Bloomberg Línea — O mercado de cosméticos e beleza do Brasil é apontado como um dos mais relevantes do mundo pelo seu tamanho e também pela adesão de consumidores a tendências. Uma das novas apostas é na linha de perfumaria árabe, que acaba de representar o maior investimento da história do Boticário nessa categoria.
Os recursos aportados no desenvolvimento de fragrâncias árabes superam em 50% a média histórica de um dos maiores grupos de cosméticos do país - os valores absolutos não são revelados -, diante do potencial identificado.
O primeiro produto do plano estratégico é o Hadiya, apresentado ao mercado no fim do ano passado. Ele carrega características da perfumaria árabe, como composição de matérias-primas com madeiras e especiarias e notas intensas.
“O que temos observado é que a perfumaria árabe, no Brasil, deixou de ser um nicho e passou a dialogar com um consumidor que amadureceu de maneira acelerada”, disse Paulo Roseiro, diretor executivo de Perfumaria do Grupo Boticário, em entrevista à Bloomberg Línea.
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“Estamos falando de público amplo, não restrito a uma faixa etária ou classe social, mas que tem algo em comum: um repertório sofisticado e crescente interesse por fragrâncias de alta performance”, afirmou o executivo.
Segundo ele, trata-se de um consumidor que entende de concentração, sabe diferenciar matérias-primas, acompanha perfumistas globais, lê sobre processos de extração e “sabe reconhecer intensidade, rastro e profundidade olfativa”. Nesse sentido, trata-se de um público considerado premium.
O executivo citou números apontados pelo Google Trends e por um estudo da DSM-Firmenich, segundo os quais as buscas por perfumes árabes cresceram 24 vezes em dois anos e o Brasil já representa 40% da audiência digital global sobre o tema, além do salto de 380% registrado na categoria em 2024.
“Esses dados só confirmam o movimento que vemos de perto: um interesse genuíno por construções olfativas mais intensas e com maior profundidade.”
Segundo ele, trata-se de uma progressão natural em mercados maduros: “à medida que cresce o conhecimento técnico, cresce também a disposição para experimentar famílias olfativas mais intensas”.
O diretor executivo de Perfumaria do Boticário disse que o consumidor brasileiro percorreu uma trajetória “muito clara” ao longo da última década: passou de colônias para EDTs (Eau de Toilette), de EDTs para EDPs (Eau de Parfum) mais densos e com maior concentração; e agora chega às fragrâncias árabes, tendo aprofundado seu repertório e buscado “mais presença e mais assinatura”.
Os dados gerais do setor no Brasil corroboram essa evolução, apontou: houve um aumento de 17% em unidades vendidas e de 15% em faturamento nos últimos 12 meses, segundo a Kantar, impulsionado pelo segmento premium.
O Grupo Boticário, em particular, é um dos players líderes no segmento no Brasil, com 400 mil fragrâncias vendidas diariamente.

“Esse avanço revela que o consumidor está ampliando seu portfólio, não substituindo”, disse o executivo sobre o padrão de consumo, que não consistiria, portanto, em necessariamente uma mudança da compra de perfumes mais acessíveis em preço para outros de maior valor agregado.
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Como parte da ambição com a categoria, a companhia liderada pelo CEO Fernando Modé desenvolveu um plano que prevê a construção de um “território” com novas fragrâncias, expansão gradual de portfólio e “presença maximizada” em loja física, e-commerce e venda direta, com distribuição nacional omnichannel.
A expectativa para o ano de 2026 é alcançar um crescimento de 300% no portfólio com produtos que tenham inspiração árabe, segundo Roseiro. Apesar do percentual expressivo - sobre uma base ainda limitada -, trata-se de uma expansão planejada para ser alcançada de forma gradual, ressaltou.
“O mercado premium exige coerência. Trabalhamos com profundidade, sustentação e precisão. Hadiya tem espaço para crescer, mas cada passo é planejado a partir de dados, pesquisa, comportamento e capacidade técnica”, disse o executivo.
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Segundo ele, o desenvolvimento de Hadiya levou 12 meses, em trabalho que foi muito além de desenvolver uma fórmula e que, portanto, envolveu pesquisa, leitura da perfumaria árabe, mapeamento de matérias-primas, definição de padrões de concentração, criação de narrativa, desenho de frasco, arquitetura de portfólio e implantação de novos protocolos internos de avaliação.
O processo mobilizou perfumistas, cientistas, especialistas em comportamento, equipes de engenharia e de P&D. E também exigiu a definição de novos parâmetros técnicos que elevaram o padrão interno da empresa, afirmou.

O executivo contou que, no Boticário, “identificar tendências” é um processo estruturado que combina inteligência de dados e ciência do olfato.
“Avaliamos o que acontece nas conversas, na busca ativa por ingredientes, no surgimento de comunidades especializadas e no comportamento de recompra e cruzamos esses sinais com análises técnicas”, disse Roseiro.
“Mas o que determina nosso investimento não é o hype: é a capacidade de transformar uma tendência em uma fragrância alinhada com a nossa marca. A perfumaria árabe passou por todas essas camadas com consistência.”
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