Bloomberg Línea — Pouco mais de dois anos depois de encerrar sua listagem na Nasdaq, a Arco Educação voltou a abrir um canal formal com o mercado de capitais brasileiro.
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) homologou no último dia 20 de fevereiro o registro de emissora de Categoria B para a Companhia Brasileira de Educação e Sistemas de Ensino (CBE), uma subsidiária do grupo, o que lhe permite captar recursos no mercado por meio de títulos de dívida.
A CBE é, na prática, o guarda-chuva operacional da Arco, que é uma das maiores empresas de educação básica da América Latina. Quase todos os ativos da companhia estão sob a subsidiária, incluindo COC, SAS, Dom Bosco e Escola da Inteligência.
As exceções são a International School e o Isaac, a fintech de gestão financeira para escolas, segundo uma pessoa com conhecimento da situação da empresa que falou com a Bloomberg Línea.
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Alguns investidores e fundos têm restrições regulatórias que os impedem de aportar em empresas sem esse tipo de registro. A Categoria B, nesse sentido, é um credenciamento que abre a porta para uma classe de capital que hoje está fechada para a Arco, segundo a pessoa, que pediu para não ser identificada por não ter autorização por se tratar de um assunto privado.
Segundo essa fonte, o registro não teria relação com a dívida nem com a emissão de debêntures para reforço de caixa. A geração anual de caixa teria crescido 70% desde o fechamento de capital na Nasdaq, em dezembro de 2023, de acordo com ela.
Em nota enviada à Bloomberg Línea, o grupo fundado no Ceará pela família Ari de Sá disse que o registro de companhia aberta Categoria B “visa fortalecer a governança e diversificar fontes de financiamento”, e não há uma oferta pública prevista, nem previsão de captação imediata.
A empresa disse ainda que o indicador de nível de alavancagem (dívida líquida/Ebitda) da CBE está abaixo de 3,0 vezes, patamar confortável em relação ao limite contratual de 4,0 vezes.
Também afirmou que o grupo quer estar preparado para “aproveitar eventuais oportunidades de expansão no futuro”.
A Categoria B habilita a CBE a realizar ofertas públicas de debêntures. A subsidiária já emitiu seis séries nos últimos cinco anos via ofertas restritas a investidores profissionais, todas em conformidade com os covenants (limites financeiros contratuais), segundo o grupo. Com o novo registro, o universo de potenciais compradores se amplia.
Segundo a Arco, os recursos captados nesse período financiaram “expansões relevantes, como a aquisição da International School, concluída em 2025”.
Setor em transformação
O Sistema COC, criado em 1965, é uma das plataformas pedagógicas mais tradicionais do país, com atuação da educação infantil ao pré-vestibular. A Arco comprou o COC e o Dom Bosco da britânica Pearson por R$ 920 milhões em 2021, consolidando o grupo como referência no segmento de sistemas de ensino.
Ao longo dos anos, a Arco construiu um portfólio que reúne marcas como SAS, Positivo, Dom Bosco, COC, Escola da Inteligência e International School, esta última integrada em 2025 e que posicionou o grupo como um dos maiores ecossistemas bilíngues do ensino básico no Brasil.
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O setor no qual a Arco opera segue em transformação acelerada. Redes menores buscam parceiros capitalizados, e o capital institucional responde com apetite crescente.
A Inspira, vice-líder nacional com mais de cem escolas em 18 estados e que tem o Colégio Anglo Leonardo Da Vinci entre seus ativos em São Paulo, recebeu aporte de R$ 1 bilhão da Advent e do fundo canadense CPPIB em 2024 e é vista pelo mercado como candidata natural a um IPO quando a janela econômica reabrir.
No topo da pirâmide, o Grupo Salta, antiga Eleva Educação, fechou 2025 com receita de R$ 2,8 bilhões e valuation de R$ 5,8 bilhões, estabelecido em novembro quando o Opportunity e a Gera Capital compraram uma participação da Warburg Pincus.
A transação reconfigurou a estrutura acionária do maior grupo de educação básica do país e sinalizou que os grandes players do setor seguem em movimento, redistribuindo posições numa fase em que o mercado monitora de perto os próximos passos dos grupos líderes, como uma eventual abertura de capital.
Nesse contexto, a habilitação da CBE a realizar emissões públicas oferece ao grupo instrumentos para competir numa rodada de consolidação.
Com o CDI acima de 13% ao ano e sem o referencial público de uma bolsa desde 2023, o spread exigido numa eventual emissão deverá ser o termômetro de como o mercado precifica o risco da CBE hoje.
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