Bloomberg Línea — A Copa do Mundo de 2026 começa hoje, com 48 seleções e 104 partidas.
Para os mercados, o interesse não está nos efeitos macroeconômicos do evento, mas na capacidade do torneio de impulsionar as receitas de hotéis, restaurantes, meios de comunicação, plataformas digitais e casas de apostas.
Bancos e empresas de análise como Deutsche Bank, Bloomberg Intelligence e Citi identificaram companhias que podem se beneficiar do aumento do turismo, do consumo relacionado aos jogos, da publicidade e da venda de produtos associados ao campeonato.
O Deutsche Bank estima que o torneio atrairá cerca de 1,2 milhão de torcedores internacionais e lembra que a FIFA calcula uma contribuição de até US$ 17,2 bilhões para o PIB dos Estados Unidos.
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Mesmo que esse valor seja alcançado, porém, o banco avalia que a contribuição representaria um impulso temporário de apenas 0,05% do PIB dos Estados Unidos, uma magnitude reduzida em comparação com outros fatores que atualmente dominam a economia global.
Esse efeito macroeconômico limitado contrasta com o potencial de ganhos para determinados setores. Os analistas do Deutsche Bank destacam que esta será a maior Copa do Mundo da história, com 16 seleções a mais do que no Catar 2022, 40 partidas adicionais e duração de 39 dias — fatores que ampliam as oportunidades comerciais para empresas expostas ao evento.
De acordo com a equipe do banco alemão, “a Copa do Mundo será uma oportunidade para que os setores e empresas mais expostos registrem um impulso temporário”, especialmente nas áreas de lazer, alimentação, bebidas, mídia, tecnologia e apostas esportivas.
As ações no radar de Wall Street
O turismo é o principal canal por meio do qual o torneio pode movimentar receitas. O Deutsche Bank incorporou às suas projeções para os REITs hoteleiros uma melhora de 50 a 75 pontos-base na receita por quarto disponível, diante do aumento esperado na ocupação e nas tarifas nas cidades-sede.
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A entidade considera que os hotéis com serviço completo podem atrair uma parcela significativa dessa demanda, pois “muitas delegações pagarão mais para ocupar andares inteiros, além de utilizar espaços para reuniões e serviços de alimentação”.
Entre as empresas mais expostas, o banco cita DiamondRock Hospitality (DRH), Host Hotels & Resorts (HST), Park Hotels & Resorts (PK) e Ryman Hospitality Properties (RHP). No segmento hoteleiro tradicional, identifica Hyatt Hotels (H), Hilton Worldwide (HLT) e Marriott International (MAR) como companhias com potencial para se beneficiar do aumento no número de viajantes.
O movimento dos torcedores também beneficia empresas ligadas à mobilidade e à hospedagem alternativa. Uber Technologies (UBER), Lyft (LYFT) e Airbnb (ABNB) figuram entre as ações monitoradas pelo Deutsche Bank diante da expectativa de aumento da demanda por transporte e acomodações nas proximidades dos jogos.
O setor de restaurantes é outro ponto de interesse. O banco acredita que o aumento do turismo e a proliferação de encontros para acompanhar as partidas podem impulsionar as vendas tanto em estabelecimentos físicos quanto em plataformas de entrega.
O relatório identifica Shake Shack (SHAK), The Cheesecake Factory (CAKE), Chipotle Mexican Grill (CMG), Starbucks (SBUX), Wingstop (WING) e Dunkin’, marca integrada à Inspire Brands e não listada na bolsa, entre as redes com presença significativa nas proximidades dos estádios.
O banco também destaca a Domino’s Pizza (DPZ), devido ao peso das entregas em seus negócios nos Estados Unidos. A companhia obtém cerca de 55% de suas vendas no país por meio desse canal e já lançou campanhas promocionais relacionadas ao torneio.
A oportunidade não se limita aos torcedores que forem aos estádios. O Deutsche Bank destaca que bares esportivos e restaurantes que transmitirem as partidas podem registrar um aumento no número de clientes, já que os jogos serão disputados em horários convenientes para o público norte-americano.
Buffalo Wild Wings, rede integrada à Inspire Brands e não listada na bolsa; Yard House, de propriedade da Darden Restaurants (DRI); BJ’s Restaurant & Brewhouse (BJRI); Applebee’s, pertencente à Dine Brands Global (DIN); e Chili’s, operada pela Brinker International (EAT), estão entre os estabelecimentos mencionados pelos analistas.
A Copa do Mundo também representa uma importante fonte de receita publicitária. O Deutsche Bank destaca que as estimativas históricas indicavam que a publicidade associada ao torneio nos Estados Unidos ficaria entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões, enquanto o Sportico projeta cerca de US$ 850 milhões para a edição de 2026.
A Fox Corporation (FOX), detentora dos direitos de transmissão em inglês, e a Telemundo, pertencente à Comcast (CMCSA) e responsável pelos direitos em espanhol, figuram entre as principais beneficiárias. O banco acrescenta que o YouTube, plataforma da Alphabet (GOOGL), pode reforçar seu crescimento publicitário após se tornar parceiro de distribuição digital de resumos e de determinados jogos.
