Bloomberg Línea — Após anos associado à aquisição de máquinas pesadas e frotas de caminhões pela indústria, o leasing no Brasil passou a ter aeronaves como sua maior categoria.
Aviões passaram a ser cerca de 39% do mercado do instrumento em que o banco adquire o bem, e o cliente paga pelo uso, com opção de compra ao fim do contrato. O leasing de máquinas e equipamentos passou a formar 38% do mercado.
Os dados foram fornecidos pelo Bradesco (BBDC4) à Bloomberg Línea, com base em estatísticas da ABEL (Associação Brasileira das Empresas de Leasing).
O Bradesco afirma ser o maior arrendador do país, com R$ 7,9 bilhões em carteira, posição que diz ocupar há mais de uma década. No segmento de aeronaves, declara deter cerca de 60% do mercado, com aproximadamente R$ 4 bilhões em operações.
“O crescimento da aviação executiva reforça a tendência de a aeronave deixar de ser apenas um bem e passou a fazer parte da estratégia patrimonial dos clientes”, disse Leandro Karan, diretor do Bradesco Global Private Bank, à Bloomberg Línea.
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Na prática, a estratégia patrimonial citada pelo executivo envolve definir em nome de quem a aeronave é registrada, com quais recursos é adquirida e como será transferida aos herdeiros. Nesse modelo, o avião passa a ser tratado como um ativo, a exemplo de participações societárias ou imóveis, e não como despesa corrente.
“Nossa atuação está focada em estruturar essa aquisição de forma inteligente, combinando crédito, investimentos e planejamento sucessório para gerar valor no longo prazo”, afirmou Karan.
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O comprador pode arrendar a aeronave, tomar crédito em dólar ou entrar em um consórcio. Segundo o Bradesco, a escolha depende das empresas que a família controla, dos bens que podem servir de garantia e da frequência com que ela troca de avião. Em nenhum dos caminhos é preciso resgatar aplicações para fechar a compra.
Entre essas modalidades, a que mais depende da estrutura internacional do banco é o crédito em dólar, oferecido pela linha Aircraft Financing e emitido pelo Bradesco Bank, unidade da instituição em Miami, para compra e refinanciamento de aeronaves executivas de clientes de alta renda. Como a receita da maior parte desse público é gerada em real, tomar dívida em moeda estrangeira significa assumir risco cambial ao longo de todo o contrato.
“Conseguimos oferecer soluções desenvolvidas para atender às necessidades específicas desse público, aliando expertise financeira, alcance internacional e atendimento especializado”, afirmou Karan.
Ao combinar crédito especializado e gestão patrimonial, segundo o Bradesco, o banco constrói uma relação de longo prazo com a família, na qual o financiamento da aeronave funciona como uma porta de entrada para administrar o patrimônio inteiro.
Feiras e eventos
Esse cliente não aparece na agência. O Bradesco vai buscá-lo nas feiras do setor, e patrocina os três principais encontros do país, cada um com um público próprio.
A Labace reúne o trade de fabricantes, operadores e financiadores. Já O Catarina Aviation Show, no aeroporto privado de São Roque, concentra o dono de jato executivo.
Há ainda o Bonanza Fly-In, em São Joaquim da Barra, no interior paulista, que junta proprietários de aeronaves de aviação geral e investidores do agronegócio.
A maior delas abre nesta terça-feira (4). A Labace (Latin American Business Aviation Conference & Exhibition), maior feira de aviação executiva da América Latina, vai até quinta (6) no Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo.
A concorrência estará no mesmo pátio: o Bradesco participa ao lado de J.P. Morgan, Santander (SANB11) e Daycoval, enquanto o BTG Pactual (BPAC11) chega com a Sertrading, trading de comércio exterior que comprou em 2024.
Daycoval e Santander são o segundo e o terceiro maiores arrendadores do país, com R$ 3,86 bilhões e R$ 3,57 bilhões em carteira, segundo a tabela de abril da ABEL, a mais recente publicada. Os três primeiros colocados do leasing brasileiro estarão juntos no Campo de Marte.
