Bloomberg Línea — Chicago aguarda com ansiedade o início da Copa do Mundo. O evento esportivo não é apenas uma celebração do futebol, mas uma aposta fundamental para a reativação da economia local.
Apesar de a chamada “Cidade dos Ventos” não figurar na lista de sedes oficiais do torneio, suas ruas e avenidas já respiram o clima mundialista — uma cidade que abriga dezenas de milhares de latinos apaixonados pelo futebol.
Comerciantes, empresários e vendedores ambulantes ouvidos pela Bloomberg Línea afirmam que a Copa do Mundo é um evento de enorme relevância econômica local, capaz de revitalizar comércios, restaurantes e bares que sofreram nos últimos anos.
“Esperamos vender muito e que todos que estamos aqui possamos fazer nossos negócios prosperarem”, disse Margarita Bravo, que vende camisetas esportivas.
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Distrito financeiro
O centro da cidade ainda registra 5% de seus espaços comerciais vazios, em parte pelos efeitos da pandemia. Muitas das vagas em edifícios de escritórios decorrem da adoção do trabalho remoto implementado durante a covid-19. Para revitalizar a economia local, a prefeitura busca converter prédios antigos de escritórios em apartamentos residenciais e hotéis.
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No caso dos comércios latinos, a situação é diferente. Enquanto no centro o trabalho a distância pressiona os aluguéis, em bairros como La Villita, Pilsen e o Bairro dos Empacotadores, o fechamento de estabelecimentos resulta de uma combinação de fatores mais específicos.
Um deles foi a pandemia, mas o principal responsável é a queda no fluxo de compradores ao longo dos corredores comerciais, provocada pela presença de agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas (ICE, na sigla em inglês) e da Patrulha de Fronteira.
Durante a operação “Midway Blitz”, de setembro a dezembro de 2025, cerca de 4.500 imigrantes sem autorização legal de residência foram presos, principalmente em bairros latinos de Chicago, segundo o Departamento de Segurança Nacional. Muitos outros foram detidos em cidades vizinhas. O clima de medo se instalou na comunidade imigrante e impactou duramente o comércio local.
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Câmaras de comércio relataram que a presença dos agentes federais reduziu drasticamente o fluxo de pessoas — incluindo compradores e turistas — em bairros emblemáticos como La Villita, onde por meses os restaurantes operaram quase vazios.
Copa como luz de esperança
No bairro La Villita, onde vivem cerca de 100.000 mexicanos, a Copa do Mundo chega como um alívio necessário. O corredor comercial da Rua 26, historicamente o segundo mais importante da cidade — com vendas próximas a US$ 1 bilhão em anos anteriores —, busca recuperar o seu antigo brilho.
Segundo Jennifer Aguilar, diretora da Câmara de Comércio de La Villita, a intensa presença de agentes federais no ano passado e o número de detidos e deportados provocou uma queda nas vendas de “entre 40% e 70%” dos estabelecimentos do bairro.
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Mas o setor de restaurantes agora parte para a ofensiva. Sam Sánchez, presidente do conselho da Associação de Restaurantes de Illinois, garante que os estabelecimentos estão prontos para capturar o efeito econômico do torneio.
“Estamos preparados. Muitos clientes nos perguntam quais jogos vamos transmitir; a resposta é todos. Vamos abrir cedo e decorar nossos espaços”, disse Sánchez, destacando que promoções e clima festivo são essenciais para atrair o público jovem e os consumidores de bebidas.
A paisagem urbana também vai se transformar. Renders divulgados mostram que diversos restaurantes do centro de Chicago, como o Moe’s Cantina e o Tree House, serão revestidos com as cores das seleções participantes.
Armando Porras, comerciante de artigos esportivos no Discount Mall — ponto turístico e comercial da cidade —, vê na Copa uma esperança de recuperação, agora que a atividade do ICE diminuiu. “Achamos que as pessoas vão sair mais, sem medo. Já estão cansadas de ficar em casa e precisam sair para comprar suas camisetas para o Mundial”, disse.
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David Galicia, dono do restaurante Atardecer Acapulqueño, conta que seus garçons oferecerão 20% de desconto em todos os pratos sempre que a seleção mexicana vencer um jogo. Sua sócia, Guadalupe Angela Vázquez, acrescenta que, se o México chegar à final, o restaurante dará até 50% de desconto aos clientes.
Juan Gama, membro da diretoria da Associação de Vendedores Ambulantes de Chicago, também está otimista. Segundo ele, as vendas dos associados subiram 15% com a redução da presença dos agentes federais, e ele espera que a Copa amplie ainda mais esse crescimento. Muitos deles já vendem camisetas das seleções que disputarão o torneio.
Não há um censo oficial do número de vendedores ambulantes na cidade, mas antes da pandemia a associação estimava que cerca de 3.000 pessoas vendiam de tudo — de comida, como frutas picadas e tamales, a roupas e utensílios domésticos. Gama afirma que hoje há mais vendedores informais do que antes, em razão da chegada de uma nova leva de imigrantes venezuelanos e colombianos cujas permissões temporárias de trabalho foram canceladas pelas autoridades migratórias.
Nos corredores comerciais latinos da cidade, já é possível encontrar arepas e empanadas — comidas raramente vistas nas ruas há alguns anos.
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Segundo o Illinois Policy Institute, os vendedores ambulantes de Chicago geram mais de US$ 35 milhões em vendas anuais, dos quais cerca de US$ 16 milhões vão diretamente para o bolso dos trabalhadores informais.
O fato é que há mais otimismo nas ruas — tanto pela redução das prisões pelo ICE quanto pela chegada do torneio de futebol mais importante do mundo.
Líderes pró-imigrantes, como Baltazar Enríquez, dizem que a comunidade de La Villita está mais segura hoje graças às “patrulhas comunitárias”, também chamadas de “equipes de resposta rápida”. Esses grupos alertam os moradores sobre a presença de agentes federais de imigração.
“Vamos ampliar os horários de vigilância e vamos monitorar também durante a noite, porque o ICE está mudando sua estratégia”, diz Enríquez.
As detenções, segundo ele, passaram a ocorrer à noite ou nos arredores de tribunais municipais. A adoção dessas equipes fez com que os vendedores ambulantes se sentissem mais seguros.
O próprio czar da fronteira, Tom Homan, no auge da operação Midway Blitz, expressou frustração ao dizer que a rede de alerta comunitária estava “bem organizada demais”.
Um negócio bilionário
Em escala global, a FIFA projeta que esta edição será a mais lucrativa de sua história, graças à expansão para 48 seleções e um total de 104 partidas, o que deve gerar receitas de US$ 11 bilhões. Só nos Estados Unidos, estima-se que o torneio contribuirá com US$ 17,2 bilhões ao Produto Interno Bruto.
Calcular com precisão quanto ficará em Chicago é tarefa complexa, mas comerciantes de todos os portes — de grandes restaurantes a vendedores ambulantes — veem no futebol uma tábua de salvação financeira.
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