O ouro começou 2026 consolidado como um dos ativos com melhor desempenho do último ano.
Depois de fechar 2025 com um incremento superior a 60%, consolidou um dos ciclos mais sólidos para os metais preciosos desde o final da década de 1970.
Agora, o metal enfrenta um ano que começou com riscos geopolíticos que reforçam sua atratividade como ativo refúgio.
A dinâmica de alta respondeu a uma combinação de fatores. Por um lado, a expectativa de cortes adicionais nas taxas nos Estados Unidos manteve os rendimentos reais deprimidos.
A isso se somou uma expansão do interesse dos investidores, com entradas significativas em fundos cotados lastreados em ouro, particularmente ETFs, que chegaram a incorporar mais de 12 toneladas em um único dia.
Mas as crescentes tensões geopolíticas, num ambiente marcado por conflitos regionais, sanções cruzadas e sinais de fragmentação sistêmica, reforçaram o apelo do ouro como reserva de valor e ativo de refúgio, ainda mais após o ataque dos EUA em solo venezuelano.
“Os mercados financeiros interpretaram a crise venezuelana principalmente como uma fonte de incerteza geopolítica sistêmica, em vez de uma perturbação política localizada”, disse a analista Sylvia Andriany.
“O aumento nos preços do ouro não pode ser explicado por um único evento, mas reflete um aumento cumulativo na percepção global do risco”.

Para a analista, a crise venezuelana atuou como um catalisador de reforço em um ambiente de risco já elevado.
“Os investidores responderam não às preocupações sobre as limitações da oferta física, mas ao crescente risco de cauda, definido como cenários de baixa probabilidade, mas alto impacto, que ameaçam a estabilidade do sistema financeiro global”.
O efeito Venezuela e o novo salto do ouro
A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou na detenção de Nicolás Maduro, atuou como catalisador imediato para uma nova onda de compra de ouro.
Ao contrário de episódios anteriores, o conflito não resultou em um aumento significativo do preço do petróleo.
O WTI manteve-se em torno de US$ 57 por barril. Em contrapartida, o ouro ultrapassou inicialmente US$ 4.300 por onça poucas horas após o anúncio da operação.
A reação dos mercados foi interpretada pelos analistas como um sinal de que os investidores não veem o episódio venezuelano como uma interrupção energética tradicional, mas como mais um indício de um ambiente instável em termos geopolíticos e financeiros.
Andriany explicou que “o episódio produziu uma resposta divergente nos mercados, em que os preços do petróleo permaneceram estáveis, enquanto o ouro subiu fortemente em um contexto de crescente incerteza”.
O movimento também foi observado por bancos internacionais como o Morgan Stanley.
Os analistas da instituição afirmaram que “a incerteza geopolítica relacionada aos acontecimentos na Venezuela gera riscos de alta para o ouro como ativo de refúgio”.
Na mesma linha, a análise do OCBC Group Research destacou que “este episódio, juntamente com os recentes comentários do presidente Trump sobre a Groenlândia, a Colômbia e o México, ressaltam a persistência da incerteza geopolítica e o risco de explosões episódicas em várias regiões, mesmo quando eventos individuais podem escalar e desacelerar rapidamente”.
Para os analistas da OCBC, que estimam o metal em US$ 4.800, “o ouro continua sendo sustentado não por um conflito prolongado em si, mas por um contexto contínuo de incerteza geopolítica e imprevisibilidade política”.