Os valores medem o saldo total de cada empresa, sem separação por tipo de bem, e incluem desde aeronave até máquinas, frota de veículos, soluções de tecnologia, entre outras categorias.
Além dos três primeiros, aparecem HP Financial Services, com R$ 1,69 bilhão, BB Leasing, com R$ 926,8 milhões, Banco de Lage Landen Brasil, mais conhecida no mercado como DLL Brasil, focada em financiamento de máquinas e equipamentos nos setores de agronegócio, construção, saúde e tecnologia, com R$ 870 milhões.
O ranking do leasing aponta ainda o Banco IBM, com R$ 744,8 milhões, BOC (Bank of China), com R$ 243,4 milhões, e Banco Toyota, com R$ 48,2 mil. As nove associadas da ABEL somam R$ 19,82 bilhões e 19.818 contratos.
Financiamento de importação
A aeronave é paga fora do país antes de existir juridicamente no Brasil, e alguém precisa financiar o intervalo até a nacionalização do produto.
É aí que entram as tradings de comércio exterior, especializadas nos trâmites financeiros, tributários e burocráticos, da compra no exterior à entrega ao cliente.
Sete grandes tradings dividem o pátio da Labace com bancos: as paulistas Comexport e Timbro, e a maioria capixaba formada por Sertrading, WM Trading, Superia, Savixx e Vila Porto. Essa forte presença reflete os incentivos tributários do Espírito Santo, principal hub de nacionalização da aviação.
“As tradings fazem um papel importante de banking”, disse Flávio Pires, CEO da ABAG (Associação Brasileira de Aviação Geral), que organiza a feira, à Bloomberg Línea.
Bancos e tradings são os segmentos que mais cresceram em expositores e patrocinadores da Labace nos últimos anos, com a entrada de participantes que nunca haviam olhado para a aviação executiva, segundo a ABAG.
“Onde está ficando o pote de ouro é nas tradings e nos bancos”, afirmou Pires.
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A feira movimentou US$ 150 milhões em negócios no ano passado, número que a ABAG apura em pesquisa espontânea junto aos expositores e que inclui vendas de aeronaves, peças e equipamentos. Pires disse que a estimativa de topo para 2026 é de US$ 200 milhões.
O potencial comprador pode aproveitar eventos como a Labace e o Catarina Aviation Show apenas para conhecer as aeronaves ou iniciar o processo de aquisição.
“A feira não é supermercado de aeronave”, afirmou o CEO.
As conversas começam antes da feira e se fecham meses depois, quando o avião já foi pago no exterior, já atravessou a alfândega e já virou linha em uma carteira de crédito.
Na edição da feira no Catarina, o Bradesco registrou 106 interações com clientes e 32 propostas apresentadas, com volume potencial de cerca de R$ 2,1 bilhões. São propostas em análise, não contratos fechados, ressalvou o banco.
Interesse da indústria e reforma tributária
As fabricantes de aeronaves aproveitam o circuito de eventos da aviação no Brasil para apresentar suas novidades e fechar negócios. Mas a infraestrutura dos aeródromos pode limitar essa estratégia.
Em maio, no Catarina, a Bombardier levou a São Roque o Global 8000, apresentado como a aeronave civil mais rápida em operação. Mas esse jato não será apresentado na Labace.
O Campo de Marte ainda não tem procedimentos por instrumentos, cuja implantação está prevista para setembro depois de adiamentos sucessivos.
“As seguradoras não permitem que um jato desse porte pouse no aeroporto sem instrumentos visuais”, disse Pires.
Na Labace, a fabricante vai expor o Challenger 3500, super midsize mais entregue no mundo em 2025, segundo ela.
Do lado de quem compra há pressa, e ela é tributária. Desde a emenda constitucional de 2023 os estados podem cobrar imposto anual sobre a propriedade de aeronaves.
Em 2027 entra em vigor um tributo federal sobre bens considerados nocivos à saúde ou ao meio ambiente, que alcança aeronaves.
“Há muita gente que ou está tentando antecipar negócios ou já comprou as aeronaves e está tentando fazer uma antecipação da entrada delas aqui no país”, disse Pires, que aponta ainda o calendário eleitoral como acelerador de decisões de aquisição de aeronaves.
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