Paraguai decola: como o país entrou no radar de Wall St e virou ímã para investidores

Atraídos por reformas econômicas, impostos baixos e pela proximidade do governo com Donald Trump, empreendedores estrangeiros passaram a se estabelecer no país e abraçar a ideia de ‘renascimento de um gigante’ propagada pelo presidente Santiago Peña

Por

Bloomberg — Espremido entre Argentina e Brasil, o Paraguai tem sido por muito tempo ignorado pela comunidade internacional. Pequeno, sem litoral e pobre, era frequentemente visto apenas como um país de passagem.

Por isso, é um pouco surpreendente — tanto para quem está na capital quanto na região — que o país de 6,1 milhões de habitantes esteja repentinamente vivendo um momento de destaque.

Atraídos por impostos baixos, empreendedores de toda a América Latina têm investino pesado e se estabelecido no país, com um aumento de mais de 60% nos pedidos de residência em 2025.

Torres estilosas e concessionárias de carros de luxo agora pontilham Assunção, uma cidade onde a infraestrutura ainda luta para acompanhar esse crescimento.

E investidores de Wall Street têm comprado títulos de dívida do Paraguai, enquanto o presidente conservador, Santiago Peña, alinha seu governo com o governo Trump.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Embora tenha aproximadamente o mesmo tamanho da Califórnia, a economia do Paraguai, de US$ 47 bilhões, equivale a cerca de 1% da do estado americano. No entanto, o rápido crescimento e reformas econômicas dos últimos anos ajudaram o país a conquistar o status de crédito de grau de investimento pela Moody’s Ratings em 2024 e pela S&P Global no ano passado.

“Antes éramos como a garota mais feia do baile”, disse Selene Rojas, diretora do sofisticado Shopping del Sol, no distrito financeiro da capital. “Hoje, todo mundo nos chama para dançar”.

Leia também: Presidente do Paraguai apoia volta da doutrina Monroe sob Trump: ‘acho uma boa ideia’

O presidente Santiago Peña, um economista de 47 anos que se tornou político, viajou para o exterior mais de 50 vezes desde que tomou posse em agosto de 2023 para divulgar que o Paraguai está aberto para negócios.

Ele apoiou abertamente a iniciativa do presidente americano Donald Trump de fortalecer a influência de Washington na região. E, neste mês, ele estava entre os líderes latino-americanos que o presidente dos Estados Unidos reuniu em Miami para coordenar ações de segurança.

“O Paraguai tem sido um grande amigo nosso”, disse o subsecretário de Estado americano, Christopher Landau. Citando o histórico de votações do país nas Nações Unidas e o reconhecimento contínuo de Taiwan, o diplomata dos Estados Unidos acrescentou: “Eles não estão dançando conforme a música da China”.

Em uma região dependente do comércio e do investimento chinês, o Paraguai é a única nação sul-americana que ainda mantém relações diplomáticas com Taiwan. Como resultado, não pode vender sua carne bovina e soja para a China, enquanto deixa de receber bilhões de dólares em investimentos de Pequim em infraestrutura. O Paraguai reconheceu Taiwan em 1957 e mantém sua decisão desde então.

Leia também: Entre Milei e Lula, Paraguai busca caminho da austeridade, diz ministro das Finanças

Washington não tem avançado rapidamente com investimentos próprios, e ainda não há voos diretos entre Assunção e os Estados Unidos. Mas, na semana seguinte à cúpula de Miami, parlamentares paraguaios aprovaram um acordo de defesa que permite a entrada de tropas americanas no país.

Peña chama sua visão para o Paraguai, semelhante à do movimento MAGA [Make America Great Again], de o “renascimento de um gigante”. Ela remete a um período de prosperidade em meados do século XIX, quando o país era líder regional com avanços tecnológicos como siderúrgicas e ferrovias, até que uma guerra sangrenta com seus vizinhos o deixou em ruínas.

No século passado, o país foi governado por uma ditadura durante 35 anos — uma das mais longas da região, cuja queda em 1989 foi seguida por uma tumultuada transição para a democracia. Mas a adoção de políticas fiscais e monetárias sólidas pelo Paraguai após a crise financeira de 2003 agora tem dado resultado, com inflação de um dígito e crescimento anual em torno de 4% nas últimas duas décadas.

