Bloomberg Línea — O acordo de livre comércio entre a União Europeia e o Mercosul entra agora numa fase decisiva, não só pelas suas implicações tarifárias, mas também pela infraestrutura financeira que deverá sustentá-lo na prática.
Após mais de duas décadas de negociações, o tratado foi finalmente assinado em janeiro de 2026 e, segundo fontes europeias, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai e o Brasil poderão aumentar suas cotas de exportação já existentes com tarifa zero em questão de meses, abrindo caminho para a criação de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo.
No entanto, sua implementação não será imediata nem linear. O bloco europeu prevê aplicar provisoriamente a parte comercial do acordo enquanto continuam os processos de ratificação política e legislativa nos diferentes países membros.
A aplicação provisória seria implementada apesar da resistência interna significativa, especialmente no setor agrícola europeu, enquanto Bruxelas avança em mecanismos de salvaguarda para proteger os produtores da região, refletindo a sensibilidade política que envolve o acordo.
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Tensão política
A oposição dos agricultores em vários países, incluindo Espanha, França e Polônia, tornou-se um dos principais focos de controvérsia. Os protestos refletem os receios em relação à concorrência dos produtos agrícolas sul-americanos, com padrões regulatórios diferentes e custos de produção mais baixos.
Na França, a pressão do setor agrícola tem sido particularmente intensa, a ponto de o governo ter manifestado reservas quanto à assinatura do tratado em sua forma atual.
Este cenário ilustra que o acordo não é apenas um instrumento comercial, mas também um projeto geopolítico que redefine cadeias de valor, padrões regulatórios e, cada vez mais, infraestruturas financeiras.
Dimensão invisível
Uma dimensão que o tratado não regula explicitamente, mas que pode determinar o seu sucesso operacional, é a interoperabilidade dos sistemas de pagamentos transfronteiriços.
Alex Hoffmann, CEO da PagBrasil, disse à Bloomberg Línea que a redução das tarifas só produz efeitos econômicos reais se as empresas puderem liquidar pagamentos internacionais com flexibilidade e previsibilidade. Sem uma infraestrutura interoperável, alertou, os benefícios comerciais podem se deparar com uma “alfândega financeira invisível” no momento da transação.
Na sua perspectiva, o gargalo do comércio moderno já não reside apenas nas tarifas alfandegárias, mas na fragmentação da infraestrutura financeira global, que atua como um atrito dinâmico para as empresas exportadoras e importadoras.
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Blockchain e trilhos de valor
Uma visão complementar surge do ecossistema criptográfico. Nathan Chow, CEO global da BitMart, disse à Bloomberg Línea que o acordo cria uma estrutura que pode acelerar a integração entre os sistemas financeiros tradicionais e a tecnologia blockchain.
Segundo ele, a harmonização dos padrões digitais entre a Europa e a América Latina poderia permitir corredores de pagamento mais eficientes e reduzir significativamente o atrito nas transferências transfronteiriças.
Nessa perspectiva, o tratado funciona como um catalisador institucional para inovações financeiras, proporcionando estabilidade regulatória em um ambiente global marcado pela fragmentação normativa.
Interoperabilidade
Ambas as visões coincidem em um ponto central: o comércio do século XXI depende cada vez menos da abertura formal dos mercados e mais da conectividade funcional dos sistemas financeiros.
Para a PagBrasil, o principal desafio é conectar as infraestruturas nacionais existentes por meio de camadas interoperáveis que permitam liquidações rápidas, previsíveis e em moedas locais.
Para a BitMart, o acordo também abre a possibilidade de tecnologias descentralizadas contribuírem para essa conectividade, reduzindo custos de transação e ampliando o acesso a redes globais de valor digital.
Em ambos os casos, o comércio não é entendido apenas como fluxo de bens, mas como fluxo de valor.
Teste do acordo
A implementação do acordo Mercosul-UE surge assim como um teste estrutural à arquitetura financeira global.
Enquanto os governos negociam salvaguardas agrícolas e processos de ratificação parlamentar, o setor privado observa outro desafio: construir as “pontes digitais” que permitam que os fluxos financeiros acompanhem a integração comercial.
Se essas pontes não forem consolidadas, a maior zona de livre comércio do mundo poderá enfrentar um obstáculo menos visível do que tarifas ou protestos: a incapacidade técnica de movimentar dinheiro com a mesma facilidade com que se movimentam bens, serviços e informações.