Bloomberg — As ações argentinas ficaram de fora da alta das bolsas latino-americanas neste ano, à medida que a euforia anterior do mercado com as vitórias eleitorais do presidente Javier Milei se dissipa devido à preocupação com os fracos resultados corporativos.
Depois que as ações dispararam após o sucesso de Milei nas eleições legislativas em outubro, o índice de referência Merval se estabilizou e depois caiu 8% neste ano. Em contraste, o índice MSCI Latin America subiu mais de 20% no mesmo período — o melhor início de ano desde 1994.
Investidores elogiaram Milei por cortar gastos fiscais e desacelerar a inflação galopante da Argentina, mas esses sucessos ainda não se traduziram em uma alta duradoura dos lucros. Embora a economia tenha se recuperado da recessão de 2024, o crescimento não ganhou ímpeto suficiente para alimentar um ciclo robusto de resultados — um desafio para as ações, que já são negociadas a múltiplos elevados, dizem analistas.
“As ações precisam de evidência clara de uma segunda fase — crescimento econômico sustentado, recuperação dos lucros e maior previsibilidade regulatória”, disse Carolina Volman, chefe de pesquisa de ações e corporativa da corretora One618. “O mercado acionário ainda aguarda o surgimento de um ciclo de crescimento que possa sustentar uma expansão mais duradoura dos múltiplos”.
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Até mesmo o bilionário Stanley Druckenmiller — que elogiou Milei na CNBC no início de seu mandato — saiu da posição de seu Duquesne Family Office em um dos principais fundos de índice negociados em bolsa da Argentina, após este ter atingido uma máxima recorde, realocando capital para o Brasil.
Resultados mistos
Os lucros corporativos foram atingidos pela volatilidade financeira na Argentina no ano passado, agravada pela queda nos preços das commodities.
A turbulência antes das eleições de outubro levou bancos listados em bolsa aos resultados mais fracos desde a pandemia, com grandes instituições financeiras como o Grupo Financiero Galicia e Macro registrando prejuízos no terceiro trimestre do ano. Ao mesmo tempo, a taxa de inadimplência de empréstimos no país subiu para o nível mais alto em pelo menos 15 anos, em meio a uma forte retração do crédito.
Até mesmo as empresas de energia — as principais beneficiadas com o novo modelo de crescimento focado em exportações de Milei — apresentaram resultados mistos. A estatal YPF registrou um pequeno prejuízo durante o terceiro trimestre devido à queda dos preços globais do petróleo, enquanto a Pampa Energía reportou uma queda de cerca de 50% nos lucros nos primeiros nove meses de 2025.
As ações do Mercado Livre, empresa fundada na Argentina, registraram a maior queda intradiária desde 2024 na quarta-feira, após o lucro líquido do quarto trimestre ter ficado abaixo das estimativas dos analistas.
As empresas que compõem o índice Merval são negociadas a uma relação preço/lucro projetada de 19,8, superior à do Ibovespa, de 13,4, à do IPSA, do Chile, de 15,6, e à do BMV, do México, de 15,9, segundo dados compilados pela Bloomberg.
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A economia argentina deverá crescer 2% em 2026, abaixo da estimativa anterior de 3,2%, visto que a Argentina inicia o ano com um “momentum mais lento”, de acordo com a Bloomberg Economics. Esse pessimismo persistiu mesmo após a recuperação do crescimento em dezembro.
Fluxos estrangeiros
Mas também existem fatores específicos de mercado que pesam sobre as ações argentinas.
Os mercados emergentes atraíram mais de US$ 50 bilhões em fluxos de entrada no acumulado do ano, o período mais forte em anos, de acordo com Ola El-Shawarby, gestora de mercados emergentes da VanEck.
Grande parte desse capital fluiu para fundos negociados em bolsa que replicam as ponderações de índices de referência, beneficiando mercados maiores e mais líquidos, como o Brasil e o México.
O mercado de ações da Argentina permanece pequeno em comparação com seus pares regionais e relativamente ilíquido, o que limita sua capacidade de absorver grandes alocações passivas. Sua exclusão dos principais índices de referência agrava essa restrição.
Um possível catalisador seria a reclassificação pelo MSCI, o que provavelmente exigiria a remoção a longo prazo dos controles de capital e maior acesso para investidores estrangeiros.
As entradas líquidas no MSCI Argentina ETF atingiram cerca de US$ 630 milhões em 2024, o maior volume anual em mais de uma década, conforme o programa de estabilização de Milei alimentava um rali antecipado. No entanto, o ímpeto se mostrou difícil de sustentar. Cerca de US$ 200 milhões saíram em 2025, e as saídas não se reverteram imediatamente, mesmo após a vitória de Milei nas eleições legislativas ter estimulado os ganhos.
A remoção dos controles de capital — um passo fundamental para uma possível reentrada nos principais índices de mercados emergentes — ainda parece distante, segundo analistas.
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