Universidades americanas aceleram megaprojetos esportivos para ampliar receita

Novas regras de repartição de receitas aceleram projetos com camarotes, hotéis, restaurantes e outras fontes de renda no esporte universitário. Com custos crescentes, instituições investem em assentos premium, arenas e distritos de entretenimento para reforçar faturamento esportivo

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Bloomberg — Os novos assentos do clube oferecem um menu com tudo incluído e variedade rotativa de bolinhos de caranguejo, costelas defumadas, salada Cobb e macarons, além de cerveja e vinho. Mais de 40 suítes privativas têm vista para o campo de futebol em perfeitas condições, cercado por torres de iluminação projetadas para parecerem espigas de trigo balançando ao vento.

Este não é um estádio da NFL. Trata-se do David Booth Kansas Memorial Stadium, casa dos Jayhawks da Universidade do Kansas e local de uma reforma em andamento de aproximadamente US$ 800 milhões, que inclui um distrito de entretenimento adjacente.

Os novos assentos de luxo e as comodidades sofisticadas mostram como o novo modelo financeiro nos esportes universitários se assemelha muito mais ao das equipes profissionais.

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Com as universidades agora pagando aos jogadores uma parte de sua receita, a corrida para gerar mais dinheiro a fim de se manterem competitivas está em andamento. Grandes cidades universitárias, como Norman, em Oklahoma, e Knoxville, no Tennessee, estão repletas de equipamentos de construção, à medida que erguem arenas de futebol americano e basquete mais sofisticadas com ofertas premium, muitas vezes cercadas por restaurantes, apartamentos e hotéis.

As maiores conferências esportivas universitárias concordaram no ano passado com um plano de repartição de receitas com os jogadores, que totaliza cerca de US$ 21,6 milhões por instituição para atletas de todos os esportes no ano letivo de 2026-27. Espera-se que esse valor aumente 4% ao ano — mas poderia, na prática, mais que dobrar se um novo projeto de lei for aprovado pelo Congresso.

Além do pagamento aos atletas, outras despesas vêm aumentando em milhões de dólares a cada ano, incluindo a remuneração de treinadores e equipes técnicas, afirmou Roger Noll, economista da Universidade de Stanford.

“As instituições não querem financiar isso inteiramente com seus orçamentos gerais”, disse Noll, coautor do livro Sports, Jobs, and Taxes: The Economic Impact of Sports Teams and Stadiums (Esportes, Empregos e Impostos: O Impacto Econômico de Times de Esporte e Estádios, em tradução livre). “O ideal para todos é encontrar novas fontes de receita.”

Uma fonte fundamental de crescimento da receita: estádios, arenas e os terrenos ao redor. Instalações mais sofisticadas permitem cobrar preços mais altos pelos ingressos e gerar mais gastos com lanchonetes, além de poderem sediar shows e outros eventos além dos jogos da temporada.

As áreas próximas podem ser transformadas em estacionamentos pagos ou utilizadas para restaurantes e hotéis que pagam aluguel às universidades e ajudam a impulsionar mais gastos dos consumidores.

Isso traz desafios. Em primeiro lugar, as universidades precisam encontrar recursos para o desenvolvimento. A Universidade do Tennessee recorreu a fundos de private equity, enquanto o Kansas buscou financiamento junto ao ex-aluno David Booth, um dos maiores nomes do setor financeiro. Ele concordou em contribuir com US$ 300 milhões.

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“O Kansas tem tido muita sorte, pois sempre teve um ótimo time de basquete. O seu time de futebol americano passou por um período de baixa até recentemente”, afirmou Booth, fundador da Dimensional Fund Advisors, em uma entrevista. “O departamento de esportes apresentou a ideia de que, para voltarmos a ser realmente competitivos, precisaríamos de um novo estádio de futebol americano, e eu concordei com o argumento.”

O valor mínimo para ter acesso a uma suíte no estádio do Kansas exige uma doação de US$ 800.000, além de US$ 60.000 anuais para a suíte.

Outro obstáculo é que as comunidades locais nem sempre apoiam a iniciativa, e os projetos costumam levar anos para serem concluídos. Além disso, há os ex-alunos.

Em nenhum lugar a tensão é mais evidente do que na Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, onde a nova realidade financeira dos esportes universitários está entrando em conflito com a tradição.

A universidade elaborou um plano para transferir o seu time masculino de basquete, vencedor de campeonatos, do Dean E. Smith Center e construir uma arena fora do campus. Isso faria parte de um novo empreendimento para acomodar o crescimento previsto de 5.000 estudantes, instalações de pesquisa, restaurantes e espaços de entretenimento. O maior empreendimento desde que a primeira pedra fundamental foi lançada na instituição, em 1793.

