América Latina lidera recuperação entre emergentes, e Goldman vê destaque para o Brasil

À exceção dos EUA, recuperação nos mercados da região têm sido mais intensa do que nos mercados desenvolvidos

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Bloomberg Línea — A recuperação das ações dos mercados emergentes após o cessar-fogo de 7 de abril no Oriente Médio tem sido marcada por uma clara diferenciação regional.

A América Latina – juntamente com o Norte da Ásia e a Europa emergente – lidera a recuperação, num contexto em que os fluxos de capital retornam e as avaliações se ajustam após a volatilidade do conflito.

Nesse contexto, os estrategistas do Goldman Sachs (GS) afirmam que “as ações dos mercados emergentes se recuperaram (+7%), lideradas por uma alta de ‘alívio’ nos setores cíclicos, recuperando a maior parte das perdas desde a baixa para ficar em +12% no acumulado do ano”.

O banco americano destaca ainda que a recuperação tem sido até mais intensa do que nos mercados desenvolvidos – excluindo os Estados Unidos.

“O Norte da Ásia, a Europa emergente e a América Latina lideraram a recuperação, enquanto os segmentos importadores de petróleo da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) e da Índia ficaram para trás”, informou o relatório.

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Os estrategistas consideram que o cenário será persistente diante das atuais perturbações no setor energético.

Os mercados latino-americanos estão entre os blocos com melhor desempenho na recuperação após o fim do conflito, com ganhos em torno de 5% a 6% em moeda local em países como o Brasil, enquanto o Chile ultrapassa os 8% desde 7 de abril.

Essa dinâmica se insere em um padrão mais amplo, no qual os mercados que sofreram as maiores correções durante o período de volatilidade têm liderado a recuperação.

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América Latina lidera a recuperação

No âmbito dos mercados emergentes, a América Latina atingiu novos máximos no ano, impulsionada pelo desempenho do Brasil e pelo efeito positivo dos preços das matérias-primas.

O relatório destaca que “a América Latina (liderada pelo Brasil) e a Europa emergente (liderada pela Hungria e pela Turquia) atingiram novos máximos no que vai do ano”, consolidando sua liderança na fase de recuperação.

O comportamento dos investidores também reflete uma mudança significativa. Após saídas acumuladas de cerca de US$ 80 bilhões durante o período de conflito, o mercado registrou entradas líquidas de aproximadamente US$ 9 bilhões na última semana, paralelamente a uma valorização do MSCI EM de 11,6 vezes os lucros futuros, abaixo de sua média de dez anos.

Nesse contexto, a empresa mantém uma visão otimista em relação a esse ativo emergente.

“As avaliações e o posicionamento foram significativamente reajustados, e é provável que o crescimento dos lucros seja sólido”, afimaram os analistas.

O Goldman Sachs tem uma previsão de crescimento dos lucros de 23% para 2026, dos quais 16 pontos percentuais provêm da demanda relacionada à inteligência artificial.

Brasil, principal aposta na região

A preferência pela América Latina concentra-se no Brasil, onde convergem fatores favoráveis tanto externos quanto internos.

“Na América Latina, continuamos a dar preferência ao Brasil, devido ao impulso das matérias-primas”, afirmam os analistas do banco, num contexto em que o setor energético acumulou uma alta de cerca de 25% desde o início do conflito.

O desempenho recente do mercado brasileiro tem sido misto.

Enquanto os setores ligados às commodities se beneficiam do cenário de preços, o mercado acionário doméstico tem sofrido pressão devido às altas taxas de juros.

Ainda assim, a expectativa é positiva. “Esperamos que as ações brasileiras superem o desempenho do mercado dado que apresentam valuations que, em nossa opinião, são atraentes em relação ao nível atual das taxas, e com a expectativas de novos cortes de juros”.

As expectativas em relação à política monetária reforçam esse cenário.

Os economistas do banco projetam uma taxa Selic de 12,75% até o final do ano, um nível que poderia servir de catalisador para uma valorização dos ativos sensíveis às taxas no mercado local.

Esse ajuste nas taxas ocorre em um contexto de elevada sensibilidade do mercado acionário brasileiro às condições financeiras, o que amplia o potencial de reavaliação caso os cortes esperados se concretizem.

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Fluxos, taxas e perspectivas de mercado

A recuperação das ações dos mercados emergentes também se deve a uma estabilização parcial dos mercados de taxas após o choque energético.

O cessar-fogo reduziu o risco de novos picos nos preços do petróleo, permitindo um alívio nas curvas de rendimentos locais, especialmente em economias com vendas iniciais mais elevadas.

Mesmo assim, o cenário continua marcado por pressões inflacionárias.

“O caminho é mais difícil para que os rendimentos voltem totalmente aos níveis anteriores ao conflito, devido ao aumento dos preços da energia e à inflação no mercado à vista”, informou o relatório, o que limita a margem para uma flexibilização adicional no curto prazo.

Na América Latina, esse contexto se traduz em um aumento da pressão inflacionária, enquanto na Ásia o impacto foi parcialmente contido por medidas fiscais.

No entanto, a combinação de taxas reais elevadas e margem para cortes mantém o atrativo relativo da região no contexto dos mercados emergentes.

Com uma meta de 1.680 pontos para o MSCI EM em 12 meses, o que equivale a um retorno de 20% desde o início de 2026, a atenção do mercado está agora voltada para a evolução dos lucros corporativos, a trajetória dos preços da energia e a concretização dos cortes nas taxas de juros — variáveis que definirão a sustentabilidade da liderança da América Latina no atual ciclo de recuperação.

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