Bloomberg — O otimismo em relação a uma resolução rápida do conflito no Oriente Médio está se dissipando rapidamente nos mercados financeiros.
O que há poucos dias era uma postura cautelosa de esperar para ver, transformou-se em algo muito mais decisivo: investidores estão precificando um choque de oferta mais profundo e duradouro, que pode comprimir o crescimento e reacender a inflação.
Cerca de US$ 6 trilhões em valor do mercado global de ações foram eliminados desde o início da guerra no Irã. Os mercados de títulos de dívida também foram duramente atingidos, à medida que operadores correm para recalibrar as perspectivas para as taxas de juros.
Embora as ações tenham reduzido as perdas e o petróleo tenha diminuído os ganhos após o Financial Times ter noticiado que os países do Grupo dos Sete discutirão uma possível liberação conjunta de petróleo das reservas, os movimentos do mercado na segunda-feira ainda foram marcantes.
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A mudança ganhou força depois que o presidente americano Donald Trump disse que os EUA considerarão atacar áreas do Irã que não eram alvos anteriores, enquanto a liderança em Teerã prometeu não recuar. Trump também afirmou que o petróleo a US$ 100 era “um preço muito pequeno” a pagar pela “segurança e paz”, minando as esperanças de que o conflito fosse relativamente contido.
Quando o petróleo bruto avançou em direção a US$ 120 por barril no início do dia, operadores disseram que ficou claro que o mercado não estava mais posicionado para um confronto de curto prazo.
O petróleo Brent disparou até 29% durante o pregão — sua maior oscilação em quase seis anos —, enquanto os indicadores de volatilidade das ações saltaram e os volumes de negociação nas bolsas asiáticas ficaram bem acima das médias mensais. O comportamento dos preços apresentou características de capitulação, e não de cautela.
“O pêndulo está oscilando em direção ao pânico”, disse Danny Wong, diretor executivo da Areca Capital, por telefone. “Há uma corrida para vender ou reduzir todos os tipos de ativos de risco”.
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Os receios de uma desaceleração econômica global colidiram com mercados já instáveis devido a preocupações de que a inteligência artificial possa perturbar indústrias e com o aumento da tensão no mercado de crédito privado.
Na abertura dos mercados em diferentes fusos horários nesta segunda-feira, níveis técnicos-chave caíram em rápida sucessão em ações, títulos de dívida e nas principais moedas.
Os últimos acontecimentos impulsionaram o dólar, enquanto as ações do setor de energia avançaram. Em determinado momento, ações asiáticas despencaram cerca de 5,6%, a maior queda desde abril. O índice Bloomberg Dollar Spot ampliou seu avanço.
“Os investidores tiveram que aumentar a probabilidade do pior cenário possível”, disse Rajeev de Mello, gestor macro global na Gama Asset Management. “O desafio é a natureza estagflacionária do choque”.
Um dos gatilhos para a onda de vendas foi a notícia de novos ataques à infraestrutura energética por ambos os lados, o que elevou as perspectivas de um choque de oferta duradouro. Alimentando ainda mais os temores de uma guerra prolongada, o Irã nomeou o filho do falecido aiatolá Ali Khamenei como seu novo líder supremo, um movimento desafiador da República Islâmica.
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Tombo dos títulos
Os títulos de dívida também caíram em toda a Ásia, com os rendimentos de referência subindo em dois dígitos na Austrália, na Nova Zelândia e na Coreia do Sul.
A Europa, particularmente sensível ao aumento dos preços da energia, tem estado no centro da derrocada, com os rendimentos dos títulos de curto prazo do Reino Unido disparando quase 60 pontos-base desde o início da guerra. As ações blue-chip europeias afundaram até 3,1% na segunda-feira.
“O mercado está vendendo indiscriminadamente hoje, independentemente do tamanho ou estilo”, disse Taku Ito, gestor-chefe da Nissay Asset Management. “Se a inflação persistir enquanto a demanda por mão de obra enfraquece, uma recessão nos EUA se tornará inevitável. Para os mercados de ações, isso significaria que o jogo acabou”, acrescentou.
Ao mesmo tempo, os retornos dos títulos corporativos estão sendo atingidos pelos temores de inflação. O índice global de crédito de alta qualidade perdeu quase todos os seus ganhos acumulados no ano — uma rápida reversão após ganhos de 1,6% pouco mais de uma semana atrás.
Saídas de capital estrangeiro
Investidores estrangeiros retiraram US$ 14,2 bilhões de ações de emergentes asiáticos, excluindo a China, na semana passada, a maior retirada desde pelo menos 2009, segundo dados compilados pela Bloomberg.
As vendas se concentraram na Coreia do Sul e em Taiwan, mercados com forte presença do setor de semicondutores e que haviam se tornado destinos importantes para investimentos globais relacionados à inteligência artificial.
Os indicadores de volatilidade atrelados ao Nikkei 225, do Japão, e ao NSE Nifty 50, da Índia, saltaram até 62% e 23%, respectivamente, para os níveis mais altos desde meados de 2024. Na Coreia do Sul, a queda levou a uma breve interrupção das negociações.
O índice MSCI Asia Pacific está agora a cerca de 1% de uma correção técnica, enquanto o índice MSCI de mercados emergentes se aproxima do mesmo limite, ressaltando a intensidade do movimento global de aversão ao risco. O índice Euro Stoxx 50 também se aproximou de uma correção.
“O petróleo é o ponto de ignição”, escreveu em nota Nigel Green, CEO da consultoria financeira deVere Group.
“A segurança energética voltou subitamente a ser a questão macroeconômica determinante. Os investidores precisam reagir de forma decisiva agora. A estagflação muda drasticamente o ambiente de investimentos”.
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