Os administradores afirmaram que o Dean Dome estava ficando ultrapassado e que a nova arena geraria milhões a mais em receita a cada ano. A reação negativa de ex-jogadores, estudantes, ex-alunos e até mesmo do ex-técnico Roy Williams foi intensa. A universidade suspendeu a decisão.

Williams, que se aposentou em 2021, defende a reforma do Dean Dome, que tem 40 anos. Ele teme que a universidade esteja motivada pelo dinheiro, em vez de pelo que é melhor para a equipe.

“Há novos desafios. Há novos tipos de pressão”, disse Williams em uma entrevista. “Será que uma nova arena vai eliminar essa pressão? Eles ainda não provaram que vamos arrecadar X dólares a mais.”

A única coisa que não pode acontecer é a manutenção do status quo, afirmou o reitor Lee Roberts: “Colocamos baldes quando chove”, disse ele em uma entrevista em junho.

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Custos crescentes

Mesmo antes de começarem a pagar aos jogadores, os departamentos esportivos das universidades já gastavam mais do que geravam em receita, de acordo com um relatório divulgado em agosto pelo Gabinete de Prestação de Contas do Governo dos EUA.

Os programas esportivos da Divisão I gastaram, no total, US$ 20,8 bilhões no ano letivo de 2023-2024 com despesas relacionadas aos jogos, como viagens e equipamentos, assistência médica, bolsas de estudo e remuneração para treinadores e equipe técnica.

De acordo com o GAO, 94% desses programas gastaram mais do que arrecadaram. Entre as chamadas universidades “Power”, aquelas nas conferências mais competitivas da Divisão I, o déficit médio foi de US$ 15,2 milhões, em comparação com um déficit de US$ 2,7 milhões quase uma década antes.

A maioria das faculdades da Divisão I contribuiu com recursos substanciais para apoiar os seus departamentos esportivos, segundo o relatório, financiados por mensalidades e taxas pagas pelos alunos, bem como por fundos sem restrições.

Após décadas resistindo ao pagamento direto aos atletas, as instituições de ensino começaram, no ano passado, a compartilhar receitas após um acordo com a Suprema Corte. No entanto, acordos separados para que os atletas se beneficiem de seu nome, imagem e semelhança (NIL) com terceiros revelaram-se caóticos e quase tornaram o “teto” irrelevante.

Um projeto de lei bipartidário denominado “Protect College Sports Act” (Lei de Proteção aos Esportes Universitários) busca regulamentar esse cenário em rápida mudança, estabelecendo mais limites à “corrida desenfreada” pelo NIL, restringindo as transferências e permitindo que as instituições gastem até US$ 27,5 milhões a mais por ano com os atletas por meio de verbas de retenção, a fim de evitar transferências contínuas.

A legislação superou um grande obstáculo na terça-feira com forte apoio bipartidário, indicando que é provável que seja aprovada no Senado antes que os legisladores entrem em recesso para as eleições de meio de mandato. Ela também terá de ser aprovada pela Câmara, que não deve retornar para votações até depois das eleições de meio de mandato.

“As expectativas de que os departamentos esportivos gerem receita são maiores do que nunca”, afirmou Amy Perko, que lidera a Comissão Knight sobre Esportes Interuniversitários.

Para ajudar a financiar a repartição de receitas, instituições como a Universidade do Tennessee adicionaram uma “taxa de talento” de 10% aos preços dos ingressos para todos os esportes. Os Volunteers receberão uma parcela da receita operacional de um distrito de entretenimento de US$ 288 milhões adjacente ao estádio de futebol americano, que incluirá um complexo com condomínios e hotéis, lojas, restaurantes e espaços para eventos.

A empresa de private equity Arctos Partners está trabalhando com incorporadoras para construir o distrito. A universidade receberá US$ 1,5 milhão por ano em aluguéis.

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Lutando contra a tradição

Na UNC-Chapel Hill, as ambições de construir uma nova arena de basquete estão em suspenso.

A universidade está avançando com uma nova extensão do campus chamada Carolina North, a quase duas milhas do campus principal. O projeto, cujo início está previsto para o próximo ano, inclui moradias para estudantes e residências multifamiliares, escritórios e espaços comerciais em um terreno doado à universidade há décadas.

O carro-chefe seria uma arena de basquete de US$ 786 milhões com instalações de treinamento aprimoradas, assentos premium e camarotes. A nova arena geraria um fluxo de caixa líquido anual de US$ 26 milhões, de acordo com projeções compartilhadas por autoridades da universidade, sem contar a receita proveniente do distrito de entretenimento adjacente, com lojas e restaurantes.

