruta acima da média de uma farmácia, que na RD está na casa de 27%.

Quanto menor a loja e mais alto o fluxo de rua, mais o scanner precisa se pagar sozinho, e é por isso que ele vira condição de compra em vez de serviço gratuito.

O que passa despercebido do consumidor é o que acontece antes da foto. O scanner pede nome, idade e telefone. Depois mede a pele e classifica o tipo em uma sigla técnica. O relatório chega por link, o que mantém o vínculo com a marca depois que o cliente sai da loja.

Cada leitura associa uma imagem facial a um contato direto, o que classifica o dado como sensível pela LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) e exige consentimento específico sobre finalidade, retenção e compartilhamento, exigência raramente explicitada na abordagem do balcão.

Plano de multiplicar beauty center

Na Avenida Paulista, esse modelo de beauty center ganhou um capítulo concreto no fim de agosto, quando a Nissei inaugurou um andar de beleza dentro do Conjunto Nacional, um dos primeiros shoppings centers do país. O equipamento é da marca chinesa AISPA, comprado de um fornecedor sediado em São Paulo que atende sobretudo clínicas dermatológicas.

“O scanner faz parte da experiência. A pessoa vai lá e precisa ter uma motivação não transacional”, disse Alexandre Maeoka, CEO da Nissei, em entrevista à Bloomberg Línea. Segundo ele, o sistema cruza o resultado do exame com o sortimento disponível para indicar produtos ao cliente.

O andar ocupa um mezanino que servia de escritório à farmácia anterior no ponto, comprada pela rede paranaense em 2024, decisão que dispensou aluguel novo.

“A ideia era tirar o conceito só da farmácia, da compra transacional, e pensar em como oferecer serviços e experiência”, afirmou o executivo.

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O espaço reúne maquiagem, categoria ausente das demais lojas da rede, cabelos profissionais, perfumaria e uma área de skincare coreano e japonês em que o sortimento por marca sobe de cinco para até 15 itens, com destaque para marcas brasileiras nativas do digital como Bruna Tavares, Mari Maria Makeup e Care Natural Beauty.

Os equipamentos foram comprados, e não alugados, e a companhia planeja rodá-los entre unidades antes de decidir, até dezembro, se replica o formato em Curitiba, Londrina e Goiânia.

A concorrência mira o mesmo endereço. A RD Saúde estuda para o Conjunto Nacional a segunda unidade de sua Raia Conceito, formato que estreou neste mês em 364 m² no Itaim Bibi, com 50 marcas de beleza, 33 delas premium, entre elas Lancôme, Carolina Herrera e Kérastase, além da estreia da japonesa Curél e da coreana Ryo. A projeção é de tíquete médio de duas a três vezes a média da rede.

Marcello De Zagottis, vice-presidente de Operações e Comercial da RD Saúde, atribui a aposta no scanner ao reforço do atendimento.

“A loja oferece novos serviços, como o diagnóstico de pele, sempre alavancando a presença. Temos um grupo bem mais forte e mais amplo de consultoras de beleza nessa farmácia”, disse o executivo à Bloomberg Línea.

As consultoras são quem opera o equipamento e traduz o resultado do exame em recomendação de compra.

Por trás da disputa por metro quadrado de beleza está uma mudança de consumo que também tem escala internacional. Os análogos de GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) popularizaram o emagrecimento rápido, e o efeito colateral estético, perda de firmeza da pele, criou demanda por tratamento que a indústria farmacêutica não vende.

No Brasil, a chegada de similares e genéricos aprovados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) derrubou o custo de tratamentos de cerca de R$ 1.000 para a faixa de R$ 300 a R$ 400 por mês, segundo Maeoka, que estima em 5% a fatia da população ainda com acesso à terapia e projeta que o mercado formal pode mais do que dobrar.

É esse consumidor, com a pele reagindo à mudança rápida de peso, que a farmácia quer capturar primeiro com uma câmera, depois com uma prateleira.

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