Bloomberg Línea — O Goldman Sachs considera que o carry trade em moedas emergentes ainda tem espaço para continuar gerando retornos, depois que o choque energético decorrente do conflito entre Irã e Estados Unidos reduziu as expectativas de cortes de juros e manteve elevados os rendimentos reais em vários mercados emergentes.
Para o banco, essa mudança prolonga a atratividade de moedas como o real brasileiro, o peso mexicano e o rand sul-africano.
A instituição afirmou em relatório que “não apenas o nível do carry nos emergentes está agora mais alto do que no início do ano e elevado em relação às médias históricas de longo prazo, como também agora esperamos uma queda mais lenta nas taxas reais e nos níveis de carry em comparação com o que esperávamos no começo do ano”.
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Esse ajuste modifica uma das premissas que dominavam o mercado no início de 2026, quando os investidores antecipavam um ciclo mais agressivo de cortes por parte do Federal Reserve e de vários bancos centrais de países emergentes.
A mudança é relevante porque o carry trade depende de diferenciais amplos de juros. Quando os bancos centrais reduzem rapidamente as taxas, esses retornos tendem a diminuir.
O banco também indicou que o choque do petróleo elevou o limite para novos cortes, já que os bancos centrais querem confirmar se as pressões inflacionárias ligadas à energia serão temporárias ou persistentes.
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Paralelamente, o banco destacou que várias moedas emergentes com altos rendimentos também se beneficiam da condição de exportadoras de commodities energéticas, fator que reforça o desempenho das operações de carry em meio à volatilidade geopolítica.
“A diferenciação por meio dos termos de troca tem sido o principal fator a impulsionar os retornos das moedas, juntamente com os betas de risco”, escreveu o Goldman Sachs.
Brasil ganha protagonismo entre as moedas latino-americanas
Na América Latina, o Goldman Sachs manteve uma preferência clara pelo real brasileiro em relação ao peso colombiano, embora ambas as moedas continuem oferecendo os maiores níveis de carry dentro do universo emergente.
O banco indicou que o Brasil combina “alto carry, melhora nos termos de troca e um beta positivo ao risco”, três fatores que, na avaliação da instituição, seguem sustentando a moeda mesmo após a valorização registrada no último ano.
A relevância do real brasileiro também reflete a expectativa de que as taxas reais permaneçam elevadas por mais tempo.
O Goldman Sachs explicou que seus economistas agora projetam taxas reais de política monetária mais altas no fim de 2026 do que antes do conflito com o Irã, após revisarem para cima as previsões para os juros nominais em intensidade maior do que as estimativas de inflação.
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O caso colombiano aparece com mais cautela.
O banco reconheceu que a valorização do peso colombiano contribuiu para o desempenho das cestas de carry trade ao longo do último ano, mas alertou que “a relação risco-retorno parece menos atraente no curto prazo” devido ao aumento do ruído político antes das eleições presidenciais de 31 de maio e aos sinais de que fatores eleitorais já estão afetando decisões do banco central.
Essa deterioração da relação risco-retorno traz implicações relevantes para investidores internacionais.
O carry trade não depende apenas do diferencial de juros, mas também da estabilidade política e da direção esperada da moeda.
O Goldman Sachs afirmou que o sinal de subvalorização do peso colombiano “se deteriorou ao longo do tempo”, deixando a divisa mais vulnerável a um resultado eleitoral percebido como menos favorável ao mercado.
Espaço para estratégias mais seletivas
Em um segundo relatório, Teresa Alves, estrategista do Goldman Sachs, concordou que a menor volatilidade implícita e o adiamento dos cortes de juros estão aumentando novamente o interesse por estratégias de carry trade em moedas.
Alves explicou que “os níveis de carry entre diferentes estratégias de carry em moedas permaneceram estáveis ao longo do último ano” e acrescentou que o atraso esperado nos cortes de juros “aponta para uma janela mais longa de desempenho superior do carry em moedas emergentes em relação às posições aplicadas em juros locais”.
A análise acrescenta outro elemento relevante para os mercados: nem todas as estratégias de carry estão se comportando da mesma forma.
O Goldman Sachs identificou que as cestas com menos moedas em posições compradas e vendidas superaram as estratégias mais amplas ao longo do último ano e desde o início do conflito com o Irã.
Segundo Alves, isso reflete duas dinâmicas simultâneas.
Por um lado, as moedas com maiores rendimentos também são as mais sensíveis ao apetite global por risco. Por outro, as diferenças nos termos de troca estão ampliando a distância entre exportadores e importadores de energia.
A estrategista reiterou que suas posições preferidas continuam sendo o real brasileiro, o florim húngaro, o peso mexicano e o rand sul-africano.
Sobre o México, destacou que o peso oferece uma exposição mais ligada ao ciclo econômico dos Estados Unidos “em um contexto de crescimento resiliente nos Estados Unidos e desempenho sólido dos ativos americanos”.
O Goldman Sachs também considera que o carry do peso mexicano poderá se estabilizar após o último corte de juros esperado por parte do Banxico nesta semana. Diferentemente de outras moedas emergentes importadoras de energia, a deterioração dos termos de troca do México tem sido limitada, fator que ajuda a reduzir vulnerabilidades diante de novos movimentos do petróleo.
O banco avalia que essa dinâmica continuará condicionando o desempenho das moedas emergentes nos próximos meses, especialmente enquanto os bancos centrais mantiverem cautela diante dos riscos inflacionários derivados da energia e a volatilidade geopolítica continuar influenciando os fluxos para ativos de risco.