Nem Brasil, nem México: Paraguai teve a moeda latina mais forte contra o dólar em abril

Desempenho das moedas na América Latina foi influenciado por uma combinação de fatores internos e externos, num contexto marcado pela alta do preço do petróleo e pela instabilidade geopolítica no Oriente Médio

Por

Bloomberg Línea — O panorama cambial da América Latina sofreu uma reordenação em abril. Em um mês marcado pela fraqueza do dólar e pelo impulso das commodities, não foram as grandes economias que lideraram, mas sim o Paraguai, cuja moeda se posicionou como a mais forte da região.

O guarani (USDPGY) superou moedas como o real (USDBRL), o peso mexicano (USDMXN) e o peso colombiano (USDCOP), em um movimento que refletiu mais os fluxos internos do que fatores globais. Essa dinâmica foi impulsionada pelas exportações, pela menor demanda por dólares e por uma sazonalidade acentuada no mercado cambial.

A valorização do guarani foi resultado de um aumento significativo na oferta de divisas, impulsionado pelas exportações agrícolas e pela menor demanda corporativa por dólares. As receitas provenientes da soja e seus derivados cresceram fortemente no primeiro trimestre, enquanto o setor de maquilagem aumentou suas exportações.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

Ingrid Herrera, gerente do departamento de Economia da MF Economía Inversores, destaca que “o aumento de 39,8% na receita proveniente da exportação de soja e seus subprodutos, num contexto de alta nos preços internacionais e maior oferta local desses produtos” foi um dos fatores determinantes.

Esse conjunto de fatores aumentou a oferta de divisas no mercado local, pressionando a taxa de câmbio para baixo. O peso do complexo da soja é determinante: os derivados da soja representaram 45,1% das receitas de exportação no final do primeiro trimestre, o que explica a magnitude desse movimento.

Exportações e taxas

A valorização do guarani ocorreu num contexto em que outras moedas da região também se valorizaram, embora por motivos diferentes.

O peso chileno foi uma das moedas que mais se destacou, com uma valorização de cerca de 3,3% em abril, impulsionado por fatores externos e locais que reforçaram a entrada de divisas e melhoraram a percepção de risco.

Esse avanço resultou da combinação de um dólar mais fraco no mercado global, do alto preço do cobre e de uma mudança política que elevou as expectativas de investimento, com projetos no valor de cerca de US$ 20 bilhões entrando no sistema ambiental logo no primeiro mês de governo.

Felipe Cáceres, analista da Capitaria, resume parte desse movimento ao observar que “o cobre, mantendo-se em níveis historicamente elevados, próximos a US$ 6 a libra, melhora os termos de troca do país”.

O preço do cobre elevou as receitas externas e fortaleceu a moeda, enquanto o fator político acrescentou um elemento adicional de confiança.

Leia também: Câmbio afeta preço de imóveis de luxo. Mansão de Marcio Garcia tem corte de R$ 150 mi

No entanto, esse equilíbrio depende de variáveis externas. Cáceres alerta que “uma correção no preço do cobre teria impacto direto sobre o peso, já que cada queda de US$ 0,10 no preço do cobre se traduz em um aumento de CLP$ 15 a CLP$ 20 na taxa de câmbio”.

No Brasil, o real também se mostrou forte, embora apoiado por uma combinação diferente de fatores.

Roberto Pereira, sócio-fundador da ATEX Investimentos, destaca que “o petróleo acima de US$ 100 o barril fortaleceu a balança comercial e ampliou o fluxo de divisas”, enquanto “a Selic em níveis elevados manteve o atrativo para o carry trade”. Esse diferencial de taxas sustentou a entrada de capitais, mesmo em um contexto de volatilidade global.

O caso colombiano também esteve ligado ao petróleo. A moeda foi sustentada pelo aumento do preço do petróleo bruto, juntamente com fatores internos, como a época de pagamento de impostos pelos grandes contribuintes, que aumenta a demanda por pesos e a entrada de divisas.

O BBVA indica que “o peso colombiano tem sido sustentado pelos elevados preços do petróleo. Os altos preços do petróleo no curto prazo podem continuar alimentando a demanda pelo peso, enquanto uma reversão no médio prazo, acompanhada de uma certa ‘normalização’ da oferta global, poderia reduzir o apoio à moeda”.

Pressão no Peru e estabilidade na Argentina

Nem todas as moedas acompanharam a tendência. O sol peruano (USDPEN) se desviou do comportamento regional devido a fatores internos.

Fernando Ruiz, CEO da Kambista, afirma que “a incerteza eleitoral parece ter começado a desempenhar um papel fundamental no desempenho do sol, enquanto os mercados avaliam os diferentes cenários para o segundo turno, que ocorrerá em junh”o.

O analista afirma que o receio dos investidores “reside na probabilidade de que um candidato considerado antimercado, como Roberto Sánchez, possa vencer o segundo turno e implementar mudanças substanciais na política econômica que afetem o investimento privado e alterem significativamente o cenário atual”.

Esse fator político exerceu pressão sobre a taxa de câmbio, mesmo em momentos em que o dólar se desvalorizava globalmente, marcando um desfasamento em relação ao restante da América Latina.

Na Argentina, a dinâmica foi diferente. A taxa de câmbio manteve-se relativamente estável dentro de um sistema de faixas, com um aumento moderado em abril.

Milo Farro, analista da Rava Bursátil, destaca que “ainda há US$ 3,2 bilhões pendentes de liquidação no mercado livre de câmbio, o que significa que haverá um fluxo de oferta bastante significativo no mês de maio”, num contexto em que o superávit comercial e a liquidação do setor agropecuário aumentam a oferta de divisas.

Esse fluxo, aliado à sazonalidade da safra principal, introduz um fator adicional que pode amenizar a pressão sobre o dólar nos próximos meses.