Mercado de Treasuries indica a Warsh e ao novo Fed que taxas de juros devem subir

Rendimentos dos títulos de dois anos dispararam para o maior nível desde 2025 depois que uma série de indicadores econômicos levou investidores a precificar pelo menos uma alta de 0,25 ponto percentual em outubro

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Bloomberg — O mercado de Treasuries, de US$ 31 trilhões, tem uma mensagem inequívoca para o Federal Reserve de Kevin Warsh: os juros não estão altos o suficiente.

Os rendimentos dos Treasuries de dois anos dos EUA, mais sensíveis à política monetária, dispararam para o maior nível em mais de um ano depois que uma série de indicadores econômicos levou os investidores a precificar pelo menos uma alta de 0,25 ponto percentual já em outubro.

Em torno de 4,15%, o rendimento do título de dois anos está bem acima da faixa atual da taxa básica do Fed, de 3,5% a 3,75%, uma divergência que começou em março.

Esse ajuste para cima se intensificou na semana passada após a divulgação dos dados mais recentes de geração de empregos, que superaram todas as previsões e reforçaram a crescente convicção de que os juros precisam subir para conter as pressões inflacionárias e reduzir o risco de que um boom impulsionado pela inteligência artificial leve a economia a um superaquecimento.

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Relatórios sobre os preços ao consumidor e no atacado em maio, previstos para esta semana, devem fornecer novas evidências em favor dessa narrativa.

“Mostre onde os juros estão sendo restritivos”, disse Jack McIntyre, gestor de portfólio da Brandywine Global Investment Management. “Os rendimentos dos Treasuries tendem a continuar subindo até que algo quebre.”

A alta dos rendimentos nos EUA se espalhou por toda a curva de Treasuries, criando um ambiente desafiador para os dirigentes do Fed e para seu novo presidente, Kevin Warsh, que comandará na próxima semana sua primeira reunião e coletiva de imprensa.

Depois de defender cortes de juros com base na avaliação de que a política monetária era restritiva, Warsh agora enfrenta um mercado de títulos cada vez mais preocupado com a possibilidade de o Fed estar ficando atrás da curva, além de vários dirigentes da autoridade monetária que também demonstram preocupação com a inflação e não descartam novas altas de juros no futuro.

McIntyre, da Brandywine, afirmou que sua gestora continua com exposição abaixo da média a juros nos EUA e não vê valor particularmente atraente nos títulos, diante da resiliência da economia. Outros avaliam que a atividade corre o risco de entrar em ritmo excessivamente acelerado.

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“Pela primeira vez em bastante tempo, estamos considerando um cenário em que a economia dos EUA efetivamente começa a superaquecer”, disse Andrzej Skiba, chefe de renda fixa BlueBay US na RBC Global Asset Management, citando o aumento dos investimentos em inteligência artificial em uma economia que já apresenta forte dinamismo.

Skiba afirmou que esse não é seu cenário-base e acrescentou que mantém sua exposição a juros próxima aos índices de referência enquanto aguarda sinais de que Warsh adotará uma postura mais dovish ou mais hawkish.

A divergência entre os rendimentos de curto prazo nos EUA e a taxa básica de juros remete ao período entre o fim de 2021 e o início de 2022, quando o mercado se antecipou à política do Fed e o banco central acabou promovendo uma série de fortes altas de juros para combater o avanço da inflação.

O movimento também volta a direcionar a atenção para a estimativa de longo prazo do Fed para a chamada taxa neutra — um nível teórico dos custos de financiamento que nem estimula nem desacelera o crescimento econômico — e para a possibilidade de que essa taxa precise ser revisada para cima.

Mudança de pressupostos

Em março, as projeções dos dirigentes do Fed para a taxa de juros de longo prazo — vista como uma referência para a taxa neutra — apontavam para 3,1%.

Isso reforçava a inclinação dos formuladores de política monetária, na reunião mais recente, em favor de juros mais baixos.

Mas alguns observadores do mercado argumentam que essa taxa é, na verdade, mais elevada, como demonstra a persistente onda de gastos que vem impulsionando a atividade em torno da expansão da infraestrutura de inteligência artificial. Nesse caso, uma resposta mais dura da política monetária poderia ser necessária.

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“O debate agora está migrando para a questão de saber se o lado do emprego no mandato do Fed está acelerando e se a política monetária é realmente restritiva”, escreveu a equipe de estratégia de juros do Barclays, liderada por Anshul Pradhan, em relatório divulgado após os dados de emprego de sexta-feira.

“Caso contrário, a hipótese subjacente para a taxa neutra também precisa ser revisada para cima. Uma reprecificação desse tipo afetaria toda a curva de juros, e não apenas os vencimentos mais curtos.”

Uma medida baseada nos juros de mercado para a taxa neutra ajustada pela inflação está em cerca de 1,8%, acima da estimativa mediana do Fed, de 1,1%, para a taxa neutra em termos reais.

Onde Warsh enxerga a taxa neutra “é uma pergunta muito pertinente e importante”, disse Kevin Flanagan, chefe de estratégia de investimentos da WisdomTree.

Segundo ele, o antecessor de Warsh, Jerome Powell, “ficava meio indeciso, sugerindo que 3,5% poderia ser uma taxa neutra” e, por isso, “é razoável dizer que a política monetária talvez esteja em nível neutro neste momento e já não seja mais restritiva”.

Em certa medida, os rendimentos mais elevados dos Treasuries estão fazendo parte do trabalho de aperto monetário pelo Fed.

Com o título de 10 anos negociado em torno de 4,5%, aumentam os custos dos financiamentos imobiliários e da captação corporativa.

A Bloomberg Economics estima que a recente alta dos rendimentos equivale a cerca de 75 pontos-base em aumentos de juros pelo Fed.

Isso pode dar respaldo para que o banco central mantenha os juros inalterados.

Na quarta-feira, a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) de maio tem potencial para alterar as expectativas do mercado para os juros e para a política monetária do Fed, à medida que os investidores avaliam até que ponto a alta do petróleo provocada pela guerra com o Irã está se disseminando para essa medida mais ampla de inflação.

Um resultado mais moderado do que o esperado pode aliviar parte das preocupações. Ainda assim, com a inflação permanecendo acima da meta do Fed, isso não mudaria substancialmente a narrativa predominante.

“Se o CPI não mostrar uma aceleração clara da inflação, há um limite para até onde essa liquidação dos títulos pode avançar, e é possível até defender a tese de um pequeno rali de alívio”, afirmou Flanagan. “Mas a mensagem central para o mercado de Treasuries é que rendimentos na casa de 4% devem passar a ser mais a norma ao longo de toda a curva de títulos com cupom.”

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