Títulos de dívida externa da Petrobras saem ilesos do tombo de R$ 60 bi das ações

Bonds da companhia com vencimento em 2033 pouco oscilaram desde a crise de dividendos no início deste mês, enquanto as ações preferenciais caíram 11% no mesmo período

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Por Vinícius Andrade - Peter Millard - Maria Elena Vizcaino
20 de Março, 2024 | 04:03 PM

Bloomberg — A decisão da Petrobras (PETR3; PETR4) de não pagar um dividendo especial em meio à pressão política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou um tombo das ações que eliminou bilhões de reais do valor de mercado da estatal. Os detentores de títulos de dívida externa, no entanto, passam bem.

Os bonds da Petrobras com vencimento em 2033 pouco oscilaram desde o anúncio no início deste mês, com uma leve abertura dos spreads, enquanto as ações preferenciais caíram 11% no mesmo período, uma perda de quase R$ 60 bilhões no valor de mercado desde então.

“A resposta mais simples é que pagar menos dividendos significa mais lucro ou capital retido”, disse Roger Horn, estrategista sênior de mercados emergentes da Mariva Capital Markets.

“A explicação mais elaborada é que, sim, isso sinaliza intervenção política, mas ninguém realmente pensa em prejuízo material ao crédito da Petrobras.”

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A dívida líquida da petroleira subiu para US$ 44,7 bilhões no final de 2023, um aumento de 7,7% em relação ao ano anterior, mas ainda bem abaixo dos níveis vistos no passado. A relação entre a dívida líquida e o Ebitda está inferior a 1 vez, comparado a 4,77 vezes no final de 2014, quando a Lava Jato abalava a produtora de petróleo.

A empresa sediada no Rio de Janeiro é de longe o tomador mais sólido da indústria petrolífera da América Latina, apesar das recentes preocupações sobre interferência política, segundo Adriana Eraso, analista da Fitch Ratings.

Gráfico: spread de bonds da Petrobrasdfd

Para cada barril de petróleo vendido pela Petrobras, cerca de US$ 2 vão para o pagamento de juros sobre sua dívida, enquanto a colombiana Ecopetrol paga cerca de US$ 2,50. A Pemex, a petrolífera mais endividada do mundo, tem que dedicar US$ 9 por barril ao pagamento de juros, disse Eraso.

“Não há sinais de restrições de caixa para pagar os títulos”, disse Eraso, acrescentando que a Petrobras pode resistir a um certo nível de volatilidade decorrente de ações governamentais por vários anos. “É mais um problema dos acionistas.”

A Petrobras não comentou.

Prêmio de risco

Para o Banco Bilbao Vizcaya Argentaria, o rendimento extra que os investidores exigem para segurar a dívida da Petrobras em vez de títulos soberanos do Brasil não é alto o suficiente para compensar os riscos associados a uma potencial intervenção estatal, disse o analista do banco William Snead.

Para o bonds com vencimento em 2033, esse spread caiu de cerca de 50 pontos-base em fevereiro para menos de 30 este mês.

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A Petrobras está focada em se tornar uma empresa de energia renovável, um objetivo político fundamental do governo Lula.

Enquanto os governos anteriores se concentraram em atividades consideradas mais lucrativas, como a exploração de petróleo em águas profundas, o líder petista procura oportunidades em áreas como projetos eólicos terrestres e solares no Brasil.

“Não está claro como a empresa usará o dinheiro extra”, disse Liz Bakarich, gestora da AllianceBerstein em Nova York. Bakarich mantém uma exposição à dívida da Petrobras inferior ao seu benchmark (underweight). Mas, acrescentou, “não há receio de default e a empresa tem uma alavancagem muito baixa”.

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