Bloomberg Línea — A Novo Nordisk passou a vender canetas emagrecedoras como Ozempic e Wegovy dentro de uma loja oficial aberta no Mercado Livre do México. A notícia, publicada no fim de junho, derrubou as ações de RD Saúde (RADL3) e Pague Menos (PGMN3) na B3.
Segundo o JPMorgan, não houve catalisador fundamental específico das empresas por trás da queda: o movimento refletiu, segundo o relatório do banco, investidores extrapolando o caso mexicano para o Brasil, onde a venda de medicamentos por marketplace continua proibida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
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No dia da notícia, RD Saúde caiu cerca de 3%. Pague Menos recuou cerca de 2%. Em relatório assinado por Joseph Giordano e equipe, o JPMorgan descreve a iniciativa mexicana como um canal de distribuição oficial do laboratório.
A Novo Nordisk usa a estrutura de pagamentos, tecnologia e logística da plataforma, com o objetivo declarado de reduzir a circulação de produtos falsificados ou vendidos sem autorização.
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Para o JPMorgan, a leitura negativa sobre as ações da RD Saúde reflete uma preocupação de investidores de que a experiência mexicana poderia ser replicada no Brasil, em parte por causa da compra, pelo Mercado Livre, de uma farmácia física em São Paulo, e do lançamento do MELI Farma, uma seção de produtos de saúde dentro do próprio site, hoje voltada a itens de venda livre, como vitaminas e medicamentos isentos de prescrição.
O banco considera essa extrapolação equivocada, porque um modelo semelhante enfrentaria fricção regulatória maior no Brasil.
No país, segundo o relatório, a Anvisa permite pedidos remotos de medicamentos, mas exige que toda a operação parta de uma farmácia licenciada, com farmacêutico presente durante o expediente. O estoque precisa ficar em estabelecimento autorizado, e o site deve estar vinculado a uma farmácia licenciada, não a um centro de distribuição qualquer.
Para os medicamentos GLP-1, a barreira é ainda maior. Desde junho de 2025, a Anvisa exige retenção de receita, emitida em duas vias, além de controles adicionais de rastreamento de movimentação de produto nos sistemas nacionais.
O MELI Farma, segundo o JPMorgan, hoje está mais focado em categorias OTC, sigla do inglês over the counter, que designa os medicamentos vendidos livremente, sem necessidade de receita, como analgésicos comuns ou vitaminas, e menos em prescrição de maior complexidade.
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Por isso, o banco trata a farmácia física do Mercado Livre em São Paulo como um ponto de entrada operacional limitado e prova de conceito, não uma brecha regulatória imediata para escalar um modelo de marketplace nacional. Um modelo mais amplo, do tipo 3P, semelhante ao relatado no México, exigiria mudança regulatória relevante, segundo o JPMorgan.
Em relatório anterior, de 1º de junho, o JPMorgan já havia comparado preços entre o Mercado Livre e as redes físicas de farmácia, com uma amostra de cerca de 2 mil SKUs (produtos). O resultado apontou paridade de preços entre o marketplace e as farmácias tradicionais, ainda que o nível de serviço do Mercado Livre não estivesse, segundo o banco, no mesmo patamar das redes físicas.
Não está prevista ainda a venda de canetas emagrecedoras na plataforma do Mercado Livre Brasil, informou à Bloomberg Línea uma pessoa a par da situação, que pediu anonimato, pois o assunto não é público. A companhia não se pronunciou. A Novo Nordisk não respondeu imediatamente ao pedido de comentários.
Visão do BB
Na mesma semana, o BB Investimentos, em relatório do analista William Bertan, atualizou seus modelos de valuation para as duas redes do varejo farmacêutico, incorporando os resultados do primeiro trimestre e novas premissas macroeconômicas.
O banco segue construtivo com o setor farmacêutico, apoiado em fatores estruturais como envelhecimento populacional, maior incidência de doenças crônicas e expansão de terapias inovadoras, incluindo os GLP-1.
A quebra de patente da semaglutida no Brasil, segundo o relatório, abriu espaço para novos entrantes e já se reflete em estratégias comerciais mais agressivas dos fabricantes.
A queda das ações no ano, de 40,6% da Pague Menos (PGMN3) e 28,3% da RD Saúde (RADL3) até 30 de junho, é atribuída ao reajuste anual de medicamentos definido pela CMED (Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos) em patamar mais contido e à expectativa de um ciclo de corte de juros mais moderado, que levou a uma postura mais cautelosa dos investidores, especialmente com empresas de perfil mais cíclico.
Um desses novos entrantes é a Hypera Pharma (HYPE3). Em 24 de junho, a farmacêutica protocolou na CMED o nome comercial Semavy para sua caneta injetável de semaglutida sintética, etapa que antecede o registro sanitário pela Anvisa. O Semavy será o segundo medicamento nacional com semaglutida sintética a avançar no país, depois do Ozivy, da EMS, aprovado pela Anvisa em 26 de maio.
O movimento coincide com uma mudança na recomendação do Santander Corretora. Na carteira mensal de julho, o banco retirou as ações da RD Saúde (RADL3) da carteira Ibovespa+ e incluiu Hypera (HYPE3) na carteira Small Caps.
- Texto atualizado às 16h12 sobre ausência de previsão de venda de canetas emagrecedoras pelo Mercado Livre no Brasil
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