De geopolítica a IA: Moody’s aponta o que pode afetar o mercado global de crédito

Um relatório da agência de classificação de risco alerta para possíveis riscos para o setor neste ano

Agência de classificação de risco publicou um relatório descrevendo os seis cenários que poderiam impactar os mercados em 2026
02 de Fevereiro, 2026 | 01:11 PM

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Bloomberg Línea — A agência de classificação de risco Moody’s publicou um relatório descrevendo os seis cenários que poderiam afetar significativamente os mercados de crédito em 2026.

“Nosso objetivo é mostrar a ampla gama de cenários possíveis que poderiam resultar em resultados de crédito mais negativos”, explica o relatório.

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1) Fraturas geopolíticas

A Moody’s identifica o potencial surgimento de um cenário de fraturas geopolíticas como um dos riscos com capacidade de deteriorar as condições de crédito globais.

A agência menciona, entre outros fatores, as ações dos Estados Unidos na Venezuela, as tensões com a Europa em torno da Groenlândia, a guerra entre a Rússia e a Ucrânia e o aumento das fricções na Ásia, em um contexto que descreve como mais fragmentado e volátil, com grandes potências atuando em esferas de influência opostas. De acordo com o relatório, quando esses episódios resultam em riscos à segurança ou em interrupções relevantes no comércio, eles tendem a afetar a confiança econômica e endurecer as condições financeiras.

O relatório também alerta que as tensões podem se manifestar por meio de maiores barreiras ao comércio e ao investimento, bem como de um acesso mais restritivo a insumos estratégicos, como semicondutores e minerais críticos.

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2) Temores inflacionários

A Moody’s aponta como segundo evento que poderia afetar o crédito, caso ocorra, o ressurgimento dos temores inflacionários associados à transição na condução do Federal Reserve, cujo atual presidente, Jerome Powell, encerra seu mandato em maio.

Segundo a agência, a incerteza sobre a próxima liderança e sobre como ela interpretaria a meta de estabilidade de preços poderia resultar em uma reação mais lenta da política monetária diante de novas pressões inflacionárias, com o risco de que as expectativas se desancorassem.

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O relatório alerta que uma deterioração dos indicadores de inflação poderia elevar a curva de rendimentos, particularmente nos trechos longos, e aumentar a volatilidade dos ativos de maior duração.

3) Correção nos preços das ações relacionadas à inteligência artificial

A Moody’s alerta para o risco de uma correção ligada ao boom do investimento em inteligência artificial (IA), após o forte aumento dos gastos corporativos desde a pandemia, que levou as avaliações das ações americanas e a concentração do setor tecnológico a níveis comparáveis aos da era das pontocom.

Embora a agência destaque que o ciclo atual se baseia em fundamentos mais sólidos — como balanços corporativos mais robustos, um sistema bancário bem capitalizado e uma adoção mais ampla da IA —, ela aponta que uma decepção nos ganhos de produtividade, resultados empresariais abaixo do esperado, condições financeiras mais restritivas ou uma desaceleração econômica poderiam desencadear um ajuste com efeitos mais amplos sobre a economia.

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4) Perda de empregos por IA

Outro possível fator hipotético levantado pela Moody’s é um cenário em que a adoção acelerada da inteligência artificial (IA) impulsiona a produtividade, mas gera pressões sobre o emprego.

A agência aponta que, em economias com adoção precoce, como os Estados Unidos, a automação de tarefas complexas permitiria reduzir custos e aumentar a produção, com efeitos transversais em diferentes setores.

A Moody’s estima que um aumento de 1% na produção por hora poderia resultar na eliminação de cerca de 800.000 empregos nos Estados Unidos, elevando a taxa de desemprego.

5) Estresse no crédito privado

A Moody’s identifica um cenário de tensão no crédito privado com potencial de contágio financeiro, num contexto em que este segmento ganhou peso como fonte de financiamento para diferentes tipos de mutuários.

Segundo a agência, o rápido crescimento do mercado, juntamente com estruturas menos transparentes e vínculos financeiros mais estreitos, aumenta a probabilidade de surgirem vulnerabilidades.

A Moody’s alerta que, embora o crédito privado continue sendo uma parcela relativamente limitada do sistema financeiro, uma deterioração na qualidade desses ativos poderia afetar o apetite pelo risco e elevar os prêmios em outros mercados.

6) Alta das taxas de rendimento

A Moody’s alerta que uma recuperação dos rendimentos dos títulos soberanos poderá pressionar as posições fiscais e desacelerar a atividade econômica em 2026.

A agência destaca que os mercados de dívida pública entram no ano com um maior grau de vulnerabilidade, num contexto de déficits elevados, envelhecimento da população, baixa produtividade e fortes necessidades de refinanciamento, fatores que alimentam as dúvidas sobre a sustentabilidade da dívida em várias economias avançadas.

De acordo com o relatório, essas tensões já se refletem em curvas de rendimento mais íngremes, mesmo em países onde as taxas de política começaram a cair, à medida que os investidores exigem prêmios mais altos para manter dívidas de longo prazo.

A agência de classificação sustenta que um aumento acentuado dos rendimentos nas economias avançadas se refletiria no custo do capital em geral, endurecendo as condições financeiras sem intervenção direta dos bancos centrais.