Bloomberg Línea — A seca de ofertas públicas de ações (IPO, na sigla em inglês) na bolsa brasileira já dura mais de quatro anos. Por outro lado, as emissões registraram um novo recorde pelo segundo ano consecutivo.
Impulsionadas pela renda fixa, as emissões alcançaram R$ 838,8 bilhões no acumulado de 2025, segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) divulgados nesta quinta-feira (22).
A renda fixa foi a grande protagonista do ano: movimentou R$ 737,7 bilhões – um crescimento de 3,4% na comparação anual.
Para 2026, as perspectivas da Anbima são de crescimento modesto para a renda fixa, o que pode abrir espaço no mix para o avanço de outros produtos.
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“A alta dos últimos anos não deve se repetir facilmente nos próximos, foi algo fora da curva. O que tendemos a ter em 2026 é um mercado forte, bastante maduro e talvez com uma composição um pouco diferente”, afirmou Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, em entrevista a jornalistas na tarde desta quinta-feira.
“Alcançamos um patamar de mercado que vai continuar pujante e bastante líquido. Mas não acredito em um crescimento relevante para este ano em relação a 2025 – já viemos de uma base muito forte”, avaliou Cesar Mindof, diretor da Anbima, na mesma entrevista.
Maranhão destacou o potencial para o crescimento de produtos híbridos, como Fundos de Investimentos Imobiliário (FIIs) e Fundo de Investimento nas Cadeias Produtivas Agroindustriais (Fiagro).
O segmento foi o que mais avançou percentualmente em 2025, com alta de 72,9%, para R$ 85,6 bilhões. Os FIIs registraram expansão de 77,2% em relação a 2024, totalizando R$ 79,2 bilhões. Fiagros avançaram 31,3%, para R$ 6,4 bilhões.
“Com um cenário de juros mais baixos [projetado para 2026], podemos ver as emissões de renda fixa um pouco menores [em expansão], ou até mesmo de lado. E um crescimento mais forte em instrumentos híbridos ou até mesmo em renda variável”, disse.
2025 em números
Os executivos classificaram o ano de 2025 como uma surpresa positiva, dado que o mercado de capitais brasileiro já vinha de uma forte base de comparação em 2024, quando disparou 67,7% em emissões.
Alguns fatores fora do radar ajudaram a manter o apetite pela renda fixa em 2025. Entre eles, questões regulatórias como a Medida Provisória 1303, apresentada em junho de 2025, que trouxe a proposta de tributação de diversos investimentos isentos, incluindo debêntures incentivadas.
A MP não foi aprovada, mas gerou certa antecipação nas emissões com os agentes de mercado ainda em busca das condições de isenção. As debêntures incentivadas lideraram o crescimento de captação entre títulos de dívida, com alta de 31,7% no ano, atingindo R$ 178 bilhões.
Neste ano, é possível que ocorra uma nova antecipação de ofertas por causa das eleições presidenciais no segundo semestre, evento que tradicionalmente traz volatilidade para os mercados.
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Desafios em ofertas de ações
O cenário eleitoral também pode representar um desafio para a retomada das ofertas em renda variável, que recuaram 38% no acumulado de 2025, para R$ 15,5 bilhões. O valor é 100% referente a ofertas secundárias, de follow-on – IPOs não ocorrem no mercado brasileiro desde setembro de 2021.
Ainda assim, a avaliação dos executivos é que o mercado está no melhor momento dos últimos anos para a retomada das ofertas iniciais em renda variável.
“Vemos a bolsa local e no exterior em patamares recordes, além da uma expectativa de taxa de juros em queda no Brasil. São fatores importantes para a retomada de uma janela de oportunidade”, destacou Mindolf.
Quando as ofertas retornarem, Maranhão estima que será em “transações de volume bastante relevante, muito vinculadas a setores um pouco mais defensivos, majoritariamente de infraestrutura”.
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