Dólar se valoriza e duas moedas da América Latina são as que mais caem no mundo

O fortalecimento global do dólar, a queda do cobre e o aumento da aversão ao risco afetam negativamente as moedas latino-americanas

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Bloomberg Línea — As moedas da América Latina recuaram na sexta-feira (15) diante de um dólar fortalecido pela combinação de expectativas crescentes de taxas de juros elevadas nos Estados Unidos, a alta do preço do petróleo e um tom defensivo renovado nos mercados globais.

O índice DXY, que compara o dólar americano a uma cesta das principais moedas do mundo, registrou um ganho semanal de 1,41%, seu melhor desempenho desde o início de março, enquanto o real (USDBRL) e o peso chileno (USDCLP) figuraram entre as moedas com pior desempenho dos mercados emergentes e entre as principais do mundo.

Em nível global, as perdas chegaram a superar até mesmo as do florim húngaro, da rufiyaa das Maldivas ou do lilangeni de Esuatini.

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O movimento ocorreu após uma série de dados divulgados nos Estados Unidos nesta semana, que reforçaram a percepção de que o Federal Reserve manterá uma política monetária restritiva por mais tempo.

A isso se somaram a alta nos preços da energia e a redução do apetite pelo risco, em meio a novas tensões relacionadas ao Irã e ao Estreito de Ormuz.

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Andrew Hazlett, operador de câmbio da Monex, disse à Bloomberg que “é uma combinação de uma certa recuperação no Oriente Médio, que impulsionou novamente os preços do petróleo, e dados de inflação nos Estados Unidos mais altos do que o esperado”.

Na América Latina, o peso chileno (USDCLP) caiu 1,59%, registrando a maior queda diária entre as principais moedas da região, seguido pelo real (USDBRL), que recuou 1,46% no dia. O peso mexicano (USDMXN) recuou 0,68%, enquanto o peso colombiano (USDCOP) e o sol peruano (USDPEN) também operaram em terreno negativo.

Pressão externa e riscos políticos

A BBVA FX Strategy observou que as moedas latino-americanas têm sido afetadas por um contexto marcado pelo aumento dos preços da energia, pela incerteza geopolítica e por uma economia norte-americana que continua demonstrando resiliência.

A empresa acrescentou que a volatilidade do real (USDBRL) continua ligada ao ciclo eleitoral e às preocupações fiscais. Davison Santana, analista da Bloomberg Intelligence, alertou esta semana que “a combinação de pressões externas e locais provavelmente manterá o real sob pressão”.

DÓLAR EM RELAÇÃO AO REAL

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Para o especialista, a percepção de maiores chances de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva “continua repercutindo nos ativos, pois reforça as preocupações fiscais”.

A sensibilidade política também se estendeu ao peso colombiano (USDCOP) e ao sol peruano (USDPEN). O BBVA manteve sua recomendação de compra em relação à taxa de câmbio colombiana, considerando que a moeda continua vulnerável antes das eleições, mesmo após operações de gestão da dívida que não conseguiram reverter a tendência de desvalorização.

No Peru, o Banco Central manteve na quinta-feira a taxa de juros em 4,25% pelo oitavo mês consecutivo, embora o BBVA tenha estimado que a decisão teria um impacto limitado sobre a moeda, uma vez que “existem fatores mais relevantes para a moeda, especialmente o ciclo eleitoral”. O peso mexicano (USDMXN) e o peso argentino (USDARS) também recuaram na sexta-feira em meio à força do dólar.

DÓLAR EM RELAÇÃO AO SOL PERUANO

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O cobre intensifica a pressão sobre o peso chileno

O peso chileno (USDCLP) sofreu ainda uma desvalorização adicional devido à queda do cobre, que caiu 4,87%, para US$ 6,28 a libra, após ter atingido máximas históricas durante a semana. A queda do metal amplificou a valorização do dólar no Chile, onde a taxa de câmbio ultrapassou os CLP$ 900.

Felipe Sepúlveda, analista-chefe da Admirals América Latina, explicou que a queda do cobre se deve à realização de lucros e a sinais de menor demanda por parte da China, enquanto “a inflação nos Estados Unidos volta a pressionar os metais industriais, reforçando a expectativa de uma Reserva Federal mais restritiva”.

A BBVA FX Strategy afirmou ainda que o dólar continua sendo sustentado pela “combinação de riscos geopolíticos, preços mais altos do petróleo, resiliência da atividade econômica dos Estados Unidos e uma Fed cautelosa”.

DÓLAR EM RELAÇÃO AO PESO CHILENO

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Jeffrey Schmid, presidente do Federal Reserve de Kansas City, reiterou que “a inflação continua sendo o principal risco para a economia americana”, enquanto o mercado avalia a possibilidade de novos aumentos nas taxas por parte do banco central.

O comportamento do dólar e das moedas latino-americanas continuará dependendo das expectativas em relação às taxas de juros nos Estados Unidos, da evolução do conflito no Oriente Médio e da evolução dos preços das matérias-primas, especialmente do petróleo e do cobre, duas variáveis que, nesta semana, voltaram a definir o fluxo de recursos para os ativos emergentes.