Um Comitê pela Arena do Campus Sul, liderado pelo ex-conselheiro Rusty Carter, organizou uma petição contra a localização da nova arena, que já reuniu mais de 40.000 assinaturas.

Carter afirmou que teme que as mudanças nos esportes universitários, incluindo a arena proposta, afastem estudantes e ex-alunos. “Vocês se afastarão de sua base de torcedores verdadeiramente histórica e leal, e a deixarão para trás”, disse ele.

O lendário técnico Dean Smith, que faleceu em 2015, defendia veementemente que o basquete dos Tar Heels permanecesse no campus, segundo Williams. Smith encarregou Williams de proteger essa tradição.

“É meu dever tentar fazer tudo o que puder para mantê-lo no campus”, disse Williams. “Podemos ser diferentes, e isso não precisa se resumir a correr atrás do dinheiro.”

Autoridades da universidade afirmaram que a reforma das instalações atuais apresenta sérias limitações e que o fluxo de caixa líquido anual é estimado em cerca de US$ 4 milhões — uma fração do potencial de ganhos em um novo local. Críticos questionaram as projeções da instituição para os seis cenários analisados. Uma opção é a construção de novas instalações próximas ao Smith Center.

“Se houvesse uma opção perfeita, já a teríamos encontrado, mas não há”, afirmou Roberts, o reitor. “Tudo envolve compromissos, e é isso que temos de tentar resolver.”

A universidade não divulgou um cronograma para a tomada de decisão, limitando-se a informar que o processo estava em pausa enquanto o novo treinador principal se adaptava. Michael Malone, ex-treinador do Denver Nuggets, da NBA, assinou em abril um contrato de seis anos no valor de US$ 50 milhões com a UNC.

Recursos financeiros robustos e financiamento público

Garantir o financiamento para a construção de novas instalações pode ser um desafio.

A Universidade de Oklahoma e uma fundação privada associada levaram uma década para dar andamento a um distrito de entretenimento de US$ 1,1 bilhão chamado Rock Creek, cujo ponto central é uma arena de US$ 330 milhões, em sua cidade-sede, Norman.

O projeto está localizado em um terreno de propriedade da fundação e é financiado com US$ 800 milhões em investimento de capital privado, além da emissão de até US$ 230 milhões em títulos.

O condado será o proprietário da arena, e os títulos também ajudarão a custear um estacionamento e a infraestrutura. Os títulos seriam pagos por meio do chamado “financiamento por incremento tributário”, o que significa que o crescimento dos impostos locais sobre vendas e sobre a propriedade provenientes do distrito será utilizado para saldar os títulos em 25 anos ou menos.

O projeto tem enfrentado contestação judicial por parte de grupos locais que se opõem ao empreendimento e exigiram uma votação sobre o uso do financiamento público. Até o momento, os tribunais permitiram que o projeto prosseguisse, e os incorporadores deram início às obras em maio.

O local, com cerca de 8.000 assentos, será a nova sede dos times de basquete masculino e feminino e da equipe de ginástica feminina, três dos seis esportes selecionados para a repartição de receitas na instituição. Cerca de um quarto dos assentos será considerado premium, e a arena deverá ser inaugurada dentro de alguns anos.

“A própria instalação será uma ferramenta atraente para o recrutamento devido à sua qualidade, e o maior acesso aos assentos premium também trará benefícios financeiros para as equipes”, afirmou Guy Patton, presidente e CEO da Fundação da Universidade de Oklahoma, responsável pelo desenvolvimento do projeto. “Esta será uma grande conquista para a comunidade.”

Booth, o fundador da Dimensional, de 79 anos, afirmou que não foi difícil para a Universidade do Kansas convencê-lo a fazer uma grande doação. O nativo do Kansas trabalhou como recepcionista e vendia pipoca no estádio quando era adolescente.

Ele afirmou que o complexo, que inclui um centro de conferências, hotel, dormitórios estudantis e restaurantes, “terá um impacto considerável” naquela região do Kansas durante todo o ano.

Além das doações, o projeto está sendo capitalizado por meio de financiamento com incremento tributário e títulos que serão pagos com a receita adicional do imposto sobre vendas do distrito.

Quanto ao modelo de negócios nos esportes universitários, ele acredita que levará de 5 a 10 anos para que a “situação caótica” se estabilize.

“Como torcedor, fico um pouco triste ao ver isso acontecer. Como economista, porém, acho que é importante”, disse Booth. “Para os jovens que estão entrando, essa é a chance deles de ganhar algum dinheiro, mais do que depois que saírem da faculdade. Por isso, é difícil culpá-los por isso.”

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