Outro segmento acompanhado de perto é o de apostas esportivas. O Deutsche Bank estima que o volume total apostado durante o campeonato possa chegar a cerca de US$ 3,3 bilhões, com uma projeção otimista de US$ 4,1 bilhões.
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O banco prevê que a FanDuel, de propriedade da Flutter Entertainment (FLUT), registre cerca de US$ 1,3 bilhão em apostas, e a DraftKings (DKNG), aproximadamente US$ 1,1 bilhão. Os analistas consideram que “nossa previsão básica está modestamente acima das expectativas dos investidores”, uma diferença que pode servir de catalisador para algumas empresas do setor durante o torneio.
As marcas esportivas também ocupam posição de destaque entre as possíveis vencedoras. Nike (NKE) e Adidas partem com vantagem graças aos acordos de patrocínio, à visibilidade das seleções nacionais e ao lançamento de novos produtos relacionados ao campeonato, segundo Poonam Goyal e Sydney Goodman, analistas da Bloomberg Intelligence.
As duas empresas dominam a disputa pelo fornecimento de material esportivo das seleções. A Adidas vestirá 14 equipes, e a Nike, 12. Goyal e Goodman lembram que a Adidas já comercializa a bola oficial Trionda e afirmam que “a oportunidade relacionada à Copa do Mundo pode chegar a 1,2 bilhão de euros, ou 20% a mais, se as recentes vitórias em maratonas prolongarem o impulso da marca”.
A audiência global é outro fator relevante. A Bloomberg Intelligence destaca que a final do Catar 2022 reuniu cerca de 1,5 bilhão de espectadores, acima dos aproximadamente 1,1 bilhão registrados em 2018, uma escala que amplia a exposição comercial de fabricantes de equipamentos esportivos e patrocinadores.
América Latina também busca seu espaço
A realização conjunta do torneio nos Estados Unidos, no México e no Canadá coloca várias empresas latino-americanas entre as potenciais beneficiárias do evento, especialmente aquelas com presença nas cidades-sede ou ligadas a patrocinadores oficiais.
Tiago Harduim, da Bloomberg Intelligence, identifica a Arca Continental (AC*) como uma das empresas mais bem posicionadas. O analista destaca que sua área de atuação abrange Monterrey, Guadalajara, Dallas e Houston, uma combinação que expõe a companhia tanto ao mercado mexicano quanto ao norte-americano.
Segundo o analista, a empresa possui uma vantagem operacional difícil de reproduzir, pois “isso proporciona à Arca uma combinação de capacidade de execução local, disponibilidade de bebidas geladas e ativações patrocinadas nas proximidades dos estádios, nas áreas de torcida e no consumo doméstico”.
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A exposição geográfica é um dos critérios utilizados pela Bloomberg Intelligence para avaliar os possíveis beneficiários.
A Arca Continental (AC*) obtém cerca de 80% de sua receita nos Estados Unidos, no México e no Canadá. Gruma (GRUMAB), Grupo Bimbo (BIMBOA), Coca-Cola Femsa (KOFUBL) e Femsa (FEMSAUBD) também figuram entre as empresas com exposição relevante aos mercados anfitriões.
A análise considera um segundo fator: a participação das seleções nacionais no torneio.
A Bloomberg Intelligence avalia que empresas com forte presença no Brasil, na Argentina ou no México podem se beneficiar de campanhas promocionais mais prolongadas, encontros para acompanhar os jogos e aumento do consumo associado ao desempenho de suas seleções.
A Ambev (ABEV3) se destaca nessa análise devido à importância do Brasil em seus negócios.
A Arcos Dorados (ARCO), operadora do McDonald’s (MCD) em grande parte da América Latina, também figura entre as empresas avaliadas, diante de sua elevada exposição ao Brasil e à Argentina e da condição do McDonald’s como patrocinador oficial do campeonato.
A Bloomberg Intelligence avalia que as campanhas comerciais terão um papel importante.
Entre os exemplos, cita promoções relacionadas à Coca-Cola, ativações digitais, turnês do troféu e ações de marcas como Budweiser, Michelob Ultra e McDonald’s para aproveitar o aumento da visibilidade gerado pelo evento.
O potencial de ganhos, no entanto, varia entre as empresas.
A Bloomberg Intelligence destaca que companhias muito dependentes de mercados ausentes da competição podem capturar uma parcela menor do impulso associado à Copa do Mundo.
O Chile, por exemplo, ficou fora do torneio, fator que limita o potencial de algumas empresas com elevada concentração de receitas no país.
A análise do Citi coincide em vários desses nomes.
A equipe liderada por Filippo Falorni aponta Ambev, Coca-Cola Femsa e Arca Continental como as principais beneficiárias na América Latina. Nos Estados Unidos, destaca empresas como Coca-Cola, PepsiCo (PEP), McDonald’s, Domino’s Pizza, Marriott International, Uber Technologies, Alphabet (GOOGL), Meta Platforms (META), DraftKings e Nike.
Nas próximas semanas, a atenção do mercado se concentrará em verificar até que ponto o aumento do turismo, da publicidade, das vendas de produtos esportivos e do volume de apostas se refletirá nos resultados das empresas.
A evolução da audiência televisiva, a ocupação hoteleira, o consumo em restaurantes e os números de merchandising serão algumas das variáveis usadas para avaliar o verdadeiro impacto econômico da maior Copa do Mundo da história.