O Maybank destacou a magnitude da resposta imediata nos metais preciosos. O ouro subiu 1,8% na manhã de segunda-feira após a captura de Maduro, o que também levou a um aumento de 4,4% no preço da prata. Para o MUFG, a recente mudança no sentimento responde a uma reviravolta no ambiente de risco.
“O aumento do risco geopolítico contribuiu para sustentar o preço do ouro após a forte correção para baixo no final do ano passado”, apontaram.
A Oxford Economics complementou essa abordagem, ressaltando que“os preços do ouro caíram na semana passada, mas se recuperaram desde então, já que o ressurgimento do conflito geopolítico na Venezuela está impulsionando a demanda por refúgio”.
Os analistas do Citi consideraram que “o aumento da incerteza geopolítica (em oposição ao risco) poderia impulsionar ainda mais os preços do ouro, mas essa história já é conhecida”.
Pressões técnicas sobre o preço
Além dos fatores macroeconômicos e geopolíticos, janeiro traz consigo um evento técnico que pode introduzir volatilidade pontual no preço do ouro nos próximos dias.
O rebalanceamento anual do Índice Bloomberg Commodity, uma das principais referências para investimentos em commodities, implica ajustes obrigatórios na ponderação de cada ativo que o compõe. Em 2026, esse processo ocorrerá entre 9 e 15 de janeiro.
De acordo com o Deutsche Bank, o peso do ouro no índice será reduzido de 20,43% para 14,90%, o que se traduz em uma venda estimada de 1,36 milhão de onças troy.
“O impacto de 1,4 milhão de onças troy de vendas de ouro pode valer entre 1,5% e 1,8% no preço do ouro usando a sensibilidade dos ETFs, dependendo das janelas de análise e se são usadas variações semanais ou mensais”, explicou Michael Hsueh, analista da instituição.
Apesar desses antecedentes, o Deutsche Bank alerta que o efeito pode estar parcialmente descontado pelo mercado. “A natureza amplamente sinalizada do rebalanceamento pode significar que uma parte significativa do fluxo já tenha sido executada antecipadamente”, afirmou o mesmo relatório.
Nessa linha, os movimentos recentes do ouro e da prata mantiveram-se dentro dos intervalos esperados, o que sugere que parte do ajuste já começou a refletir-se.

Os dados históricos também trazem nuances. “O histórico dos eventos de rebalanceamento em anos anteriores é inconsistente, com 2025 se destacando como um ano em que uma redução na ponderação do ouro coincidiu com um movimento de alta no preço do ouro durante a janela de rebalanceamento”, disse Hsueh.
Essa assimetria obriga os operadores a observar não apenas os fluxos esperados, mas também o posicionamento prévio dos fundos que replicam o índice.
Até onde chegará o ouro em 2026?
Ao contrário dos ciclos anteriores, em que o preço do ouro reagia principalmente às taxas de juros reais ou à evolução do dólar, o contexto atual mostra uma transformação mais ampla.
A análise do OCBC aponta para uma expansão estrutural da alocação do ouro como ativo estratégico.
“O que evoluiu foi o grau de alocação nas carteiras, que provavelmente se manterá estruturalmente mais alto do que em ciclos anteriores”, afirmou a entidade.
Também destacou o avanço da demanda varejista, impulsionada pelo acesso digital e por uma maior conscientização sobre o papel do ouro como reserva de valor.
O World Gold Council confirmou que “o ouro encerrou 2025 com um aumento de 67%, o melhor desempenho desde 1979”, e destacou que “os riscos geopolíticos continuam sendo um fator-chave que impulsiona o ouro, como foram durante boa parte de 2025”.
Nessa perspectiva, a evolução da política monetária do Federal Reserve e os fluxos para os ETFs serão elementos decisivos para os próximos meses.
“O ouro reverteu seu movimento em direção a novos máximos históricos e, com o impulso semanal em queda, parece provável uma nova fase de consolidação, mas com a tendência central ainda em alta”, avaliou o relatório.
O OCBC também observou sinais técnicos favoráveis para manter uma tendência positiva.
“Do ponto de vista tático, o recuo parece mais saudável após uma alta excessiva do que uma reversão de tendência”, afirmaram seus analistas, que projetam o ouro em US$ 4.800 por onça até o final de 2026.

As estimativas de outras entidades mostram uma ampla variação. O Bank of America projeta que o ouro pode atingir US$ 5.000 por onça se as condições fiscais e geopolíticas atuais se mantiverem.
O Deutsche Bank estima US$ 4.450 para 2026 e US$ 5.150 para 2027, desde que a demanda oficial se mantenha acima de 1.050 toneladas por ano.
A Goldman Sachs revelou que “quase 70% dos investidores institucionais esperam que os preços do ouro subam ainda mais até o final de 2026”.
Entre os fatores mais mencionados estão as compras dos bancos centrais e a deterioração fiscal nas economias desenvolvidas.
O Saxo Bank considera que o ouro deixou de ser um instrumento tático para se tornar um componente estrutural das carteiras num contexto de transformação do sistema financeiro internacional.
“Isso indica uma transição mais profunda no sistema financeiro global, onde a confiança, a diversificação e a resiliência se tornaram tão importantes quanto o rendimento e o crescimento”, concluiu Hansen.






