Por que o Bank of America decidiu elevar a recomendação da Petrobras para compra

Papéis da petroleira brasileira em Nova York acumulam valorização de 75% neste ano, e analistas do banco avaliam que ainda ‘não é tarde para entrar na onda'

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Bloomberg Línea — A alta do petróleo em meio ao choque energético global causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz, fundamental para cerca de 20% do abastecimento mundial, reacendeu o interesse pelo setor petrolífero.

Os analistas do Bank of America (BAC) elevaram a classificação da Petrobras (PETR4) e consideram que “ainda não é tarde para entrar na onda”, apesar da forte alta das ações.

Os analistas Caio Ribeiro, Leonardo Marcondes e Nicolás Barros elevaram a recomendação de “neutra” para “comprar” e estabeleceram um preço-alvo de R$ 65 por ação, contra os R$ 49 anteriores.

Para o ADR, o preço-alvo é de US$ 24,80. A equipe do banco incorpora um cenário com uma nova estimativa para o petróleo Brent de US$ 93 por barril para 2026 e US$ 78 para 2027.

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A revisão ocorre após uma alta de cerca de 75% das ADRs em Nova York desde o início do ano, muito acima dos indicadores globais comparáveis, mas o banco argumenta que o novo cenário dos preços da energia altera a capacidade de geração de caixa.

Nesse sentido, o banco projeta retornos de fluxo de caixa livre para o acionista (FCFE) de 18% em 2026 e 16% em 2027, “5% acima da média dos pares”, em um ambiente de maior investimento.

Preços do petróleo impulsionam receitas

O ajuste das estimativas deve-se principalmente à mudança no cenário do petróleo. O BofA incorpora um aumento de 20% em sua hipótese para o Brent em 2026 e 2027, o que eleva o Ebitda estimado em cerca de 26% em ambos os exercícios e o lucro líquido em até 58% em 2027.

Nesse novo contexto, o banco destaca que a recuperação do petróleo “é fundamental para amenizar as preocupações sobre um aumento do endividamento decorrente de um desequilíbrio entre o fluxo de caixa livre e os dividendos”.

O patamar identificado pelos analistas situa esse equilíbrio em torno de US$ 68 por barril para 2026.

O relatório também destaca a maior sensibilidade da Petrobras em relação ao preço do petróleo. Segundo o BofA, cada aumento de US$ 1 por barril no Brent acrescenta 0,6% ao retorno FCFE, contra uma média de 0,2% entre as empresas europeias comparáveis. Esse efeito amplificador torna-se um dos principais catalisadores da valorização.

A isso soma-se a dinâmica dos fluxos de capital em direção aos mercados emergentes. O Brasil atraiu US$ 3,2 bilhões no que vai do ano, dentro de um total de US$ 6,6 bilhões direcionados à América Latina, com os investidores estrangeiros concentrando-se em setores de grande capitalização, como o de energia.

A ponderação da Petrobras em índices como o Ibovespa e o MSCI LatAm amplifica esse impacto.

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Produção em crescimento

Além do ciclo do petróleo, o relatório destaca o desempenho operacional da empresa. O BofA projeta um crescimento anual composto da produção de petróleo e gás de 5,2% até 2028, acima da maioria dos concorrentes.

A maior parte dessa expansão provém do campo de Búzios, descrito como o ativo mais produtivo do portfólio, onde a empresa instalará novas plataformas entre 2026 e 2027.

Nesse contexto, o banco destaca que “espera-se que a maior parte desse crescimento venha de Búzios, o campo pré-sal mais prolífico da PBR”, com implicações diretas na rentabilidade.

A qualidade dos reservatórios do pré-sal também se traduz em indicadores operacionais superiores. Os poços apresentam taxas iniciais de produção entre 20.000 e 40.000 barris por dia, com alguns ultrapassando os 50.000, níveis significativamente superiores aos de projetos comparáveis.

Esse perfil permite manter economias de escala e reduzir custos de desenvolvimento, reforçando a geração de caixa mesmo em cenários de investimento intensivo.

O BofA denomina o período de 2026 a 2028 como uma fase de “semeadura”, caracterizada por um maior capex, antes de uma etapa posterior de “colheita” com rendimentos de fluxo de caixa entre 18% e 20%.

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Governança e política de preços

O relatório identifica riscos relacionados à política de preços dos combustíveis e às decisões de alocação de capital, embora relativize o impacto em comparação com episódios anteriores.

Nesse sentido, o BofA destaca que a empresa “conseguiu avanços significativos tanto na execução operacional quanto na governança corporativa nos últimos anos”.

A política de preços continua sendo um ponto de atenção, especialmente em um cenário em que o governo implementou subsídios ao diesel e está considerando medidas para conter o preço da gasolina.

Atualmente, a Petrobras vende gasolina com um desconto de 35% em relação ao preço de importação, num contexto em que o petróleo está em torno de US$ 100 por barril.

Mesmo assim, o banco sustenta que, mesmo sob premissas conservadoras, a empresa mantém métricas atraentes. Em um cenário sem ajustes adicionais de preços, o BofA estima retornos de FCFE de 15% e dividendos de 11%, o que “corrobora nossa elevação para ‘comprar’”.

A análise também destaca a mudança estrutural na empresa após as reformas de governança implementadas desde 2016, que limitam a possibilidade de decisões que prejudiquem o valor para os acionistas. Esse quadro reduz o risco de interferência política direta em comparação com ciclos anteriores.

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