“O Paraguai continuará crescendo mais do que os outros países da América do Sul”, disse Peña à Bloomberg TV, em Washington, no mês passado. “Muito em breve, terá a maior renda per capita, acima do Uruguai e acima do Chile.”

Os investidores também estão atentos, colocando dinheiro em fábricas e imóveis. Muitos deles são estrangeiros. As autoridades de imigração receberam quase 50.000 pedidos de residência no ano passado. Cerca de metade era de brasileiros, embora também houvesse um grande número de argentinos, alemães, bolivianos e espanhóis.

Felipe Bertolini, de 24 anos, de São Paulo, é um deles. Ele e seu pai, investidor portuário, passaram três dias em Assunção no final de fevereiro solicitando residência no Paraguai. O regime tributário do Brasil, onde o Estado retém cerca de 40% da receita de sua empresa de factoring e securitização, levou Bertolini a considerar se mudar para o país vizinho.

“O Brasil está empurrando as pessoas para o Paraguai porque seus impostos tornam o empreendedorismo inviável”, disse. “Empresas fecham no Brasil e vêm para cá”.

Leia também: Paraguai aposta no Brasil para contornar disputa comercial entre EUA e China

O país de língua portuguesa é o maior investidor no Paraguai. A participação do Brasil no investimento estrangeiro direto subiu para cerca de 15% no final de 2024, ante menos de 12% quatro anos antes, segundo dados do Banco Central.

As fábricas que se beneficiam de isenções fiscais no regime de “maquila”, de produção para exportação, são um polo de atração para investidores. As exportações sob o regime de maquila de empresas como a Blue Design, liderada pelo empresário têxtil argentino Jorge Bunchicoff, mais do que quadruplicaram na última década, para cerca de US$ 1,2 bilhão no ano passado.

A Bunchicoff exporta anualmente cerca de 1 milhão de peças de denim premium, incluindo jeans e jaquetas, de sua moderna fábrica nos arredores de Assunção para mercados globais, como os EUA, o Reino Unido e o Japão.

A empresa fornece para marcas sofisticadas como Lacoste e Good American, enquanto sua própria marca, Dala, pode ser vendida por mais de US$ 300.

“Eu jamais conseguiria fazer isso na Argentina” ou no Brasil, por causa dos altos custos e às relações trabalhistas tóxicas em ambos os países, disse Bunchicoff, que atua no Paraguai há 30 anos. O segredo do seu sucesso, argumenta, é uma combinação de impostos baixos, energia e mão de obra baratas, além de previsibilidade.

A chegada de novos imigrantes ao Paraguai também impulsiona o consumo.

Cerca de 120.000 pessoas por semana visitam o Shopping del Sol, aumento de 30% em relação aos últimos três anos, em parte devido à imigração, disse Rojas, diretora do shopping.

“Você pode ver claramente a chegada de estrangeiros”, disse. “Os hotéis estão lotados. Os restaurantes estão lotados. A frota de carros cresceu enormemente. Nosso aeroporto não consegue acompanhar”, acrescentou.

Ainda assim, o milagre econômico do Paraguai enfrenta ventos contrários que podem frear o crescimento e a mobilidade social, se não forem enfrentados. Apenas a Venezuela o supera como a nação mais corrupta da América do Sul, de acordo com o último índice da Transparência Internacional.

Mais de 60% da força de trabalho atua na economia informal, segundo dados do governo. E embora a pobreza tenha diminuído drasticamente desde o início dos anos 2000, cerca de um quinto dos paraguaios ainda vive abaixo da linha da pobreza.

Apesar disso, o esforço para tornar o Paraguai mais responsável fiscalmente está dando resultados.

Depois de captar cerca de US$ 500 milhões em 2024 com sua primeira emissão de títulos de dívida globais, denominados na moeda local guarani, o Paraguai emitiu um recorde de US$ 1 bilhão em dívida denominada em guarani no mês passado.

É uma grande mudança em relação a uma década atrás, quando a primeira emissão de títulos de US$ 1 bilhão do Paraguai foi em dólares, disse Carlos Fernández, ministro das Finanças.

“Isso dá um senso de como a credibilidade da economia paraguaia evoluiu”, acrescentou o ministro, descrevendo a mais recente emissão em guaranis como “um diploma de graduação.”

Veja mais em bloomberg.com

Leia também

EUA e Paraguai assinam acordo contra o crime que prevê atuação de forças americanas