O Brasil continua sendo o mercado preferido do Morgan Stanley na América Latina, apesar do recente desempenho inferior em relação à Ásia emergente e a Wall Street, em uma aposta que o banco associa cada vez mais às eleições presidenciais de outubro de 2026, à possibilidade de uma mudança na política econômica e ao retorno dos fluxos para o mercado acionário local.
“O Brasil continua sendo nosso mercado preferido na América Latina, apesar do desempenho recentemente inferior em relação à Ásia emergente e aos Estados Unidos. A probabilidade de uma mudança na política está aumentando”, escreveram os analistas do Morgan Stanley em um relatório sobre estratégia para a região.
A instituição projeta um retorno de 31% em reais para o índice Ibovespa (IBOV) até meados de 2027, o que equivale a um aumento de 22% em dólares.
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Em um cenário otimista, o banco prevê uma alta de 67% em dólares, impulsionada principalmente pela expansão dos múltiplos, enquanto o cenário pessimista prevê uma queda de 35%.
“O mercado parece estar precificando uma mudança de política após as próximas eleições no Brasil”, observaram os estrategistas do Morgan Stanley, após destacarem que o grupo de ações associado a uma reviravolta econômica acumulou um retorno de 86% em dólares desde janeiro de 2025, contra 68% do grupo vinculado à continuidade das políticas.
Essa diferença é importante porque mostra onde estão concentradas as apostas do mercado antes da campanha presidencial.
O Morgan Stanley afirma que os investidores estão se posicionando para um modelo menos dependente dos gastos públicos e mais voltado para o investimento privado, taxas mais baixas e a recuperação do mercado de capitais.
A aposta está no investimento e nas exportações
A tese do banco baseia-se em uma ideia central: o Brasil precisa reequilibrar sua economia após anos em que os gastos públicos e as altas taxas de juros afastaram os investimentos e o capital de risco.
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“Se a equação do PIB é C+G+I+X, recomendamos aos investidores que concentrem sua atenção na última parte: investimento e exportações, e que sejam muito cautelosos com as ações ligadas ao consumo e ao governo”, escreveram os analistas.
Essa abordagem muda a forma como o Morgan Stanley está elaborando suas recomendações para o Brasil.
O banco privilegia os setores financeiro, de materiais, de energia e de serviços públicos, ao mesmo tempo em que evita os setores de bens de consumo básico, bens de consumo discricionário, saúde e tecnologia.
A preferência por empresas de serviços públicos e serviços financeiros está diretamente ligada à expectativa de uma queda nas taxas e a um eventual ciclo de investimentos.
“A melhor maneira de aproveitar esse tema no Brasil é por meio das empresas de serviços públicos, especialmente a Axia Energia (AXIA3)”, indicou o relatório, que também destacou o BTG Pactual (BPAC11), a XP (XP) e a B3 (B3SA3) entre as empresas financeiras preferidas.
O Morgan Stanley considera que a economia brasileira precisa desacelerar para permitir uma redução mais agressiva das taxas de juros. Essa visão contrasta com a de parte do mercado local, que ainda prioriza o crescimento econômico no curto prazo. Para o banco, o fator decisivo para as ações brasileiras já não é apenas a expansão do PIB, mas a qualidade desse crescimento.
“O crescimento econômico já não é o fator determinante para as ações latino-americanas; hoje, o que importa é a qualidade do crescimento”, escreveram os analistas.
Essa tese também depende de uma melhora nas finanças públicas.
O Morgan Stanley afirma que o mercado brasileiro opera em uma situação extrema, com o investimento em relação ao PIB próximo aos mínimos regionais, déficit nominal elevado, dívida alta e participação local no mercado acionário em níveis historicamente baixos.
“O caso do Brasil depende, em grande parte, da reintrodução da disciplina fiscal para permitir a redução das taxas e resolver a fuga de capital de risco”, observou o banco.
Fluxos, taxas e eleições
Um dos pontos mais relevantes do relatório é a análise dos fluxos de capital para a bolsa brasileira. O Morgan Stanley afirma que o Brasil aparece simultaneamente sobrecomprado por gestores globais emergentes e sobrevendido por investidores locais.
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Isso abre espaço para um retorno significativo do capital doméstico caso as taxas comecem a cair. Os economistas do banco projetam cortes acumulados de 450 pontos-base na taxa Selic até o final de 2027, com uma taxa de 13% no final de 2026 e de 10,5% um ano depois.
Esse movimento poderia gerar um fluxo de cerca de US$ 23 bilhões para fundos de ações locais, segundo as estimativas da instituição.
“Os investidores brasileiros nunca haviam investido tão pouco em fundos locais de ações brasileiras”, escreveram os estrategistas, que veem nessa posição extremamente defensiva uma fonte potencial de demanda para o mercado acionário.
O Morgan Stanley acredita, além disso, que a participação global ainda pode aumentar. O Brasil representa atualmente cerca de 4% do índice MSCI Emerging Markets, bem abaixo do peso superior a 15% que chegou a ter em 2007.
O banco estima que, se os fundos globais aumentassem sua sobreponderação nos mercados emergentes para 1%, o Brasil poderia receber cerca de US$ 30 bilhões a mais.
As ações preferidas para cada cenário político
O Morgan Stanley dividiu suas recomendações em dois grupos, de acordo com os possíveis resultados eleitorais de 2026.
Nesse cenário de mudança de política, associado a uma transição do consumo para o investimento, o banco privilegia empresas financeiras sensíveis às taxas, como NU, XP, BTG Pactual e B3, além de empresas ligadas ao investimento e a ativos estatais, como a Petrobras (PETR4) e o Banco do Brasil (BBAS3).
“Entre as ações relacionadas a uma mudança de política que marque uma transição estrutural do consumo para o investimento, privilegiamos, entre outras, serviços financeiros de alta qualidade sensíveis às taxas de juros, algumas empresas selecionadas do setor de consumo, empresas estatais e empresas ligadas ao investimento”, escreveu o Morgan Stanley.
O segundo grupo corresponde a um cenário de continuidade econômica impulsionado por estímulos fiscais. Nesse cenário, o banco prioriza empresas exportadoras e aquelas com receitas em moeda forte, como Vale (VALE3), Embraer, Gerdau (GGBR4), JBS (JBS) e Suzano (SUZB11), além de instituições financeiras beneficiadas pelas altas taxas de juros e operadoras de telecomunicações consideradas defensivas.
A diferença entre os dois grupos reflete o principal debate que marca atualmente o mercado brasileiro: se as eleições de 2026 abrirão espaço para uma política fiscal mais ortodoxa e taxas mais baixas ou se continuará um modelo baseado em gastos públicos e crédito caro.
Por enquanto, o Morgan Stanley sustenta que o mercado já começou a se inclinar para o primeiro cenário. O desempenho das ações ligadas a uma eventual recuperação econômica, a expectativa de cortes nas taxas de juros e o possível retorno dos fluxos locais tornaram-se variáveis centrais para o Ibovespa até 2027.