Legacy vê piora no cenário local e está quase ‘zerada’ na bolsa, diz Felipe Guerra

Para o sócio e CIO da gestora, o cenário local está piorando, apesar do rali que fez o principal índice acionário brasileiro saltar 13% desde o início do ano tem se ancorado em uma maré de fluxo global de estrangeiros

A principal posição da gestora aposta em bolsas globais, ancorada em um otimismo com o crescimento dos EUA em 2026
Por Barbara Nascimento - Felipe Saturnino
05 de Fevereiro, 2026 | 02:05 PM

Bloomberg — O rali do Ibovespa no início do ano não foi suficiente para convencer a Legacy Capital a voltar para a bolsa brasileira.

A gestora está “praticamente zerada” na bolsa, com posições apenas setoriais em ações locais, segundo o sócio e CIO Felipe Guerra.

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Enquanto o rali que fez o principal índice acionário brasileiro saltar 13% desde o início do ano tem se ancorado em uma “maré de fluxo global de estrangeiros”, na prática, o cenário local está piorando, segundo Guerra.

Para ele, o cenário eleitoral embute um impasse fiscal que precisa ser equacionado para abrir espaço à queda dos juros reais e, assim, sustentar uma valorização adicional da bolsa.

“Enquanto a maré global estiver cheia, acho que o Brasil acaba sendo um beneficiário desse cenário. Agora, se o cenário externo virar, vamos estar bastante vulneráveis, porque, em termos de política econômica, temos caminhado na direção errada por um período longo de tempo”, disse Guerra em entrevista.

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O Ibovespa renovou recordes nas últimas semanas e mantém-se acima dos 180 mil pontos desde o fim de janeiro. O avanço tem sido sustentado por um forte ingresso de recursos estrangeiros: apenas no mês passado, o fluxo para o mercado acionário brasileiro atingiu R$ 26,3 bilhões, superando o total registrado ao longo de todo o ano anterior, em um movimento associado à redução da exposição a ativos americanos e à busca por maior diversificação de portfólio.

Ainda que a bolsa tenha potencial para se valorizar mais em um ciclo de corte de juros, Guerra acredita que o afrouxamento esperado promete ser “mais um processo de calibragem do que de levar a taxa para um patamar estimulativo”.

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Para que os juros caiam mais, as propostas dos candidatos durante as eleições precisam apontar para um avanço na questão fiscal brasileira, disse Guerra.

Em decisão vista como dovish pelo mercado, o Banco Central indicou que cortará a Selic na próxima reunião em março.

Guerra vê “tranquilamente” espaço para um ciclo de queda de 3,5 ponto percentual, dado o patamar muito restritivo da taxa atual. Na ata referente à última reunião, o Copom reafirmou cautela e indicou a necessidade da manutenção do patamar de juros em níveis restritivos.

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Legacy Capital detém uma pequena posição aplicada — que ganha com a queda — nos juros nominais. A principal posição da gestora aposta em bolsas globais, ancorada em um otimismo com o crescimento dos EUA em 2026, mirando um corte de juros pelo Federal Rerserve e a continuidade da alta das ações de tecnologia.

A gestora virou a mão na aposta em dólar, diante do acirramento das tensões entre EUA e Groenlândia em janeiro, e passou a se posicionar contra a divisa americana. A gestora atualmente detém uma posição vendida — que lucra com a desvalorização — no dólar e comprada em uma cesta de moedas, incluindo o real.

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O Legacy Capital Edge, principal fundo multimercado da gestora com R$ 1,1 bilhão de patrimônio líquido, acumula ganho de 1,73% no ano e de 15,42% em 12 meses, ante um avanço do CDI de 1,33% e 14,51% na mesma base de comparação.

Enquanto isso, o IHFA, índice de hedge funds da Anbima, tinha ganhos de 2,34% em 2026 e de 17% em 12 meses até 2 de fevereiro.

‘Sonho Tarcísio’

Felipe Guerra acredita que o rali da bolsa brasileira ajudou a colocar em segundo plano as incertezas com a questão eleitoral. Ele considera improvável que o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas concorra para a presidência, como esperava o mercado. O nome de Tarcísio foi ofuscado pela pré-candidatura de Flávio Bolsonaro anunciada em dezembro.

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“Aquele sonho Tarcísio acabou”, disse. Para ele, o sobrenome Bolsonaro nas urnas tem força eleitoralmente, com as pesquisas mostrando que Flávio já converteu os votos do pai. “É inevitável que Flávio vá ser o nome principal da centro-direita na eleição,” disse, adicionando que há chances de que outro nome de direita concorra no pleito.

Guerra afirma que Flávio tem agora o desafio de baixar a rejeição ligada a Jair Bolsonaro.

“Acho que ele vai conseguir baixar um pouco a rejeição e vai ficar mais competitivo”, diz. “Vamos caminhar para eleição Flávio e Lula e só vamos saber o resultado da eleição no dia, a indefinição vai ficar por muito tempo.”

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-- Com informações adicionais da Bloomberg Línea sobre a variação do fundo da Legacy e do mercado.